Mas sua filha gostava (eu acho)

 
“…a melodia, a paisagem, a transparência da vida,
perdidos que estamos na concha ultramarina de amar.”
Carlos Drummond de Andrade
 
 
Essa é a parte menos interessante de uma história de ficção trágica. No entanto, é a parte que vale a pena escrever pela estranheza da seqüência de eventos nela inserida. Tudo começou em um dia de faculdade em que ela entrou de vermelho. Tinha um colar – se é que dá pra chamar disso – que chamava a atenção, junto com seu olhar castanho. Sorria para qualquer um e um desse grupo de pobres quaisquer assustados se tratava de um rapaz ainda ingênuo que, devo admitir, nada se parece comigo mais. Naquele primeiro dia de tanta novidade, tudo me encantava, ou seja, posso dizer que eu estava predisposto a gostar de alguém e de não esquecer o primeiro olhar que ela jamais lembrou no tempo em que ficamos juntos. Não importava. Pelo menos, não parecia importar, mas em se tratando de idealismo essas coisas contam pontos, matematicamente resumindo.
Enfim, dessa manhã se seguiu uma tarde, assim como acontece na lógica temporal dos dias. Nessa tarde me aproximei. Perto dela em uma espécie de comemoração por estarmos ali na universidade. Enfim, essa comemoração envolvia humilhação de nós, pobres calouros. Um ritual que me parecia válido de passar por naqueles dias.
Daí para frente, a vida seguiu seu rumo e das tardes fizeram-se noites diárias até que, em um final de manhã, seguiu-se um almoço, uma peça de teatro e um beijo em banco antigo de praça de tantas lembranças. Era aniversário dela. Namoramos de então até os nossos muitos finais de relacionamento. Lembranças que o final derradeiro deixou comigo, como consolo e cruz.
Demorei um pouco para conhecer a família dessa menina que me fascinava cada vez mais com a novidade dos beijos apaixonados. O dia foi trágico. Alguém havia morrido, alguém da família dela. Não vale a pena citar por respeito à memória dos mortos que jamais conheci.
Como bom moço, fui abraçá-la no cemitério Parque Iguaçu. Nunca havia ouvido falar. Perguntei ao meu avô. Ele sorriu com minha disposição pela bela e me deu as coordenadas. Passei por dentro do parque Barigüi. Não chovia. Uma entrada em meio às árvores e curvas. Não tinha certeza de caminho nenhum. Segui apenas porque meu avô havia dito. Cheguei e a beijei com carinho. Apropriado e preocupado. Ah, sem esquecer que eu estava morrendo de medo de conhecer a família. Ocasião funesta, devo admitir. Foi assim, fazer o quê? Fato destacado sem embaraço por uma das suas muitas irmãs. Disse oi para todas. Oi também para a mãe e o pai. Claro que não poderia dar certo. Imagina só quem conhece os pais da namorada no cemitério e vive para se tornar genro. Pouco provável, eu conheço os fatos. Sem ressentimentos.
Enfim, nesse dia, tive a impressão que o pai dela não gostou de mim. Não era pra menos. Eu daria razão para ele nos dias de hoje. O cara preocupado com o enterro e aparece um intruso beijando a filha dele. Claro, com carinho apropriado, eu sei, mas mesmo assim deve ser de foder pra um pai.
Ele era desses sujeitos taciturnos. Nunca escondeu a falta de simpatia por mim. Trocou poucas palavras comigo ao longo dos anos de relacionamento. Claramente me evitava. Coisa da minha cabeça? Vamos aos exemplos: viagem e o intruso – no caso eu – com a família. Ele ficava a maior parte dos momentos em que eu estava em casa conversando com os vizinhos da outra casa: crianças na maior parte. Preferia os infantes ao namorado da sua filha, escolha óbvia. Aliás, não posso ser injusto, nessa viagem ele falou comigo: pediu para eu lavar a grelha da churrasqueira. Uma beleza de sogro. E o pior de tudo é que eu gostava do cara. Ele tinha seu jeito ensimesmado admirável e cuidava das filhas e da família como eu não estava acostumado. Adorava ver aquilo, principalmente por sua noção de justiça: não gostava de mim e não tentava agradar, disfarçar ou qualquer tipo de hipocrisia. Devo admitir, era torturante sentar ao seu lado nos domingos de sofá azul e televisão. A programação ruim e o silêncio. Depois de uns meses, eu até parei de tentar puxar assunto e vivi uma grande piada inventada por um apresentador ruim de televisão em seu momento de improviso patético. Porém, o cara era genuíno e a filha dele gostava de mim. Eu acho.
E escrevo isso hoje, pois a história – da mais pura invenção da minha mente doida – me veio à cabeça hoje quando visitei o mesmo lugar em que o conheci. Não foi só essa lembrança que me apareceu. A recordação da saudade meu avô com todas as coordenadas da vida com certeza foi a mais forte. Por isso mesmo, decidi escrever a mais engraçada.

 

Sobre Belão

Escritor, Professor e Publicitário. Não necessariamente nessa ordem. "Ele soava como um delírio de uma mente cansada da banalidade do segunda-à-sexta. Parecia daqueles que desfilam descuidados pelas ruas, sem se deixar afetar por nada ou ninguém. Com estilo próprio por excelência de consciência e com personalidade mais do que confusa pela falta de linearidade de todas suas idéias, pensamentos, ironias, citações e crises apocalípticas de descontentamento pelo mínimo que o existir exige."
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3 respostas para Mas sua filha gostava (eu acho)

  1. luci disse:

    Olá, Tito!Quanto tempo…não fiz mais comentários de seus textos… como deveria ser.Mas hoje voce conseguiu numa mistura de funebre e risos, mostrar o que eu perdi.As vezes eu paro e fico pensando o que foi que eu perdi! E foi isso…simples assim…perdi o menino ingênuo, perdi a alegria do primeiro beijo num banco qualquer, alguns inícios e finais de relacionamento onde a carrasca também fui eu. Tam bém perdi o olhar da temporalidade da vida. Mas o que mais me fez falta foram aquelas coordenadas. Hoje caminho num terreno desconhecido sem mapa, bussola ou qualquer outro instrumento. É como se eu descesse uma escada no escuro rumo ao final de tudo.Bjo Luci

  2. Marcos Alfred disse:

    Fala, meu chapa!Por isso agradeço aos céus por ter um GURI.As filhas alheias que se cuidem…Abraço!

  3. Ma disse:

    "Se procurar bem, você acaba encontrando não a explicação (duvidosa) da vida, mas a poesia (inexplicável)da vida.":-)Como eu ja disse… que bom que Drummond ajudou…Beijos!!

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