Acordei para RubemFonsequear

(o texto a seguir não reflete a opinião de seu autor, é apenas um devaneio de sua mente incansável que tem uma grande paixão pelo universo da literatura sem limitações ou bloqueios para a imaginação)

 

Na primeira colherada, vomitei. Vomitei muito. Era o jeito do meu corpo dizer: “Isso não é mais pra você.” Resolvi aceitar o conselho. Afinal de contas, durante toda minha vida nunca ouvi meu corpo. Sempre dei um jeito de matá-lo aos pouquinhos. Mas, agora que minha vida estava ameaçada por um gordo-filho-da-puta, eu percebi que queria viver. Joguei tudo no lixo e joguei o lixo na rua. Aproveitei a viagem e saí de casa.

Uma quadra. Duas quadras. Duas quadras e meia. Eu não conseguia parar de olhar para os lados. Feito um maluco mesmo. Feito um louco bêbado que eu era. O gosto de vômito ainda na minha boca. Minha garganta seca. Minha mão tremendo um bom tanto. Minhas pernas um outro bom tanto. “Pra onde eu vou, caralho?!”

Na terceira quadra eu vi um gordo. Achei que era ele e pulei atrás de um negócios desse de recolher entulhos. Caí numa poça de água e rasguei minha calça na altura do joelho. Parecia um mendigo bêbado oficialmente. Lembrei até do sonho do meio bigode e passei a mão no rosto para ver se estava tudo lá. Levantei e vi que o gordo que eu vi não era o gordo-filho-da-puta-que-comia-a-Dana. Eu estava acordado mesmo, mas precisava de um gole.

Que tipo de cara eu estava me tornando? Acho que daqueles tipos que tem doenças psicológicas relacionadas ao medo. Afinal, tem gente que tem medo de aranha.

“Aracnofobia.”

Tem gente que tem medo de altura.

“Acrofobia.”

Tem gente até que tem medo de água.

“Hidrofobia.”

Deve até ter gente que tem medo de meleca.

“Melecofobia.”

Então! Eu tenho medo de gordo.

“Gordofobia ou sei lá o quê.”

Mas que se foda. Decidi não deixar que nenhum gordo-filho-da-puta-que-comia-a-Dana-e-que-agora-quer-me-matar estrague minha vida. Meu telefone tocou, mas eu não conhecia o número, por isso não atendi.

Fui pra casa tomar banho e trocar de calça. Claro que vi mais uns três gordos no caminho e me escondi pulando. Claro que me sujei mais ainda. Claro que terminei de estourar minha calça. Mas, mesmo em dias incertos como esse, vi a importância de cada coisa da minha vida.

Percebi que, “às vezes, ando tão fudido, quebrado na falta de grana, nervoso numas de horror”, que nem percebo a sordidez e a ironia do destino. Porra, eu parei de beber no dia em que descobri que tem um gordo-filho-da-puta-que-comia-a-Dana-e-que-agora-quer-me-matar-porque-sabe-que-eu-comi-de-graça-quem-ele-paga-pra-comer.  Parei de beber e descobri que a Dana quer ficar comigo.

“Afinal, foi isso que ela disse no telefone antes de desligar daquele jeito estranho, certo?”

Terminei o banho e decidi usar a melhor roupa que eu tinha. Peguei um terno que usei pra ir ao casamento da minha irmã. Tudo bem que isso foi há anos, mas era o único terno que eu tinha. Tava meio apertado e curto, mas combinava com meu bigode. Tava meio amassado também, mas resolvi que usaria mesmo assim. O dia era importante demais pra usar minhas roupas velhas. Não que essa fosse nova. Olhei no espelho e achei que estava perfeito, com exceção de uma coisa: eu não gostava da gravata.

“Mas que gravata idiota!”

Rosa com bolinhas amarelas. Com certeza eu tava bêbado quando achei que uma gravata gay dessas prestava. Amassei e joguei a gravata no lixo. Chamei um táxi e entrei no carro olhando para os lados e enxergando mais uns cinco gordos daqueles. “Gordofobia.”

– Pra onde vamos?!

– Puta que o pariu!

– Puta que o pariu o quê?!

– Você é gordo!

– O que você disse?!

O motorista me chutou do táxi.

“Gordo-lazarento!”

Não adiantava gritar. Vi mais uns sete gordos. Um deles era mulher e estava grávida. Senti muita culpa por pensar mal dela. Amaldiçoei o gordo-lazarento-do-táxi e continuei andando. Passei em frente a uma igreja e o padre que estava parado em frente também era gordo.

Bom, sei só que andei numa cidade cheia de gente gorda até chegar até a casa da Dana. Entrei sem bater e ela correu e me abraçou. Nenhuma mulher jamais havia corrido me abraçar daquele jeito e eu tive certeza que tinha alguma coisa errada. Ela beijou o meu bigode, mas eu não fechei os olhos. Foi aí que eu vi que seu olho estava roxo. Senti muita raiva e, antes de perguntar qualquer coisa para Dana, vi o gordo-filho-da-puta-que-comia-a-Dana-e-que-agora-queria-me-matar-com-uma-faca-na-mão descendo a escada. A mesma escada que eu havia rolado abaixo alguns dias antes.

