Amor incondicional

Se eu escrevesse o hoje, por hoje, seria melancólico. Difícil o caminho, escreveria. Cheio de dor, sofrimento e saudade. Coisas que realmente fazem sentido bem nesses momentos em que não tenho força ou vontade para expressar. Esquecer tornou-se improvável e meus lamentos se estendem a um mundo que não acaba por aqui. A voz que ouço é, no entanto, fria e selvagem. Uma voz de destruição. “Você”, ela me responde. Eu ignoro, mas sei bem o que o sonho significa. Sei bem que, se eu escrevesse hoje, não faria sentido. Sei bem e por isso escolho apenas desabafar. Não é um grande texto. Não é uma crônica. E não se trata de ser feliz. Quero entrar no bar, sentar perto do balcão para que só ele se faça de meu par. Quero que a primeira cerveja seja de boa marca, boa água, boa cevada e boa grana. Quero que as outras venham geladas apenas. Não há outra solução, eu escuto. Então, acabo com mais um pedaço meu. Acabo e deixo morrer. Voltarei, após a cerveja e o texto, para casa. Exausto pela espera inevitável, pela ausência de tudo o que sonhei. Voltamos à estaca zero, Tito. Não busque detalhes enquanto lhe falta contexto, meu amigo. Não escreva, enquanto apenas faltam as palavras. Porra, não escreva. Evite os pontos finais e faça sua escolha por uma vida boa. Não pule do meio fio. Ande menos, pense menos. Por favor, busque ser o homem que ele lhe ensinou a ser. Faça por você e não porque peço. Segue em frente e, sim, eu sei o quanto parece difícil agora. Sim, eu sei também do seu silêncio e o aprovo e aceito. Volta a sorrir, por favor, mas não esse seu sorriso de fachada de segunda à sexta. Quero o sorriso dos jantares de sábado e dos almoços de domingo. Quero chama no olhar, desejo no toque das mãos, sonho nos beijos. Volta, Tito, com esperança. Não perde a vontade, eu lhe imploro. Imagina, seja criativo, luta, perde e ganha. Conjuga uns verbos errados para variar. Esquece se o imperativo é negativo ou não. Pelo menos por hora, faz isso e, repito, com sorriso de verdade. Publica textos como quem suspira e coloca para fora o desespero. Lê sua voz na tela do computador, mesmo que seja o único conselho que aparece por hora. Desliga-se da expectativa e da exigência. E, sim, talvez eles nunca entendam. Qual a diferença, Tito? Existe paz de espírito na compreensão alheia? Também não sei dizer. Repete com firmeza a oração que ele lhe pediu para fazer. Não esquece da rainha que carrega no nome a salvação eterna. Segura a lágrima agora, que aqui não é lugar. E quando é? Será? Não sei dizer também. Há tempos não encontramos. Mas sempre estou contigo, Tito. Como Felipe ou como lembrança, eu caminho ao seu lado. Pensa nisso, pois há sempre mais um de você com quem conversar. O texto é longo, eu sei. Por essa razão, decido não escrever, só sentir. Meus dedos se movem e eu nem ligo. Não dou bola. Não reviso, não cuido da regência nominal. Não cuido de nada, só de você, Tito. Você não está sozinho, lembra isso. Você tem a si mesmo, assim como a mim mesmo e o universo a quem recorrer. Fecha agora: o bloco, a pálpebra, a palma e a solidão. Há mais de você em si mesmo para consumir. Não destrói, portanto, porque faz falta. Mas por hoje, relaxa. Quem sabe volte a sonhar e amar a vida. Por enquanto só há vazio, eu sei. Mas até esse vazio é uma coisa à qual se pode apegar. Pega o vazio, estrangula a dor e deixa tomar conta. Só manda pra longe após atravessá-la, apagá-la, resumi-la, destruí-la, vivê-la. Esquece pontos e vírgulas, vai. Apaga o ódio e perdoa tudo. Fica com sua música boa e deita perto do lugar onde o jornal era lido em cada fim de semana com vento de janela. Uma hora acaba, mas espera sua vez, sua hora. Espera vivendo, sem esperar jamais para viver.

Sobre Belão

Escritor, Professor e Publicitário. Não necessariamente nessa ordem. "Ele soava como um delírio de uma mente cansada da banalidade do segunda-à-sexta. Parecia daqueles que desfilam descuidados pelas ruas, sem se deixar afetar por nada ou ninguém. Com estilo próprio por excelência de consciência e com personalidade mais do que confusa pela falta de linearidade de todas suas idéias, pensamentos, ironias, citações e crises apocalípticas de descontentamento pelo mínimo que o existir exige."
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Uma resposta para Amor incondicional

  1. mercedes disse:

    Ai ai ai…
    Eu não sei muito o que dizer, porque palavras faltam a todos numa hora assim.
    Mas eu já disse e digo de novo…você está certo. Sofre! Grita! Deixa as lágrimas cairem! A dor é necessária. Se você finge que ela não existe, ela nunca vai embora. como eu disse: a ferida não deixa de doer porque existe um band-aid. Ela deixa de doer quando cicatriza, e mesmo assim, a cicatriz vai ficar.Então…isso mesmo…deita no sofá onde se lia o jornal…chora tudo o que tem para chorar, porque você é humano, e na falta de pessoas assim, a gente vai ser sempre criança. E vai ficar desamparado. E vai perder o chão. É preciso sentir isso…ou a gente deixa de ser humano.E vai passar…você vai voltar a sorrir o sorriso dos domingos! Mesmo que eles passem a ter ainda mais significado.Beijos.

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