Manual do interrogatório

 
 
 
Ele sentou na sala de reunião. Sabia o que estava pela frente. Percebia bem as coisas. Por isso mesmo, sentou sólido. Ao mesmo tempo descontraído, mas formal. Era um desafio controlar as expressões faciais. Era difícil não contrair os músculos. Controlar as emoções. Havia razão na voz de seus interlocutores. No entanto, pontos de vista não devem ser impostos. Ele sabia bem. Sabia o que estava a sua frente, pela frente. Sempre teve intuição para essas coisas. Citaram o dia do desencontro de personalidades. Previsível. Ele sabia antes. A sensação de saber antes das coisas lhe permitia concentrar-se apenas em seu tom de voz e em seus músculos faciais. Sabia também que contraia o maxilar quando ficava puto. Não poderia ficar puto, pois sabia bem. Concentrou no maxilar no começo, dessa forma. Concentrou-se também nas rugas perto dos olhos e no franzir de sua testa. Pensou que uma face sem expressão poderia entregar o jogo para seus interlocutores. Afinal de contas, ele sempre falava. Mas agora que sabia melhor, não havia vontade ou necessidade de falar. Também não movia a perna. Balançar a perna é sinal de fracasso, todo mundo sabe. O mundo acaba sob pés trêmulos. Ele sabia bem nesse dia. Segurou-se à mesa. Destampou a caneta, mas logo largou. A mesa e a caneta. Largou tudo e pensou novamente no maxilar. Estava escorregando. Precisava se concentrar. Lembrou de um personagem da televisão. Pensou na vista de um campo de trigo. Pensou no dourado do campo e olhou profundamente para os segredos de seus interlocutores. Não abriu energia, nem espaço. Ele sabia melhor lidar com aquilo agora que sabia das coisas. Saber é decidir, disso ele tinha certeza. A certeza é forte. Fortalece. Relaxa o maxilar. A certeza é pedra contra tesoura. Não há força maior nessa sala. Lembrou-se de quem era. Lembrou-se de pessoas importantes e de quem era para essas pessoas. Relaxou as mãos e pousou as palmas gentilmente sobre as mesas. Nem maxilares, nem mãos. Nada o denunciava. Havia a paz e serenidade em seus olhos. Havia compromisso e profissionalismo. Não havia emoção. Ele mandava seus descendentes italianos se calarem por segundos. Não havia maxilares ou italianos em seus ouvidos. O ácido de bateria de suas veias cedia à frieza de sua razão. Repousava nela sua emoção. Uma molécula da sua essência. Suas vísceras sob o pano preto. Uma misteriosa neblina cerrava seus olhos a cada piscar. Piscar sem rugas. Não havia como decifrá-lo. Os interlocutores ficavam doidos com isso. Ele sabia. Percebia a reação deles. Sua frieza superior e inesperada incomodava-os. Ele sabia. Eles não sabiam que ele sabia. Controlar a informação é ter poder, ele sabia perfeitamente.
 

 

Sobre Belão

Escritor, Professor e Publicitário. Não necessariamente nessa ordem. "Ele soava como um delírio de uma mente cansada da banalidade do segunda-à-sexta. Parecia daqueles que desfilam descuidados pelas ruas, sem se deixar afetar por nada ou ninguém. Com estilo próprio por excelência de consciência e com personalidade mais do que confusa pela falta de linearidade de todas suas idéias, pensamentos, ironias, citações e crises apocalípticas de descontentamento pelo mínimo que o existir exige."
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3 respostas para Manual do interrogatório

  1. mercedes disse:

    Pois…quando li o título pensei que veria ferramentas sujas de sangue. Quando vi o seu figurino imaginei muito mais sangue e ferramentas ainda mais assustadorsas. Quer seria uma torturador tão limpinho assim? hahaha.Ótimo texto…e para de implicar comigo! :pBeijo

  2. mercedes disse:

    Aff. hoje não ta facil… a frase era: QUEM seria UM torturador…aff. odeio quando isso acontece!

  3. Ma disse:

    Ahn.. e no meio do texto me dei conta: sou uma fracassada.. sempre balançando as pernas.. e batendo com os dedos em cima da mesa enquanto cantarolo junto com o Pulp… hum.. isso ou sou uma estrela do rock enjaulada no mundo corporativo…hahahahaBeijo! =P

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