Numa moldura de letras e sonhos

702203
 
Em noites escuras, como as dos dias mais tristes, ele deitava com olhos fechados em pensamentos. Visualizava a morena de sua vida, desfilando e sorrindo. Enxergava-a em tom mudo de beijos com gosto de perfume úmido e doce. Chegava a tocar naqueles lábios desenhados pela criatividade e sentia o toque macio daquele rosto em suas mãos de sonhador.
Seu corpo fazia sombra em preto e branco, como num filme antigo daqueles que ele lembrava apenas da trilha sonora. Chegava a ouvir uma do Frank, interpretada por um sujeito gordo ao piano e com sorriso que se destacava em meio ao cinza. O cheiro do vinho derramado nas mesas inebriava e confundia os sentidos. Fazia formigar os dedos a cada toque, como se o corpo nunca tivesse rompido a barreira da paralisia quando se tratava de amor, de amar e de se apaixonar.
– Da onde você veio? – ela rompia o silêncio dos beijos e emendava um sorriso ao fim da frase, como se a curiosidade fosse motivo de satisfação.
– Estava procurando você. Desenhei meu desejo. Imaginei cada detalhe e me esforcei em cada gosto e toque para que a realidade tomasse forma.
– E?
– E aqui estou. Em meio à realidade que é só nossa.
Ela pareceu gostar de ouvir tudo aquilo. Porém, não tratou como verdade. Claramente, seus olhos castanhos expressivos viam o mundo além dos aspectos oníricos e detalhes de perfeição criada. Ela tinha o senso de realidade de quem de fato existe e apenas viu seu belo corpo de musa ser transportado para aquele ambiente ao som do que não se esquece e do que não se arranca do peito.
– Eu dormi e apareci aqui. Ou melhor, você apareceu na minha frente.
– E agora?
A música acabava e outro beijo despertava a felicidade que apenas os sentidos são capazes de proporcionar. Ele, que sempre levou a coragem estampada em cores de seu estandarte, perdeu-se para sempre nesse sentimento e viu murchar em importância todo o resto. A música desapareceu em toque e carinho, mas a voz recomeçou. Piegas, apenas para quem não era ele, para quem nunca foi ela. Pela primeira vez, desejaram abandonar o mundo que não passava de triste sina diante de tanta razão para jamais chorar.
O cheiro do vinho se misturou ao de grama molhada e comida pronta, pão assado e toalha sobre uma grama seca de outono. Uma manta na ponta do quadro. Não havia lago, ladeira ou morro. Só sombra fresca de árvores que não paravam de derramar folhas beges e castanhas suaves. De devaneio cinza, completaram-se de amor e cheiros. Cores e paixão. Beijos e pedaços de fim de mundo que vale a pena dar passagem. De chocolate e rosas, fez-se morada e, numa pintura perfeita, juraram se encontrar em vida mais conhecida, mais fugaz e mais triste. Prometeram em meio a sorrisos de certeza.
Porém, tudo é mais fácil quando se escreve em códigos, metáforas e sonhos. Tudo é mais fácil quando ele espia o mundo por uma fechadura oposta à rudeza de anjo pornográfico. Quando se enxerga dentro desse enquadramento perfeito. Tudo é ilusão numa moldura de letras e sonhos. Ainda assim, ele acredita. Acordou do devaneio com fé inabalável no encontro no mundo dos tristes. Porque acreditar é ter medida, é viver e é ter coragem. E quem tem coragem, não tem desculpa.
 

Sobre Belão

Escritor, Professor e Publicitário. Não necessariamente nessa ordem. "Ele soava como um delírio de uma mente cansada da banalidade do segunda-à-sexta. Parecia daqueles que desfilam descuidados pelas ruas, sem se deixar afetar por nada ou ninguém. Com estilo próprio por excelência de consciência e com personalidade mais do que confusa pela falta de linearidade de todas suas idéias, pensamentos, ironias, citações e crises apocalípticas de descontentamento pelo mínimo que o existir exige."
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Uma resposta para Numa moldura de letras e sonhos

  1. Flavia disse:

    E quem tem coragem não tem desculpa.
    Adorei.
     
    Quem tem coragem tem tudo o que precisa e mais um pouco!
    Amo!

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