Quando tive certeza que não havia revólver no meio dos dedos de banha dele, eu virei macho. Faca eu já havia enfrentado. Briga de bar não é lenda. Ainda mais nos botecos que eu costumava freqüentar até ontem.

“Larga essa merda, seu gordo-filho-da-puta!”

Ele gritava, mas eu não entendia. Até porque a Dana também gritava no meu ouvido. Além disso, a abstinência estava me pegando. Eu suava demais e minhas mãos só pararam de tremer naquela hora provavelmente por causa da adrenalina que tomou conta de tudo. A gordofobia se dissolveu no ar e eu desviei com habilidade do primeiro movimento de sua mão. Tentei agarrar a faca, mas, com toda aquela banha, ele me empurrou e eu caí. Dana entrou no meio e ele deu um soco bem no meio da cara dela.

Ver o sangue de Dana voando e seu corpo caindo desfalecido me enfureceu. Pensei que havia desmaiado. Acordado. Dormido. Sonhado. Pirado. Senti meu corpo ir pra frente e pra trás. Pulei sobre o gordo e tudo aconteceu muito rápido. Tão rápido que não consigo contar com pausas:

joguei todo meu peso sobre o gordo e o gordo caiu e então eu comecei a socar a cara do gordo e o gordo sangrava e o gordo gritava apavorado com minha fúria e eu socava mais o gordo e o gordo sangrava mais e os dentes do gordo caiam e minha mente se enchia da mesma palavra gordo e gordo e gordo e eu acho que só repetindo gordo bastantes vezes é que todo mundo consegue entender minha fúria contra aquele gordo -filho-da-puta-que-comia-a-Dana-e-que-agora-queria-me-matar-com-uma-faca-na-mão-e-com-a-cara-ensanguentada e o gordo enfiou a porra da faca na minha perna e eu sangrei junto com ele até ele desmaiar e eu tirar a faca da minha perna e começar a cortar o pescoço do gordo e o gordo sangrava e morria enquanto minha perna sangrava e minha mão fazia força e minha mente pensava gordo e gordo e gordo e eu lembrava da Dana lembrando o soco e eu pensava que os filmes que meu pai assistia eram mentirosos porque levei uma meia hora para arrancar a cabeça do gordo fora

Dana acordou e eu continuava pensando “gordo e gordo”. A cabeça da criatura jazia no meu colo. Ela levantou espantada. Eu achei que ela começaria a gritar a qualquer segundo. Se eu estivesse no lugar dela, gritaria. Mas não. Ela olhou para mim depois de um tempo de silêncio e disse.

“Temos que esconder o corpo.”

Estranhas são as mulheres que eu acabo amando.

– Como? Por quê?

– Primeiro porque você matou o desgraçado. Depois, porque eu tenho muito do dinheiro dele, mas não tem nenhuma ligação do meu nome com o desse nojento. Ninguém nunca vai descobrir o que aconteceu aqui.

Estranhas são as mulheres que eu acabo amando.

– O quê? Ein? O que você sugere? Que eu carregue esse gordo num saco preto?

– Não, isso seria impossível. Ainda mais com você tremendo desse jeito.O melhor a ser feito é cortar em pedaços.

Estranhas são as mulheres que eu acabo amando.

– O quê?!

Acabei concordando. Era a melhor solução. Levamos o resto do dia cortando o gordo em pedaços. Embrulhamos cada pedacinho com sacos pretos de lixo. Limpamos a sala com toalhas e também as jogamos nos sacos pretos. Gordo Gordo. Gordo. Depois acabamos decidindo não levar os pedaços em lugar nenhum. Acendemos a churrasqueira e queimamos todas as banhas do maldito. Plástico queimado. Banha dissolvendo. Carne torrada. A fumaça fez feder a vizinhança.

Com a sensação de que perdemos o dia, tomamos um banho juntos. Dei o mesmo fim para o terno que havia dado para a gravata. Decidi nunca mais beber enquanto Dana colocava muito gelo na cara. Dormimos abraçados a noite toda e nem trepamos.

“Dias incertos.”

Acordei amarrado na cama e Dana amarrada numa cadeira. O gordo ria. A cara dela estava ensangüentada. Eu me lembrei da hora que ela havia levado o soco. Ela levou o soco e eu desmaiei. “Merda!”

Amaldiçoei a abstinência.

“Dias incertos pra valer.”

Sobre Belão

Escritor, Professor e Publicitário. Não necessariamente nessa ordem. "Ele soava como um delírio de uma mente cansada da banalidade do segunda-à-sexta. Parecia daqueles que desfilam descuidados pelas ruas, sem se deixar afetar por nada ou ninguém. Com estilo próprio por excelência de consciência e com personalidade mais do que confusa pela falta de linearidade de todas suas idéias, pensamentos, ironias, citações e crises apocalípticas de descontentamento pelo mínimo que o existir exige."
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2 respostas para Acordei para RubemFonsequear

  1. luci disse:

    Quem é esse cara?
    Cade o Tito?
    Acho que vou começar um regime e parar de beber!
    Luci

  2. Felipe disse:

    Esse é o cara que escreve textos sem medo e sem censura absurda…
    esse é o cara que vira as tripas do porco ao contrário se precisar e se o texto pedir
    esse é o cara que escreve com a alma de um anjo ou de um porco
    esse é o cara que diz… sempre… o que pensa

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