Crônica da coisa que falta

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Falta alguma coisa. Trata-se de uma sensação que demora diminuir e, quando acontece, não desaparece por completo. Culpa da combinação do final de domingo deprimente com a segunda cinza de manhã. Culpa disso e de outros fatores. Fatores concretos, cenas imaginadas, carinhos desejados, paixões mal escolhidas, brilhos no olhar inadequados, mensagens sem resposta, e-mails ignorados, idéias perdidas, insatisfação constante, dificuldade em gostar de alguém e a mais completa ausência de retribuição quando se ensaia algum movimento mais interessante.
 
Bom, vamos recapitular o fim de semana todo. Sexta-feira de noite com boas aulas e depois jantar gostoso com vinho e conversa boa. Amigos, família, pizza, emocionante programação da competição de trote na parte “hipística” da olimpíada. Sábado de feijoada e bossa nova. Mulheres bonitas, Tom, Chico, Vinícius e mais um pouco de Nara Leão e outras. Domingo de jogo com três gols e estádio cheio. Verde em profusão, palavrões atirados contra o juiz, risadas sem fim e comemoração interminável.
 
Aparentemente nenhum motivo para lamentações. Ok, mas lá vai. Sinto falta de alguma coisa que não tenho. Não sei se já tive apropriadamente. E claro que, quando se começa a falar nesse nível de mensagem criptografada, trata-se do tal da vida amorosa, do amor, da paixão, do tesão, do carinho, do abraço e mais essas coisas todas que fazem tanta falta. Tem gente que tem vergonha de tratar dessas temáticas mais pessoais. Eu, ao contrário dessa gentinha, tenho de sobra coragem e imprudência a ponto de sentenciar: esse troço me faz falta.
 
Meu edredom parece grande demais, assim como minha cama. Sobram travesseiros por lá e parece que faltam abraços e carinhos. Beijos apaixonados de verdade fazem parte de uma lembrança distante cujo gosto não sou mais capaz de recordar com clareza. Não tenho com quem compartilhar as conquistas boas da vida ou em quem segurar a mão para fazer as visitas agradáveis e desagradáveis dos fins de semana. Acabo não fazendo e sorrindo menos e penso que tem alguma coisa de errado com a percepção de mundo das mulheres pelas quais me interesso.
 
Não que isso aconteça com facilidade. Nutro algumas paixões de ocasião que me chegam e desaparecem com a mesma perenidade de uma chama sem nexo ou lugar. Porém, de uns tempos para cá tenho trabalhado aspectos que me fazem ser tão fechado para esse tipo de coisas. E falo isso sem aquele desespero das pessoas que querem arrumar alguém a qualquer preço. Pelo contrário, sou exigente demais e busco qualidades que nem sempre se encontram combinadas em uma única mulher.
 
No entanto, há uns meses, encontrei uma pessoa que despertou meu interesse de um jeito um pouco mais duradouro e com mais sonhos e alguns frios de barriga inéditos e borboletas em extinção na luz da varanda – como diria uma grande amiga. E eu me perdi nessa sensação nova. Literalmente me perdi em um labirinto sem respostas e de muitas negativas. Por que insisto? Nenhum motivo aparente ou concreto que não esse sentimento de um anzol que me puxa pelo umbigo cada vez que a encontro.
 
Lembro-me logo de músicas sobre a beleza desse estado de sincera e despretensiosa paixão. Deixo que esse negócio gostoso tome conta das horas vagas de minha rotina e deixo que essa vontade de sentir de perto o cheiro da pele e o gosto dos lábios se torne meu grande fator motivador para acordar e viver, dormir e sonhar. Porém, em seguida a trilha sonora muda e fico com “You Can’t Always Get What You Want” na cabeça. Chego a enxergá-la com a tal taça de vinho na mão e tudo mais. O vazio de não chegar perto de quem me chamou a atenção dessa forma polui todo final de domingo e faz com que a segunda cinza seja ainda mais sofrida que o normal. O resultado é que sinto falta de algo que nunca tive. E o mais maluco de tudo é que essa falta surge do sentimento intangível por uma mulher que é de duas, três: muito difícil, não está nem aí pra mim e/ou joga um jogo impossível de decifrar.
 
Então, daqui pra frente, decidi que não vou planejar passos e nem fazer promessas que não posso cumprir. Que tipo de promessas? Ah, essa coisa de não mandar mensagem depois de ter tomado umas cervejas no jogo de futebol e coisas do gênero. Convites recusados, textos escancarados, sorrisos embaraçados, olhares apaixonados, declarações vãs. Vou continuar fazendo essas cagadas, claro, afinal sou um ser humano com todos esses defeitos e fraquezas. Porém, vou tentar não me importar tanto com a falta de resposta e com o silêncio que me atordoa pela falta mais completa disso que nunca tive.
 
 

 

 

Sobre Belão

Escritor, Professor e Publicitário. Não necessariamente nessa ordem. "Ele soava como um delírio de uma mente cansada da banalidade do segunda-à-sexta. Parecia daqueles que desfilam descuidados pelas ruas, sem se deixar afetar por nada ou ninguém. Com estilo próprio por excelência de consciência e com personalidade mais do que confusa pela falta de linearidade de todas suas idéias, pensamentos, ironias, citações e crises apocalípticas de descontentamento pelo mínimo que o existir exige."
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3 respostas para Crônica da coisa que falta

  1. mercedes disse:

    You go, boy!!! Assim que se fala…joguinho eh coisa de mulherzinha.

  2. Marcos Alfred disse:

    Muito bom!

    Cara, a
    combinação do final de domingo deprimente com a segunda cinza de manhã é
    mordaz…

    Tem gente
    que mata por muito menos que isso.

     

    Mas o texto
    ficou excelente.

    Só tem um
    detalhe: Falta alguma coisa…

     

    hehehehe

     

    Abraço!

  3. Mell disse:

    Sabe Felipe…hj tou num dia desses de se fazer cagada, tou excessivemente melancolica por causa dessa falta de quem
    nunca tive, sequer vi pessoalmente ou toquei. É claro que o domingo é sempre o pior dia, o mais deprimente, mas no
    fim, todos os dias tem sido extremamente cinzas. Essa fúria, as vezes raiva de mim mesma por não conseguir apagar esse
    desejo, esse amor que me corrói por dentro, essa tristeza insistente que não me deixa de jeito nenhum.
    Difícil conter as lágrimas falando disso tudo para alguém que nem conheço, mas que me identifiquei. Penso que é melhor falar
    para alguém que sabe do que estou falando, outras pessoas não entenderiam.
    Sei que de nada adianta falar e se lamentar, nada vai mudar, mas sei lá…
    No meu caso desisti de não ter respostas as minhas mensagens e emails, e toda vez que começo a escrever algo desisto.
    Cansada…
     

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