Na aridez do pensamento

 
 
Between the desire
And the spasm
Between the potency
And the existence
Between the essence
And the descent
Falls the Shadow
T.S. Eliot
 
 
Ano vazio. Nada de progressões aritméticas ou geométricas de desenvolvimento. Acho engraçado que justamente no vigésimo sexto ano, número que coincide com meu dia do mês de abril, eu não progrida nos degraus que quiçá me conduzem ao além-homem-mundano descrito pelo Nietzsche.
Sinto que sentei em uma cadeira confortável nesse primeiro trimestre. Minhas nádegas começaram a formigar e, ainda assim, não me mexi. Por comodismo ou pela inércia provocada pela rotina. Os motivos são diversos. Olho no espelho e, como em qualquer clichê literário, não me vejo. É como se, em minha consciência livre, eu tenha evoluído. Porém, estou sentado à beira de um degrau. Estático. Imóvel. Apenas observo com parcimônia o vento e o abismo.
Minhas escadas são suspensas. Não se ligam ou apegam a nada e não conduzem a lugar nenhum. Há vermelho na atmosfera. O ambiente é árido. Não há transeuntes. Apenas minha imaginação, personagens da minha memória. Não olho para enxergar. Apenas sei das coisas. Os perfumes e cheiros fúnebres me chegam como numa sensação doida de torpor. Não me importo. Olho a paisagem e me embriago com minha própria vista. Aquilo me pertence na mesma medida que me domina e possui.
Sou um escravo das escadas agora. Neste ano de reflexão e mudança no mundo, penso. Atento a tudo. Mudo minha opinião, percepção e direção. Evoluo em suspiros de imagem sem ação. Fujo dos atalhos. O que me interessa é a evolução do caminho percorrido. No entanto, não levanto do meu degrau. Degrau de meses, de sentimento de tempo perdido.
 
Lembro do meu eu-menino e tenho saudades, mas deixo que me passe até que se eleve, transformando-se em outra imagem de minha adolescência que culmina no começo da juventude com a faculdade e a descoberta do amor que vem junto com o sofrer do rompimento cuja força me revira as vísceras apontando para especialização e mestrado até as salas de aula em que plenamente penso e sinto a vida que se esvai na medida em que tudo isso acontece em paralelo com o meu eu-corporativo e com o amor que confio à minha família que se reúne no sábado e todo domingo, mas, de uma hora para outra, vejo que acordei numa das manhãs das minhas quatorze horas e meia de trabalho diário e vejo a preguiça que me é como um indicativo cinza e triste de que estou estagnado neste maldito degrau.
 
Converso. Escrevo. Desabafo. Sinto que as paredes se aproximam. Sinto que ocupo um corredor vazio no mundo e, de imediato, transporto essa consciência-livre para a aridez da escadaria de ar e vento vermelho. Vejo que a paz é feita de enxofre. Quanta paz encontro nessa solidão de minha própria reflexão. Fujo, corro e volto. Volto para o deserto das minhas escolhas. Em menos de uma manhã insone penso em tudo isso e vejo, sinto minhas nádegas formigando. Eu e meu maldito degrau.
 

 

Sobre Belão

Escritor, Professor e Publicitário. Não necessariamente nessa ordem. "Ele soava como um delírio de uma mente cansada da banalidade do segunda-à-sexta. Parecia daqueles que desfilam descuidados pelas ruas, sem se deixar afetar por nada ou ninguém. Com estilo próprio por excelência de consciência e com personalidade mais do que confusa pela falta de linearidade de todas suas idéias, pensamentos, ironias, citações e crises apocalípticas de descontentamento pelo mínimo que o existir exige."
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Uma resposta para Na aridez do pensamento

  1. mercedes disse:

    Tira já a bunda daí! Você passou 3 anos incríveis. Não vão ser 3 mesezinhos que vão acabar com isso.Up!Beijoca

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