Cartas ao meu bem

PB
 
As caixas e os papéis continuavam espalhados em sua mesa e nos balcões ao seu redor. Parecia uma favela bem montada e amontoada de entulhos gráficos. Havia vermelho em profusão em meio ao marrom e bege das embalagens abertas e de algumas fechadas. Não havia cheiro ou gosto por ali e, mesmo sem saber disso, o sabor lhe fora roubado das refeições há, pelo menos, três ou quatro semanas. “Difícil de dizer.” O óculos novo ainda lhe pesava sobre o nariz e não havia como ignorar o excesso de ironia do destino de Tito.

No dia e noite anteriores ao da visão das caixas e do vermelho em profusão, ele reviu todas suas decisões de novo período de tempo. Imaginou profissão, lar e transporte. O afetivo lhe pareceu importante na medida em que se tornasse efetivamente satisfatório e recompensador. Procurou concentrar-se no quem e apenas um nome chegou ao pensamento cercado de mistério e letras.

“Complicado. Irônico.” Repetiu as duas palavras umas sete vezes até que escrever fizesse mais sentido. Sentou e olhou para todos os caracteres do teclado. Desistiu e apelou para o bloco. Parecia que Tito conseguia ser mais sincero e menos influenciável pelas letras ao usar a velha lapiseira verde e a folha em branco presa a tantas outras já escritas pelo aspiral transparente e a capa manchada de caneta e adesivos.

Expôs sentimentos sem medo de confessar confidências.

“Eu e você, ainda que distraídos pelo resto, caminhamos até algum lugar. Não sei dizer ao certo, em que tipo de solo piso, mas tenho a certeza que tenho areia até os joelhos. As complicações do viver e as convenções nos afastam um pouco, disso nós dois sabemos. Mesmo assim, me arrisco todo dia um pouco. Vai chegar ao dia em que teremos o resultado disso. Espero que seja para nosso bem. Bem seu, de você que já é meu bem.”

Transformou o trecho em carta sem destino e se recusou a arrancar a folha que permaneceu em meio a tantas outras perdidas. Ouviu uma música do Chico. Som, voz e violão. Tantas outras músicas dele o lembravam de tantas outras pessoas. Porém, parecia que, por instantes, todas lhe faziam recordá-la. “Com exceção daquelas duas ou três que guardo só para mim e que não associo ou divido com ninguém.”

O cd rodava, pulava de música em música e tocava canção e sentimento. Até que trechos aleatórios saltassem do resto da letra e melodia. Arrancavam Tito de seu devaneio para a racionalidade do pensamento. Os dois com mesmo foco, mesma pessoa. “Como pode acontecer?”

“Quando ela mente
Não sei se ela deveras sente
O que mente para mim
Serei eu meramente
Mais um personagem efêmero
Da sua trama” (Chico Buarque)

“Mas definitivamente não existe outra igual.”
E o dia das caixas abertas e fechadas e do vermelho em profusão novamente o despertaram. Não havia muito a dizer, publicar, postar ou ler. “Complicado. Irônico.” Tinha trabalho a fazer.

Sobre Belão

Escritor, Professor e Publicitário. Não necessariamente nessa ordem. "Ele soava como um delírio de uma mente cansada da banalidade do segunda-à-sexta. Parecia daqueles que desfilam descuidados pelas ruas, sem se deixar afetar por nada ou ninguém. Com estilo próprio por excelência de consciência e com personalidade mais do que confusa pela falta de linearidade de todas suas idéias, pensamentos, ironias, citações e crises apocalípticas de descontentamento pelo mínimo que o existir exige."
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2 respostas para Cartas ao meu bem

  1. melancólico, quase depressivo, adorei essa sua fase
    vc transformou sentimentos em palavras
    parabens (pela a superação)

  2. Belão disse:

    Obrigado, Denise. É engraçado reler um texto de antigamente e encontrar outras pessoas nessas páginas preenchidas…

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