Rede de relacionamentos

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Deitado naquela rede, a parede e o chão de meu mundo desapareceram. Não por falta de apego à vida ou de vontade de coisas e situações. Uma simples mistura do que havia de melhor e mais cheiroso no ar daquilo que chamavam de natureza com o som da tranqüilidade da solidão. A mesma tranqüilidade que me faz gostar tanto da reclusão e das poucas palavras e que, em dias de rede e paz, transforma-se em tormento para meu pensar. O cheiro de mato e da umidade das árvores à vista, ao alcance das minhas mãos que parecem tão pequenas diante de criação e vento, traz para perto a melancolia de um fim próximo. Não sei exatamente qual é o fim, fim do quê. Só sei que parece que acabará em breve, num desejo mal pensado ou numa rotina rejeitada. Acabará em tormento, talvez temperado com o sal de lágrimas tristes e que ninguém enxerga, mas estão por lá. Como a presença que ninguém vê e apenas sente a sombra passar no mesmo formato do meu vento de mato que a natureza impõe e mantém ao redor invisível e indivisível. Pensável apenas para aqueles que o vislumbram com o coração metafórico dos sentimentos mais mundanos e imperfeitos. Palpável jamais. Então, do seu bafo assombroso e gelado faz-se presente a saudade de algo que talvez em um relance ridículo de um passado tão esquecido em outro tipo de vida e de existir tenha acontecido. Queria dissociar isso do presente do descanso na rede. Porém, é disso que se trata minha realidade ali ou em qualquer canto. Não há como fugir do que nos assombra em meio às nossas patéticas negações para o mundo. Amém, com ou sem meu consentimento.
 
Levanto dali e deito em outro lugar com essa perdição em minhas mãos. “Eu sou veneno, meu mundo.” Minha solidão se multiplica. Toma forma de corpo de mulher ao meu lado. Eu a abraço em desespero. Sinto minhas juntas doerem, meu sangue arder. Aconchego-me em seus braços inertes. Ela me sorri e me traz lembranças tristes. Transforma o tempo e o espaço em um só varal contínuo e me transporta para lá e para cá sem se importar com meus gritos e lamentações. Ela me diz: “Respira e vive.” Ri de forma sádica e eu a desejo mais e aperto contra o peito em puro êxtase da razão de viver. Das lágrimas, ela incorpora mais força e seu corpo se torna ainda mais escultural e luminoso. Eu relaxo meus músculos e me vou para longe, percorro o varal de ponta a ponta e volto para a rede de meus próprios relacionamentos. Festa do que foi vivido. Pesar do que foi pensado. Tristeza do que foi idealizado. Resta pouco e me falta ar. No entanto, descubro que não preciso mais de oxigênio para viver. Bastam-me as letras e as páginas vazias para meu embate titânico com o mundo fantástico. Eu amo o mundo, assim como a amo. A solidão o traz para mim como forma de oferenda. Seu sorriso sarcástico permanece e se acentua quando percebe o brilho de esperança em meu olhar. Caio por terra outra vez e sinto meus pulmões implorarem por socorro. O sopro de vida faz arder minhas tripas. Logo, tudo se perde e volto para meu gelo de vento e para minha rede de mato. Não há como fugir do que nos assombra em meio às nossas patéticas negações para o mundo. Amém, com ou sem meu desejo.
 

 

 

Sobre Belão

Escritor, Professor e Publicitário. Não necessariamente nessa ordem. "Ele soava como um delírio de uma mente cansada da banalidade do segunda-à-sexta. Parecia daqueles que desfilam descuidados pelas ruas, sem se deixar afetar por nada ou ninguém. Com estilo próprio por excelência de consciência e com personalidade mais do que confusa pela falta de linearidade de todas suas idéias, pensamentos, ironias, citações e crises apocalípticas de descontentamento pelo mínimo que o existir exige."
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Uma resposta para Rede de relacionamentos

  1. Mell disse:

    Que mundo fantástico esse seu…

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