Mudanças da Alma

 
Tem gente que diz que coisas simples podem provocar uma mudança muito grande na vida das pessoas. Eu achei que já havia passado por um série dessas mudanças. Muitas e uma depois da outra. Tudo indicava que sim. Ecoava no meu comportamento. Na minha postura perante amigos, família, conhecidos, pessoas e instituições. Perante tudo que importa.
 
Porém, nunca haviam me contado sobre as mudanças na alma. Não a ponto de me chamar a atenção pelo menos. Aliás, nem tenho certeza do que escrevo na maioria do tempo. Só sei o que sinto. Os gostos de comidas que gosto. O cheiro dos perfumes que me chamam a atenção e conduzem meu olhar para outros olhos. Enfim, os cheiros importam para conhecer as pessoas, mas não é esse o ponto. Pelo menos não é o ponto principal sobre o qual quero escrever.
 
O ponto é que, quando eu falo sobre a mudança da alma, lembro um filme antigo que vi em dvd. Tenho até uma cópia dele lá em casa.
 
Numa cena, um velhinho pegava na mão da atriz famosa. Sua pele preto e branco tocava na pele preto e branco dela. Tinha lágrimas preto e branco, relações familiares em preto e branco e abraços preto e branco. Havia muito cinza também e ele dizia que você nunca mais é o mesmo quando algo toca sua alma.
 
Os filmes, como os cheiros e gostos, também têm grande importância. Porém, não é disso que quero falar também. Não é o ponto.
 
O negócio com a mudança na alma é um constante estado de não saber direito o que está acontecendo. Um estado inerte e inevitável de transformação que faz com que as cores – assim como os cheiros, gostos, filmes, pontos e músicas – mudem de perspectiva.
 
Perspectiva: essa é a melhor palavra para descrever essas mudanças. Elas fazem com que o jeito com que você costuma se encostar na janela da lavanderia para ver o vento seja diferente. Você vê diferente. Sente de forma mais completa. Com mais bagagem. Com mais camadas e mais definição. Parece até que você não conhece mais aquele lugar ou aquelas pessoas.
 
Você olha ao redor e não conhece ninguém. No espelho, você se enxerga pela primeira vez. No silêncio, você encontra paz. Nas pessoas, pessoas. Suas expectativas diminuem. Claro, escrevo sobre as mudanças da minha alma. Meu próprio ponto de vista.
 
Não posso generalizar, você sabe como são as almas.
 
Ou melhor, ninguém sabe direito como elas são. Alguns dizem que pesa 21 gramas. Outros que são feitas de luz e que para a luz retornam. Eu acredito em bem pouco. Contudo, creio que ela diz muito de quem você escolhe ser como indivíduo. Para si mesmo. Para os outros. Para os espaços. Para a cidade. Para o mundo, seu mundo e mundo dos outros.
 
O único problema é que as mudanças na alma são fenômenos únicos e não extensivos. É o tipo de coisa que só acontece com uma pessoa. Não tem como dividir. Acontece com você, comigo, com os outros. Um a cada tempo, no seu próprio tempo. Não há previsão, agenda ou intensidade definida.
 
Algo é certo, é solitário e dolorido ver sua alma se transformar. É angustiante constatar essa solidão. Solidão que poucos tolos tentam retratar com suas pinturas, palavras e textos. Ignóbil. Socos no vento. Lutas contra moinhos.
 
Porém, nas quartas-feiras – sempre nas quartas para mim – algo acontece. Algo que há meses não acontecia. Algo de surpresa. Algo que envolve cheiros e meu olhar. Você vê alguma coisa que te chama a atenção daquele jeito que você gostava que as coisas acontecessem. Então e só então, aparece ela: a certeza. Certeza de que vale a pena esperar.
 
Ponto.
 

 

Sobre Belão

Escritor, Professor e Publicitário. Não necessariamente nessa ordem. "Ele soava como um delírio de uma mente cansada da banalidade do segunda-à-sexta. Parecia daqueles que desfilam descuidados pelas ruas, sem se deixar afetar por nada ou ninguém. Com estilo próprio por excelência de consciência e com personalidade mais do que confusa pela falta de linearidade de todas suas idéias, pensamentos, ironias, citações e crises apocalípticas de descontentamento pelo mínimo que o existir exige."
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