Buraco no céu

Felipe
 
Olhei para o céu e tinha um buraco azul claro em meio ao amarelo e laranja quentes da estrela que brilha discreta por detrás dessas nuvens. Era como se um fator desconhecido no espaço e tempo esperasse parcimonioso por algo prestes a acontecer. Um movimento qualquer nos ventos que insistiam em uma paralisia inexplicável. Tudo isso pouco significava, mas era bonito de se olhar.
 
E, nesse mesmo dia do buraco azul claro no céu, percebi – para minha surpresa – meu mergulho inconsciente no lado profissional. Notei abismado que eu abandonara tudo que de titânico conservava importância em meu espaço de vida. Claro, pura fuga. Parecia que eu corria novamente assustado do pastor alemão que insistia em assombrar o campo de futebol perto da igreja da vila em que cresci sem amigos.
 
A descoberta tinha causa e, se eu e o Tito pensarmos bem e revisarmos essa vida de criador e personagem que é uma só, é bem capaz de percebermos que a tal da causa tem nome. Como é difícil crescer e escolher enfrentar e superar os problemas. Parece que, durante alguns anos, ainda passarei consertando os anteriores. E têm muitas cagadas pra limpar dessa história toda. Há lembranças demais pra re-significar. Sentimentos fortes para lutar com ou contra. Remar e caminhar se torna difícil, por isso mesmo mergulho na carreira e olho, de quando em quando, para o céu com seu buraco azul.
 
Passo meus tediosos dias dando esses milhões de passos para a direção oposta da vida. Tudo para que, quem sabe, eu consiga trilhar com conteúdo e no caminho dessa utopia de ética e de nobreza que eu insisto em aspirar a. Grande maluquice da minha parte, eu sei. Porém, faço isso com a sensibilidade dos olhos abertos. Mais que isso, caminho sem grandes expectativas. Faço isso até porque a batalha que estou travando nesses dias de buraco no céu só faz aumentar a solidão, pois apenas nesse ambiente inóspito de pouco som e nenhuma gente é que posso resolver essa querela.
 
Aliás, essa solidão de sentimento me arrasta para o meu onírico isolamento. No entanto, para que serve tanto sonho em tamanho vazio de desesperança? Dizem que quem almeja voar e alcançar ao céu pensa grande o suficiente para crescer. Mas eu não tenho certeza de que esse céu é o mesmo céu de hoje, com o buraco azul. Ninguém pode assegurar. Ninguém pode. Ninguém.
 
Mulheres, livros, filmes e músicas. Tudo importa tanto nessa medida. Não há resposta, porém, para os milhões de sons diferentes que tocam em harmonia. Não há menos de 10 filmes em rodízio no Top5 da estante. Não existem palavras melhores que as já escolhidas pelos grandes autores. Não existiu outro grande amor. De tão pouco e que é ao mesmo tempo mais do que muita gente encontra, resta-me meu céu com o buraco azul.
 
 

Sobre Belão

Escritor, Professor e Publicitário. Não necessariamente nessa ordem. "Ele soava como um delírio de uma mente cansada da banalidade do segunda-à-sexta. Parecia daqueles que desfilam descuidados pelas ruas, sem se deixar afetar por nada ou ninguém. Com estilo próprio por excelência de consciência e com personalidade mais do que confusa pela falta de linearidade de todas suas idéias, pensamentos, ironias, citações e crises apocalípticas de descontentamento pelo mínimo que o existir exige."
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Uma resposta para Buraco no céu

  1. Marcos Alfred disse:

    Grande Belão!

     

    Essas
    peculiaridades do céu (e da natureza, de um modo geral) também me fazem
    refletir sobre a vida.

    Principalmente
    em estados mais, digamos, introspectivos. Mas não convém me alongar muito sobre
    estes tais estados de espírito.

    Num
    carnaval há alguns anos, alugamos uma ilha particular chamada “ilha do corisco”,
    que fica na baía da Babitonga, São Xico, SC. Nem era caro. Vale a pena. Recomendo.

    A casa,
    assim como a própria ilha, era pequena e simples, mas foi um carnaval do
    caralho.

    Aquela vez,
    tive oportunidade de ver um arco-íris que formava um anel completo, bem em cima
    da ilha… Uma das coisas mais fodásticas que eu já vi.

    E, como os
    demais também viram, desconfio que era de verdade… hehehehe

     

    Abraço!!

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