Devaneios insones

(sem foto, ok?)
 
Semana sim, semana não e aparece a tal da insônia. O pouco que eu durmo me faz acordar de mau humor. Mas não se trata de um mau humor qualquer. É aquele mau humor que me faz querer chutar as cadeiras da minha frente e que me faz perder a voz e sofrer calado enquanto o resto das pessoas do mundo insiste em fazer cagadas ao meu redor. Parece que fico com uma percepção mais apurada da burrice alheia e minha voz também me irrita. Minhas palavras escolhidas, meus textos, meu futuro e meu passado, junto com o tal do presente, tudo fica detestável.
 
Para o bem das pessoas que são obrigadas a me ver durante as manhãs de dias como esses, sim as manhãs são especialmente odiosas, eu deveria ficar em casa. Porém, as convenções sociais e trabalhistas me obrigam a levantar com o pé esquerdo em destaque em cada um dos meus passos até a garagem, no carro, na embreagem, na outra garagem, na porta do trabalho, no caminho até o primeiro café do dia. Um sofrimento que apenas minha própria capacidade de ficar em silêncio é capaz de minimizar. A queimação e úlcera que se formam em meio à minha falta de palavras e excesso de resmungos são terríveis, mas que se foda.
 
Não tem o quê fazer, com quem falar, com quem dividir, com nada, com tudo e coisa alguma. E, por aí vai. Esvai-se minha simpatia e minha fama de bom sujeito, que não chega perto de ser das melhores, desaparece por completo. Não que eu me importe, mas viro ponto de referência. “Aquele ao lado do rabugento.” Puta-que-o-pariu que injustiça. Ok, ok. Confesso que não sou o sujeito mais amável do mundo em nenhuma das manhãs desse planeta de sabe-se-lá-qual-deus. Só que também não é pra tanto. Eu resmungo bem menos quando durmo direito.
 
E olha têm dias que é pior. Sim, a situação sempre pode se agravar. No meu caso, isso acontece em dias que fico duas noites sem dormir em seguida. Então, é melhor não falar comigo mesmo. Melhor ficar distante e esquecer que eu existo. Até porque surgem novos fatores que agravam a situação de maneira terrível. É o que chamo de devaneios insones da porra. Sim, tenho a falsa impressão que as pessoas conspiram contra mim e que o que falam para os outros são mensagens criptografadas para me ofender. Claro que não me pronuncio. Esse estágio de pseudo-esquizofrenia nunca é encarando como inofensivo e relevável na sociedade em que eu vivo.
 
No fim das contas, quando acaba o terceiro dia após as duas noites sem dormir, apelo mesmo. Um dia sem café e uma taça de vinho tinto tendem a resolver. Caso contrário, existem remédios para os quais raramente recorro. Só que, quando chego nesse estágio, não consigo mais ser um ser humano e a falta de atenção do mundo para os problemas sociais da população e para meus próprios me fazem sentir aquela ponta de depressão velada que umas cinco horas de sono já curariam. A solidão desses longos dias tende a ser maior e a aflição de ter certeza que nada melhor vai acontecer leva consigo toda a esperança tola que surge com as horas de sono e nos faz prosseguir com a vida cercada de desemoções. Nada além de tempo, de resmungos e de espaço inúteis.
  
 

Sobre Belão

Escritor, Professor e Publicitário. Não necessariamente nessa ordem. "Ele soava como um delírio de uma mente cansada da banalidade do segunda-à-sexta. Parecia daqueles que desfilam descuidados pelas ruas, sem se deixar afetar por nada ou ninguém. Com estilo próprio por excelência de consciência e com personalidade mais do que confusa pela falta de linearidade de todas suas idéias, pensamentos, ironias, citações e crises apocalípticas de descontentamento pelo mínimo que o existir exige."
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2 respostas para Devaneios insones

  1. Marcos Alfred disse:

    "percepção
    mais apurada da burrice alheia"

    "conspiram
    contra mim e que o que falam para os outros são mensagens criptografadas para
    me ofender"

     

    Há! Tenho a
    mesma impressão quando me falta o sono, companheiro!

    Porém,
    grande parte das minhas insônias é premeditada, se é que me entende.

    Ou pelo
    Otto, ou por mim mesmo. Conseqüência de mamadeiras ou cervejas,
    respectivamente.

     

    Abraço!

  2. Mell disse:

    Ultimamente minha irritação tem sido diária. Nada tá bom, tudo me irrita profundamente, minha paciência não existe.
    Sim, os dias em que durmo melhor ameniza, mas nunca some por completo essa minha eterna insatisfação comigo
    mesma, com a vida e com o mundo. Rabugenta é pouco, eu diria insuportável…
     

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