Hipérboles no estômago

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Por dias e meses, minhas páginas permaneceram em branco. Quando algo preenchia o vazio da folha, sobravam páginas sobre a ruína do homem, do meu próprio fim. Pouco a pouco, meu universo tornou-se escuro na medida em que minhas letras refletiam esse desespero, angústia e solidão. “Tudo isso não passa de exagero”, alguns diziam com sabedoria. Sempre trouxe a hipérbole abraçada em minha natureza e índole. A hipérbole e a inconstância de pensamentos e disposições. Acho até engraçado pensar que, quando adolescente, eu me apaixonava todo dia por uma menina diferente. Na época, eram meninas e, no hoje que passa num piscar de olhos, são mulheres pelas quais continuo me apaixonando repetidamente e incoerentemente, sem fim e sem medo.
 
Porém, há algo de estranho em meu mundo. Alguma coisa abalou a convicção da solidão e fez arder meu estômago num reflexo descabido do despreparo para sentir e viver. Foi como aquelas coisas que não esperamos e que, quando acontecem, trazem consigo o brilho da alma e o desejo das lendas de paixão. Só há uma coisa que se assemelha ao aparecimento de uma bela mulher nessa medida de intensidade: o primeiro raio de sol que escapa das garras das nuvens que cobrem de cinza as ruas da cidade. Sabe como? Aquele momento em que estamos no trânsito em meio ao congestionamento e pensando “puta-merda, mais um dia cinza” e, de repente, um braço do astro maior escorrega do céu e derrama calor e beleza sobre o painel do carro. Parece até que a trilha sonora muda e que não importa ser fechado depois de esperar dezessete minutos na fila do semáforo. Calor, amarelo e beleza.
 
Pois eu dedico uma rosa a todas as mulheres capazes de provocar uma sensação desta no estômago de um homem. É tipo uma fisgada que, depois de puxar pelo umbigo, levanta de pernas para o ar as certezas e convicções. Depois disso, tudo parece menos pálido e há o nervosismo da incerteza e uma série de outras neuroses capazes de nos impedir de aproveitar o momento. No entanto, no meu caso as neuroses e manias e coisas incoerentes ultrapassam o limite da normalidade. Mesmo assim, decidi aproveitar o momento sem ter a menor idéia de onde vou parar nessa história. Na verdade, tanto faz. Importa a jornada por essa estrada de provocações e provações que se encerram no que há de mais profundo em cada olhar.
 
“Olhares que pareciam os primeiros depois de todos os outros que jamais voltaram a acontecer. Ela olhava como se fosse dona das suas próprias decisões, mas com a certeza de que essas sempre saíam do seu controle e as conduziam para os melhores momentos. Procurou desviar quando encontrou os meus que eram surpresos pelo encantamento que eu havia desistido de procurar.”
 
Da última vez que falamos, ela me perguntou meio que por brincadeira depois que nos despedimos:
– Está sozinho?
Minha resposta, como sempre, foi cheia de drama e hipérbole.
– É, acabaram de me deixar.
Ela provocou, de um jeito bem dela, como quem fala pelos cotovelos, até mesmo com um desconhecido no trânsito.
– E quem foi que te deixou?
As palavras não passaram pelo processador de pensamentos. Minha vontade é sempre maior que minha razão.
– Ainda não sei dizer.
 
Continuo sem saber.
 

 

 

Sobre Belão

Escritor, Professor e Publicitário. Não necessariamente nessa ordem. "Ele soava como um delírio de uma mente cansada da banalidade do segunda-à-sexta. Parecia daqueles que desfilam descuidados pelas ruas, sem se deixar afetar por nada ou ninguém. Com estilo próprio por excelência de consciência e com personalidade mais do que confusa pela falta de linearidade de todas suas idéias, pensamentos, ironias, citações e crises apocalípticas de descontentamento pelo mínimo que o existir exige."
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3 respostas para Hipérboles no estômago

  1. Marcos Alfred disse:

    Azia, tua alcunha
    é “mulher”!!

    Muito bom,
    meu chapa!!

  2. Flavia disse:

    bonito mesmo é o que se distancia mas nunca se afasta.
    tipo melisso e tita.
     
    "Na verdade, tanto faz. Importa a jornada por essa estrada de provocações e provações que se encerram no que há de mais profundo em cada olhar. "
     
    pois é, melisso.
    eu diria que é caminhando que se faz o caminho…
     
    saudades eternas.
     
     

  3. Flavia disse:

    nem pedi autorização, já fui roubando.
    please check it out:
    http://flaviamelissa-dialogos.blogspot.com
     
    amo, adoro e venero.

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