Amanhã tem fé

 
 
“Eu poderia escrever os versos mais tristes essa noite.” Mas não quero. Não quero nem escrever, pensar. Deito com fé no amanhã. Com paixão guardada. Com casa vazia e coração incompleto. Durmo sem aproveitar cada segundo. Adormeço sem pensar no toque suave do cobertor ou no perfume do travesseiro. Porém, faço isso com fé no amanhã. Sonho com os churrascos de amanhã e com os beijos de amanhã. Penso que as macarronadas serão ainda mais saborosas e imagino um mundo bom e diferente do passado. Tudo porque, pelo menos por hoje, tenho fé no amanhã. Tenho que deitar otimista para poder programar o despertador e acordar cinco minutos antes que ele me chame. Tenho que esperar o toque irritante e levantar com o pé direito e tomar banho quente e ir trabalhar cantando. Tenho que rir no trânsito e tenho que colocar minha paixão em cada detalhe do meu dia. Tenho que comer bastante salada no almoço e carne e carboidratos sem fim. Afinal, minha fé é no amanhã. O hoje pode ser medíocre e impaciente, mas há amanhã e eu boto fé. Por isso não escrevo triste. Não paro para sorrir ou chorar. Não há lágrimas, embora exista um nó na garganta e uma vontade de se entregar. No entanto, quem tem fé no amanhã não se entrega. Vive com garra e pensa no bom exemplo. Engole o nó da garganta e sorri para o guarda. Diz oi para todos e sorri sem jeito, sem mostrar os dentes. Não há razão para desespero ou falsidade, pois o melhor está por vir. Por vir amor. Porvir de fé no amanhã. Nem que não entendam. Nem que o maestro cante triste. Nem que o poeta me diga que eu poderia escrever os versos mais tristes nessa noite. A escolha é minha. Minha escolha é pelo amanhã. Por isso acabo vivendo o agora com intensidade e esperança, sem temor. Quero, desejo, almejo, preciso. Conjugo verbos do impossível e do inalcançável e imagino os sorrisos que se foram sorrindo de um jeito diferente e puro. Um jeito de sorriso de amanhã. Porque eu boto fé. Amanhã tem mais. Tem fé, café. Há de ter.
 
 

Sobre Belão

Escritor, Professor e Publicitário. Não necessariamente nessa ordem. "Ele soava como um delírio de uma mente cansada da banalidade do segunda-à-sexta. Parecia daqueles que desfilam descuidados pelas ruas, sem se deixar afetar por nada ou ninguém. Com estilo próprio por excelência de consciência e com personalidade mais do que confusa pela falta de linearidade de todas suas idéias, pensamentos, ironias, citações e crises apocalípticas de descontentamento pelo mínimo que o existir exige."
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