Lei do Sangue e Vinho

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Tito entrou em casa preso em seu próprio olhar e pensamento. Falou “oi” para quem amava, pois desse modo exige a sociedade. Tomou água com sede de solidão e trancou a porta. Deitou sem paz ou tranqüilidade. Deitou porque não há medida. Desistiu de falar, contar, cantar.
Escreveu, porque só ali encontra amizade e ouvidos dispostos. Escreveu porque cansou de chorar. Escreveu porque desistiu de falar tanto e de ouvir a dislexia de suas palavras ecoando nas idéias alheias.
Decidiu que de cinzas e trevas estava cheio. Queria mais da luz que só se encontra em si mesmo. Decidiu colocar o mundo que conhece em chamas. Tudo para chamar a atenção de si mesmo. Decidiu por decidir e acabou por dormir antes de qualquer atitude.
Terminou de dormir com texto escrito e lágrimas pelo chão, como sangue e vinho. Lembrou-se dos grandes caras e pensou que havia errado de caminho mesmo. Não estava nem perto de ser o escritor que desejava e se iludia com inveja alheia e processos acadêmicos ultrapassados. Seu passo, seu caminho.
Dispensou o ódio e perdoou a todos, até mesmo os que não mereciam. Não havia mais espaço para rancor em seu coração. Só dúvida. “De onde veio o texto, a palavra, a sensação do deve-ser-eterno?” Da onde veio tudo isso que poucos lêem, menos ainda contam e ninguém entende.
Lápis pro lado, papel pintado. Lá estava, criptografado, mais um texto de isolamento e solidão.
 
Coloquei o incenso no fogo que vinha do fósforo aceso. Luz amarela, fogo bom. O cheiro de lua cheia e lavanda, rosa e flor-da-paixão. Deitei no tapete que cheirava à umidade da semana que ainda estava por vir. Encontrei minha posição ideal de relaxamento e escape. Escapei, pessoal. Vaguei pelo futuro de ontem e o futuro que ainda não descobri que desejo. Cheguei um pouco mais perto da verdade, senti esperança florescer. Enxerguei paz, lágrima, sonho, passado, cabelos brancos, idéias que combinam e simplicidade. Vi tudo numa onda, azul-marinho de bondade e sabedoria. Descobri que não tinha muito para pedir, contar, desejar. Fechei-me em mim mesmo e ninguém ouviu a porta bater ou a tranca girar. Enclausurei-me, ensimesmei-me. Ninguém entenderá por hora, mas a resposta parece clara. Diga o que quer dizer e vá. Apague a luz e deixe que a venha sorrateira e solícita aquela que me encantará com flores nos cabelos e com amor no olhar, como numa canção de quem vai para a Califórnia.

Sobre Belão

Escritor, Professor e Publicitário. Não necessariamente nessa ordem. "Ele soava como um delírio de uma mente cansada da banalidade do segunda-à-sexta. Parecia daqueles que desfilam descuidados pelas ruas, sem se deixar afetar por nada ou ninguém. Com estilo próprio por excelência de consciência e com personalidade mais do que confusa pela falta de linearidade de todas suas idéias, pensamentos, ironias, citações e crises apocalípticas de descontentamento pelo mínimo que o existir exige."
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