Tito e o fim do tempo da palavra

 
Fantástico mundo da palavra perdida
 
O tempo das palavras ditas passou. Resta, ao que precisa ser dito, apenas as letras. Sobraram apenas os parágrafos enfadonhos dos meus textos que fazem cada dia menos sentido para os outros. Porém, diante do turbilhão de idéias que me visitam os pensamentos, não há outro caminho que não o de fazer de conta, pretender como diria uma amiga querida. Assim, no meu mundo de fantástica vastidão, sobram-me palavras grafadas que pouco sentido farão aos olhos que não sejam os meus próprios ou os de quem presenciou o momento se constituindo e se esvaindo em segundos gelados da minha cidade considerada outrora perdida por quem mais viveu e escreveu em se tratando do cinza que mancha nossas ruas com nomes pomposos. Pronto. Hoje decidi escrever sobre o que não posso falar. Ponto.
            Tudo começa pelo mais clichê dos acontecimentos. Começa por aquela mania louca de encontrar o que não se procura onde não se deve encontrar muita coisa além do que de previsto e comum existe.
Sentido? Coesão? Simplicidade no encadeamento de idéias?
Vá ler outro texto.
Um passo em falso e o tombo parece grande demais e valorável o suficiente para pisar com ternura e imprudência. Assim, sigo com meus pés incautos e meus atos mesquinhos aos olhos de quem jamais presenciou meu carinho pelos sentimentos mais puros. Sigo sem esperança e com braços estendidos para cima, como quem diz “ok, me rendo” e nada mais. Não há mais nada nessa estrada além de encanto e solidão. Há pouca certeza e pouco chão para meus pés de taurino em busca da segurança do que se conhece de cor.
E então? O que fazer? Precisamente nada. Esperar e assistir ao descortinar do tempo e ao desfecho do que se chama de fé ou destino. Meu negócio, nesses dias em que a palavra viu seu tempo se esgotar, é esperar. Diferente do que fora num passado de sofrimento e angústias, apenas sorrio nervoso com esperança. Porém, tenho que confessar que a agonia do mais essencial na vida aparece e se mostra maluca. Enche-me o estômago de insetos impertinentes nas mais diferentes horas do dia.
Com a lembrança de um brilho de olhar incomparável, puxo o ar com força e solto em pensamentos. Dou vazão ao que me parece palpável apenas em pensamentos distantes. Meros ecos da realidade. Recordo-me de como era quando eu era criança. Parecia que uma simples prece com as mãos unidas resolveria os mais ingênuos dos problemas complexos. Assim, rezava aos anjos, meia dúzia de santos e à minha Deusa e Rainha. Pedia junto para que fosse protegido o sono de minha família e a paz da minha casa e das casas pelo mundo. Parecia injusto rezar apenas pelo que me custava caro em peso de sentimento pessoal.
No entanto, nesse tempo de palavra perdida, volto meu olhar para o horizonte. Vejo, logo à frente, um tempo de escolhas para as quais já tenho definidas as decisões mais questionáveis. Não sei ser diferente, jamais seria desse meu jeito nem-mal-nem-bem caso negasse minha essência de sonhos e paixão. Vivo e deixo sonhar. Apaixono-me e deixo acontecer. Há muita coragem e pouca prudência no meu caminho para o fim do tempo da solidão.
 
 

Sobre Belão

Escritor, Professor e Publicitário. Não necessariamente nessa ordem. "Ele soava como um delírio de uma mente cansada da banalidade do segunda-à-sexta. Parecia daqueles que desfilam descuidados pelas ruas, sem se deixar afetar por nada ou ninguém. Com estilo próprio por excelência de consciência e com personalidade mais do que confusa pela falta de linearidade de todas suas idéias, pensamentos, ironias, citações e crises apocalípticas de descontentamento pelo mínimo que o existir exige."
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2 respostas para Tito e o fim do tempo da palavra

  1. Mell disse:

    Sem palavras…Tu és realmente surpreendente. Gosto de ler-te…
    Perdoe-me pela minha insistente intromissão.
    Solidão,lembranças, paixão e sonhos…sonhos…sonhos, sei bem como é isso.

  2. Marcos Alfred disse:

    Fala, meu chapa!É isso aí: Deixa a vida te levar, companheiro!Como diria o grande filósofo, a vida não é equação, portanto não tem que ser resolvida!Abraço!

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