Ao sabor das águas

Em tempos de mudanças, não há trajetória. Simplesmente mudamos direção e sentido das coisas em busca das respostas que os homens procuram desde o início dos tempos.

Não tenho como explicar o que acontece comigo. A dinâmica é similar. Meu coração dispara nas esquinas e eu imagino quem encontrarei naquela nova rua que se descortina a minha frente.

Imagino também o número de passos que precisarei dar até encontrar. Imagino um rosto conhecido e desenho em sonhos as costas de uma mulher que não desejo mais. É estranho como a imagem se materializa em perfumes de passado.

Desperto. Retomo meu foco. “Não sei mais o que esperar do amor.” Chego a essa conclusão do mesmo jeitão que algumas águas de certos oceanos permanecem plácidas. Sou eu. Eu andando pela rua e, mudando minhas direções, altero o sentido do mundo. Caminho. Passos. Mais passos e nada de pegadas.

No entanto, cansei da superficialidade das coisas e do mundo. Quero mais e decido começar de volta. Não tenho medo de derrota. Não desespero diante de dificuldades e não retraio meus sonhos. Eles avançam amorfos, contudo.

E piso em terrenos, empregos, lajotas e tijolos. A aridez dos dias encalacra como pó em meus dedos do pé. Sob as minhas unhas. Sobre meus cabelos que já foram mais longos.

Penso no que me levou a cortá-los e se descortina a certeza à minha frente. Como perdemos tempos e dias. Desperdiçamos nossa energia em preocupações com assuntos sem importância metafísica. Eles não nos definem como seres humanos. Nosso posicionamento como indivíduos, isso sim nos caracteriza. Nosso passo certo. Nossa postura firme e correta.

Entendo melhor o que meu avô me dizia hoje. Amanhã saberei ainda mais e recordarei com ainda mais saudade. A verdade do que passa é definitiva. As rugas são inevitáveis. O trabalho é fundamental. A família vive e faz nascer. Meus valores são minh’alma.

Esqueça a dor. O tempo é ágil. Frases definitivas que não são minhas ecoam em meus pensamentos. Reverberam-se em meus textos. “Sobre o que escrevo?” Quem sente para viver, lerá com os olhos certos.

Respiro.

Sobre Belão

Escritor, Professor e Publicitário. Não necessariamente nessa ordem. "Ele soava como um delírio de uma mente cansada da banalidade do segunda-à-sexta. Parecia daqueles que desfilam descuidados pelas ruas, sem se deixar afetar por nada ou ninguém. Com estilo próprio por excelência de consciência e com personalidade mais do que confusa pela falta de linearidade de todas suas idéias, pensamentos, ironias, citações e crises apocalípticas de descontentamento pelo mínimo que o existir exige."
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2 respostas para Ao sabor das águas

  1. Ma disse:

    Então eu achei um livro esquecido num banco do metrô. Folheio aqui e ali e encontro o seguinte trecho na contracapa:“Sem que eu soubesse, as coisas não ditas haviam crescido como cogumelos venenosos nas paredes do silêncio, enquanto, ele ficava acordado na cama, fitando o teto, com o branco dos olhos reluzindo na penumbra. Se eu o interrogava, o que você tem? Ele respondia que não era nada, estava pensando no trabalho. A gente sabia que era mentira, ele sabia que eu sabia, mas nenhum de nós rompeu aquele acordo sem palavras. Nunca imaginei o mal que o roia.”E eu lembrei tanto de você… não sei se o livro é bom… mas… acho que você ia gostar, ao menos, da contracapa =)Sonhos, sabor, água, Cecília:"Entre mim e mim, há vastidões bastantes para a navegação dos meus desejos afligidos. Mas, nesta aventura do sonho exposto à correnteza, só recolho o gosto infinito das respostas que não se encontram."Beijos =)

  2. Alexandre disse:

    Felipe, meu amigo, ando nas mesmas ruas, mesmas esquinas, cansado também, principalmente de esperar que algo aconteça. Quanto aos sonhos amorfos que mudem logo…abraço

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