Volta às letras, voltam as letras

 

 

 

 

Mas outras vezes, mesmo de dia,

mesmo acordado, mesmo de olhos abertos

(ou fechados, tanto faz),

ele espia para dentro. E aí vê

coisas que muita gente não consegue ver.

Ana Maria Machado

 

 

 

Sem direção, chegaram ao fim os dias de descanso. Como quem nunca escreveu, passei em memória minhas letras e refiz em lembranças minhas páginas em branco. Levantei, bebi e sorri como criança inconseqüente de tudo e de todos. Não medi perdões, frases e abusei das proparoxítonas. Sem saber de nada, desfiz e refiz quem sou. Aproveitei das situações decisivas para ser evasivo e abusado. Ah, nada de especial e um tudo na medida do meu viver. Quem me viu e quem me vê sabe, como o Chico saberia, que não se reconhece quem estranho soa aos olhos e ao passado. Aliás, revistei minhas memórias e passei por tempos idos com a saudade que o Machado diria que deixa um quê de gozo e de dor.  Atos cometidos como pecados dessa grande janela para o mar e que cabem no breve espaço de beijar do Drummond. E se o Carlos já sabia disso, aprendi com suas páginas e mais algumas de alguns sujeitos como o Ernest, o Jack, o John, o Leon e os milhões de contos ao pé de ouvido de uma mitologia sonhada em dias de lençol com perfume em fins de semana de devaneios. Que sempre fique esse sentimento de tranqüilidade desses meus 26 dias, mesmo número do mês quatro ao meio-dia e quinze. Que depressa passe tudo que odeio sem rancor e que se prolongue o convívio de quem amo e dos lugares nos quais permanecem pedaços de minha alma. Alma perdida em pensamentos que se vão ao sabor dos ventos e dos perfumes. Perfumes da vida que se esvai na medida menor em que é desfrutada. Sobram minutos e com eles vem o conhecimento. Sem livros ou autores. Aparecem do mesmo sentimento que respiro da janela na volta para casa. Ao que é conhecido e adorado como santos ao pé do altar. Mãos postas em sinal de contrição contraditória sem arrependimento ou vontade de pedir perdão. Novamente faria tudo e, até mesmo, o muito mais que sempre sonho. E, já que ainda não escrevi do brilho do olhar, que o meu nesse ano de 26 nunca feneça.

 

Sobre Belão

Escritor, Professor e Publicitário. Não necessariamente nessa ordem. "Ele soava como um delírio de uma mente cansada da banalidade do segunda-à-sexta. Parecia daqueles que desfilam descuidados pelas ruas, sem se deixar afetar por nada ou ninguém. Com estilo próprio por excelência de consciência e com personalidade mais do que confusa pela falta de linearidade de todas suas idéias, pensamentos, ironias, citações e crises apocalípticas de descontentamento pelo mínimo que o existir exige."
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2 respostas para Volta às letras, voltam as letras

  1. Marcos Alfred disse:

    Grande Felipe!!Bom texto.Um dia as férias acabam, invariavelmente.Como diria um colega, o pior dia de férias ainda é melhor que o melhor dia de trabalho.Abraço!

  2. Ma disse:

    Dr. Brehm me disse certa vez: "e começou o dia da pior maneira que poderia começar: acordando"… (hahaha.. grande Dr. Brehm..) assim começam os dias depois das férias.. acordando…. Argh!…

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