Paz e letras

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Página em branco. Minhas mãos não se movem e não encontro nada que me agrade entre tantos caracteres espalhados pela sala e pelos quartos. Minha casa está vazia e pela janela da lavanderia tenho a visão de três campos de futebol repletos de amigos jogando e correndo. Vejo também dois bares cheios, prédios acesos e farmácias apagadas. Enxergo também a ironia celestial e seu cinza diurno transformando-se em trevas da noite. Passam carros, ficam postes. O movimento é intenso e meu coração bate devagar. Com a taça cheia em uma mão, posiciono meus cotovelos no parapeito fenestral. O vento me bate no rosto e a emoção da minha semana se limita a essa sensação.
 
O sabor amargo do tempo. Ele me passa para trás. Não nos gostamos. As semanas voam conforme sua conveniência e, no abrigo do abandono dos finais, nada encontro. Gostaria de escrever mais. Correr mais. Sorrir mais. Respirar mais compassadamente. Nada disso. O tempo é implacável em meus calcanhares. Parece a tudo consumir por mero capricho. E eu prossigo falando minhas palavras em diálogos encenados com a vida, o tempo e as pessoas que vivem ainda menos que eu. Eu escolho pensar e por isso sou castigado por essa angústia que vem de algo que falta em se tratando dos propósitos universais.
 
Não há mais amor no mundo. No meu mundo. Quando existiu, eu não pude perceber. Mera falta de capacidade orquestrada pela ironia de deuses furiosos com a grandeza do que é mais mundano. Por isso, destruímos um pedaço de vida por dia. Jogamos nas sarjetas sujas nosso sentimento e nossas confissões. Jaz nossa vontade de reclamar com razão. Descansa nosso pulso firme e nosso sangue nas veias. Sobra a aceitação, completa alheia à não-conformidade dos que sonham.
 
Aliás, ninguém mais sonha. Foi decretado pelo fascismo das religiões que o livre-arbítrio é o responsável e que ele se mistura com a vontade divina numa confusão sem fim que não nos acalenta mais. Ficamos calados, no entanto. De nada adianta olhar ao longe e ver tanto pela fresta de um basculante ou pelo buraco escancarado da fenestra da lavanderia. Desejamos sumir do cosmos e, ao invés disso, apenas nos tornamos invisíveis, hipócritas, relapsos e passivos.
 
No final, sobram as contas. Contas e páginas em branco que retratam o tempo em que não existe mais amor nesse mundo em que ninguém sonha. Aplausos ao grande criador.
 

 

 

Sobre Belão

Escritor, Professor e Publicitário. Não necessariamente nessa ordem. "Ele soava como um delírio de uma mente cansada da banalidade do segunda-à-sexta. Parecia daqueles que desfilam descuidados pelas ruas, sem se deixar afetar por nada ou ninguém. Com estilo próprio por excelência de consciência e com personalidade mais do que confusa pela falta de linearidade de todas suas idéias, pensamentos, ironias, citações e crises apocalípticas de descontentamento pelo mínimo que o existir exige."
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4 respostas para Paz e letras

  1. Felipe disse:

    clapclapclap

  2. Mell disse:

    Não sei você meu amigo, mas se eu deixar de sonhar, deixo também de existir.
    Os sonhos me alimentam de vida e a esperança dentro de mim não se cala.
    Endurecer sim, perder a ternura, jamais…
    Sei que nessas horas de insatisfação e de vazio existencial, nenhuma palavra é suficiente.
    Elas apenas servem para exorcizar os fantasmas que nos perseguem. É uma forma de aliviar algo.
    Não generalize…ainda há quem sonhe e muito…
    Você ainda há de se encontrar com os teus sonhos e desejo que seja feliz. E te digo, não é hipocrisia é de fato o que
    desejo a ti sinceramente.
    Queria muito um dia lhe apresentar ao seu Francisco, um senhor de 75 anos que conheci aqui na net e me fez ver a
    vida de forma mais serena e menos severa comigo mesma. Penso que você iria gostar e quem sabe como eu, sentir
    que os sonhos podem ser realizados sim…basta somente abrirmos nosso coração.
     
    Um abraço!
     
     

  3. Mell disse:

    Ah…esqueci de dizer…
    A foto é muito linda. E o amor…Ah o amor existe sim!
     

  4. Marcos Alfred disse:

    "Foi decretado pelo fascismo das religiões que o livre-arbítrio é o responsável e que ele se mistura com a vontade divina numa confusão sem fim que não nos acalenta mais."Deus é um cara gozador!Diz que deu, diz que dáDiz que Deus daráNão vou duvidar, ô negae se Deus não dáComo é que vai ficar, ô negaDiz que Deus diz que dáE se Deus negar, ô negaEu vou me indignar e chegaDeus dará, Deus daráÉ, meu chapa… Essa é o tal ingrediente agnóstico que tempera qualquer religião.Porém, só aceito esse tipo de discussão em espaços restritos.Isso mesmo, o boteco. Afinal, se não vamos chegar a conclusão nenhuma, pelo menos tomamos um porrete!Como escutei na voz de Maria, filha de Elis, dia desses:Coisa boa é Deus quem dá, besteira é a gente que faz…Ótimo texto!Abraço!

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