Não há palavras de conforto no final de estação

Cópia de fantastico mundo de costas
 
Saudade e nostalgia. Estes eram seus sentimentos de final de estação. O trem chegou e em sua vista o brilho do dia nublado fez encher de luz as escadas para mais uma cidade aparentemente desconhecida. Medo e solidão. Havia muito a descobrir nessa volta. Com passo de quem faz de conta de certeza, ele foi à cabine telefônica. O celular sem bateria ou crédito não serviu nem como agenda telefônica. Sabia o número há anos e não esqueceria bem naquele dia.
Discou devagar, sentindo o toque metálico dos números e a superfície saliente do cinco digitado mais de uma vez. Fez passar mais rápidos os segundos de silêncio batendo o celular adormecido contra a parede da cabine. Imitava um som de jazz há muito ouvido. O som tomou conta por vários milésimos e o fez lembrar do sorriso dela.
Um toque. Mais saudade. Mais nostalgia. Dois toques. Mais medo. Mais desconhecido. “Ou melhor, mais reconhecido que hoje vou reencontrar.” Terceiro toque.
– Alô – respondeu uma voz rouca de mulher recém-desperta.
– Humm… oi, sou eu.
Silêncio e mágoa.
– Oi! Como você está?! – ela tentava disfarçar a surpresa.
Embaraço. Desconforto. Dor contida.
– Ah… Indo, mas não muito.
– O que aconteceu? Ou acontece?
– Ele morreu nesta madrugada. Estou meio perdido.
– Nem sei o que te dizer.
– Não precisa dizer nada. Só queria ouvir sua voz.
Silêncio. Ele com lágrimas nos olhos. Ela, bom, é difícil de saber.
– É estranho que tudo aconteceu muito rápido. Acho que a primeira vez que estou chorando é agora falando com você.
Silêncio. Ela com seu silêncio. Ele era saudade e nostalgia.
– É estranho também que a primeira pessoa que eu tive vontade de conversar tenha sido você.
Nada. Ela vazia de reação. Ele com medo.
– E não é nem conversar. Peguei no telefone agora que desci aqui na estação e só lembrava do seu número. Acho que pensar em você mantinha a dor um pouco pra trás.
Silêncio. Difícil de dizer se por falta de palavras ou por falta de vontade de pronunciá-las.
– Acho que é porque sempre vou confiar em você.
– Nem sei o que te dizer.
– Não diga.
O som do telefone desligado. Lágrimas correndo caprichosas por seu rosto marcado de sol. A dor permanecia e agora havia ainda mais solidão e vazio. De nada adiantava. “Pra nada me serviu.” Tinha vácuo sugando suas entranhas. Saudade e nostalgia do que mal existe em pensamentos e lembranças. Nada. Saudade e nostalgia.
 
 

Sobre Belão

Escritor, Professor e Publicitário. Não necessariamente nessa ordem. "Ele soava como um delírio de uma mente cansada da banalidade do segunda-à-sexta. Parecia daqueles que desfilam descuidados pelas ruas, sem se deixar afetar por nada ou ninguém. Com estilo próprio por excelência de consciência e com personalidade mais do que confusa pela falta de linearidade de todas suas idéias, pensamentos, ironias, citações e crises apocalípticas de descontentamento pelo mínimo que o existir exige."
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2 respostas para Não há palavras de conforto no final de estação

  1. Marcos Alfred disse:

    Saudade e nostalgia… Muito bom.
    Dizem que com um pouco de gelo, pinga, açucar e limão, dá até pra encarar.
    Fora destas condições, a OMS não recomenda.
    Abraço!
     
     
     

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