Encontro com minha própria solidão

fantástico mundo com vida boa
 
Ela me pediu uma frase. Comecei com um poema e ela disse que havia algo de errado na escolha.
– Quero ouvir algo seu.
“Somei uma porção de palavras e de letras e encontrei os momentos já vividos. Revivi-os em plenas cores, sofás e brilhos no olhar. Não os desejo novamente e não pretendo apagá-los. Que fiquem no passado e que sirvam de base para que um dia, quem sabe, eu viva de verdade.” Falei espontâneo e perscrutando sua expressão em busca de reação, simpatia ou desejo.
Ela repetiu minhas palavras. Soou triste e errado. Eu ri para preencher o momento e tomei um gole da vodka com água tônica.
– Que tipo de porcaria você bebe?
“Vodka com tônica.” Ela disse com aquela arrogância que tanto me irritava. “Como ela pode viver sabendo tão pouco?” pensei comigo.
– Vou pedir uma cerveja – eu disse desacorçoado.
– Não, tome comigo. É só um copo. Quarta não é dia de festa ou de extravagâncias.
– Você e suas regras de mulherzinha.
Que tipo de frase estúpida de se dizer. Porém, na maior parte do meu tempo nessa terra, falo coisas sem pensar direito. “Tudo bem, quem me conhece já sabe. Quem não me conhece pouco me importa.” Até meus pensamentos soam impensados quando os escrevo.
– Vamos passar a noite com nossas discussões?
– Não, sabe, prefiro minha casa por hoje.
– Comprou filmes no almoço.
– Dois DVDs.
– Você e seus filmes. Não os troca jamais pelo contato social.
– Sou um cara fiel.
– Fiel ao que? Aos pedaços de plástico ou sabe-deus-o-que com imagens e sons gravados?
– Corrigindo: belas imagens e belos sons gravados. E pelo menos sou fiel a alguma coisa.
– E o que exatamente você quer dizer com isso?
– Não vamos discutir o passado.
– É, não vamos mesmo. Até porque você sabe de seus próprios erros e faltas.
– Eu sei. E prefiro chamá-los de deslizes.
– Erros, faltas, deslizes. Eu acho que você cometeu os três. Parece esquecer dos últimos dias. Nossos últimos dias. Você faz idéia de como eles foram tristes?
– Você sabe e, se você quiser repetir pela milésima vez, o barman pode saber. Então, eu aproveito e conto para ele o quanto sua companhia é meu único consolo em dias como esse.
– Você não tem coragem de ser sarcástico com garçons.
– Não seria sarcástico, nem irônico.
– Eu não sirvo para você, Tito.
– É o que eu repito em frente ao espelho antes de você chegar sempre.
– E por que não pára de me ligar?
– Não tenho ninguém melhor para conversar.
– Sou uma questão de falta de opção para você então?
– Sempre foi, assim como eu para você.
– Isso é triste.
– Todos esses dias são.
– Não faz drama.
Respondo com silêncio. Ela sabe o porquê.
– Já disse pra não fazer drama.
E quem desaparece sou eu. Restam apenas ela, um bar qualquer e um copo vazio.
 

 

 

Sobre Belão

Escritor, Professor e Publicitário. Não necessariamente nessa ordem. "Ele soava como um delírio de uma mente cansada da banalidade do segunda-à-sexta. Parecia daqueles que desfilam descuidados pelas ruas, sem se deixar afetar por nada ou ninguém. Com estilo próprio por excelência de consciência e com personalidade mais do que confusa pela falta de linearidade de todas suas idéias, pensamentos, ironias, citações e crises apocalípticas de descontentamento pelo mínimo que o existir exige."
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2 respostas para Encontro com minha própria solidão

  1. Leila disse:

    Em todos os finais dos dias é só isso que vc pensa ou faz? Assistir filmes, beber cerveja, vodka com água tônica ou um bom vinho? se sentir só e ficar matutando isso na cabeça? Por que você não tenta pensar nas pessoas boas que estão a sua volta? E quando digo "pessoas boas", não digo seus familiares mas aqueles que você conhece e pode ajudar de um jeito ou de outro. Num simples olhar ou no gesto de ouvi-lás. Não pense que todas as pessoas querem o seu mal ou não se importam com você. Porque se fosse assim eu não estaria me intrometendo no seu blog pra deixar um recado – agora vc deve estar pensando: "quem essa pessoa pensa que é? Ela nem me conhece! Não sabe o que eu penso! O que eu sinto! Não sabe minha história! Não tem idéia da solidão que é a minha vida!" ou ainda, "isso que ela escreveu é um tipo de ajuda psicológica???" – Não sei quem realmente você é. Mas a maioria dos seus textos expressam imensa tristeza. E acredite: ao lê-los fiquei extremamente triste por ver tamanha solidão em suas variadas palavras. Acredite, de verdade! Meu coração fica triste. Queria poder ajudá-lo. Mostrar à você a verdadeira alegria de viver em plena paz e sem a trsite solidão por perto. Mas sei lá. Acho que vc deve estar achando tudo isso ridículo. Até porque, quem sou eu pra dizer tais coisas. Não tenho certeza se o que penso a seu respeito é verdade. Não lhe conheço. Mas, assim mesmo, sinto em dizer essas coisas. Espero que você tenha lido. Me desculpa. E não fique com raiva, por favor. Se quiser, nunca mais vai ver uma palavra minha aqui.
     
    Ass: ELA

  2. Ma disse:

    “Não basta abrir a janela para ver os campos e o rio. Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. É preciso também não ter filosofia nenhuma. Com filosofia não há árvores: há idéias apenas. Há só cada um de nós, como uma cave. Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora; e um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse…”
     
     
    Não digo que não entendo os períodos de neurastenia.. não digo que sou totalmente contra a períodos de total reclusão deste lugar chamado mundo, mas eu acho que sempre se deve dar uma chance a raça humana (e a vodka!).. dizem que alguns representantes da espécie são até boa companhia e, parece-me, há relatos de que são mais eficientes do que capas de plástico como companhia de bar… Então.. me chame de ingênua, mas por maior que seja a coleção de dvd´s.. ainda acho que as relações sociais tem sua magia.

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