Ensaio sobre a certeza

DSC02638
 
“Não tenho certeza de nada.” Ela repetia em meio a idéias repensadas e mal desejadas de suas tias gordas e invejosas.
“Ela carrega cruz pesada”, repetia a mãe da verdadeira heroína do tempo da incerteza para aquelas tias solteironas.
Não poder ser tão simples, mas também nada tão complicado quando não se tem certeza de nada. É como manter a inércia da incredulidade perene. Parece que se atira a pedra na superfície da água sem saber se ela pula ou não. Pedra e água. Soa como não enxergar no mais completo silêncio da existência sem tato ou paladar. Respirar o vazio que suga e sopra por dentro da barriga, numa falta de confiança eterna das escolhas.
Porém, para ela nada disso era tão terrível. Tampouco feliz. Apenas era. Certeza só da falta de certeza desde o primeiro beijo de sua vida. Beijo de canto de boca. Afinal, como saber se realmente se deve beijar.
Fazer a coisa certa se transforma em ato impossível, sem a tal certeza. E ela não tinha certeza, mas achava que o beijo de canto de boca em Mariano havia despertado ou intensificado esse gosto pelo incerto.
O tempo certeiro passou e ela casou, sem a menor vontade ou convicção. Apenas cumpriu o papel social imposto pela idade que atingira. “Contraiu o matrimônio”, como achava bom de dizer, com Aderlindo.
Como não poderia ser diferente, em sua noite de núpcias levou mais de três horas para tirar a roupa. Depois tratou logo de não decidir nada, mas manteve a dignidade das virgens. Não se moveu, pois não sabia se acertaria ou não. Teve a sensação de dor e de prazer, misturada com a desconfiança de que o marido nunca mais a possuiria daquela maneira inerte.
Na terceira semana, engravidou. Como mulher grávida e incerta, telefonava para sua mãe a cada cinco minutos para ter certeza de que tantos novos sintomas eram normais. Como a mãe jamais a convenceu, ligava para o marido também.
Apenas ele, de fato, trabalhava. Ela não havia cursado faculdade, porque eram cursos demais para escolher. Sua televisão mantinha-se desligada, enquanto o marido não chegava, pela mesma razão.
No sexto mês, uma tragédia se abateu sobre sua casa. Sua mãe faleceu num aparente quadro da mais absoluta canseira de falar. Ela, sem a menor sombra de certeza, culpou a si mesma em alguns momentos do velório. Julgava que sua mãe cansara de lhe explicar falivelmente que os sintomas da gravidez eram normais, ou não.
O filho nasceu e o marido lhe chamou de Vicente. Ela não tinha certeza, mas acatou. “Em se tratando de nomes, o marido provavelmente deve escolher, acho eu.”
Engravidou, pela segunda vez, logo no primeiro ano da maternidade. Abortou naturalmente mês depois e se culpou. Achava que a responsabilidade residia na sua falta de certeza e pela secura toda decorrente disso. Amargou a tristeza das mães de filhos falecidos. Desatava a chorar nas suas tardes sem televisão. O outro filho, o nascido Vicente, emagrecia por falta de cuidados e Aderlindo a deixou, assim no meio da frase.
Sem a certeza, sem o marido e sem o filho, não se suicidou só porque não sabia o que encontraria após a morte.
Viveu sozinha e trancada em casa. Tias gordas a visitavam ocasionalmente. Jamais voltou a ver Aderlindo ou o filho. Porém, recebia o dinheirinho em envelope sem selo ou assinatura na porta de sua casa toda semana. Os primeiros envelopes, ela não abriu porque não tinha certeza do que era. Quando a fome veio para visitá-la e por lá permanecer, achou que deveria arriscar. Abriu todos os envelopes de uma vez para não precisar escolher o primeiro. Pegou o dinheiro sem contar e pediu para Valéria, uma das gordas tias, decidirem que comida comprar.
Passaram os dias mais do que incertos.
Ela envelheceu e perdeu a certeza de identidade e nome. Não a chamavam por nada e seu pânico da incerteza se ampliou para o mundo das palavras. Parou de falar, pois não sabia mais como começar suas frases.
Em seus últimos dias, uma certeza – a única de sua vida – lhe apareceu cristalina em meio ao silêncio sem palavra: a culpa de toda sua mal-aventurança residia na incerteza de amar de seu viver.
Após seu último suspiro, morreu sem perceber.

 

 

Sobre Belão

Escritor, Professor e Publicitário. Não necessariamente nessa ordem. "Ele soava como um delírio de uma mente cansada da banalidade do segunda-à-sexta. Parecia daqueles que desfilam descuidados pelas ruas, sem se deixar afetar por nada ou ninguém. Com estilo próprio por excelência de consciência e com personalidade mais do que confusa pela falta de linearidade de todas suas idéias, pensamentos, ironias, citações e crises apocalípticas de descontentamento pelo mínimo que o existir exige."
Esse post foi publicado em Não categorizado. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s