Epifania

 
 
Ele, por alguns instantes, viu o mundo de cima.
Todos estavam lá, em seus pensamentos. O que havia de pensado, vivido e acontecido se encontrava lá. Então, revirou-se na cama como quem remexe no próprio passado. Sacudiu o presente e fez planos para o futuro próximo e para o distante.
Esse era seu jeito de fazer as coisas acontecerem. Programar antes lhe parecia reconfortante. Soava como uma certeza da prioridade para o próximo passo.
E ele seguia. Mexia-se em sua cama, levantava de quando em quando, mas permanecia com o corpo estatelado, estático e parado. O movimento se dava apenas em consciência.
Ele, por alguns instantes, viu o mundo de cima.
 
Logo, pulou-lhe o primeiro misto de memória e de devaneio à mente. Havia sol. Entrava pela janela da infância. Lá fora, o quintal da casa de seu avô. Sua avó ainda viva ali, ao seu lado. Ela e aquele sorriso doce que reservava apenas para ele. O sorriso entrecortado pela tosse tuberculosa do pulmão doente. Ela mexia em algo do quintal e ele corria de um lado para o outro, sentindo-se protegido e indestrutível. Corria como se fosse o mais veloz dos meninos. Chegava próximo à felicidade antes desta lhe escapar em preocupações que não deveria conservar naquela idade. Ela lhe falava. Dirigia-lhe a voz terna e sincera das avós que amam.
 
Outra memória. Ele escrevendo. Escrevia madrugada adentro em seu computador velho. Trocava textos e elogios com pessoas que ainda não conhecia direito. Ele não se conhecia. Não acreditava em elogios e as ofensas o destruíam. Continuava menino.
 
Mais uma. O dia em que várias pessoas morreram, ou melhor, todos os dias em flashes rápidos. Sua reação em cada morte. Seu jeito de fazer para não encarar as coisas. Seu jeito de viver a excitação da perda antes que a tristeza tomasse conta. Sua fuga inofensiva do luto eminente.
 
Entrevistas de emprego. Momentos no trabalho. Novos desafios. Seus dias em sala de aula, sentado ao fundo. Seus dias à frente da aula. Seus dias de outras cidades, de praia, de prédios, de areia, de cerveja e de música. Suas horas mais agitadas se transformando em nada, na tranqüilidade do nada.
 
Espalhou ao mundo o amor que conservava pelas pessoas que admirava. Descobriu quanto amor podia sentir ao mesmo tempo. Descobriu a tristeza da falta de propósito. Mergulhou em pensamentos sobre suas escolhas e enxergou a diferença do caminho das opções corretas. Censurou a si mesmo pela fraqueza da alma, pelo apetite perdido, pelas preocupações que não envolvia humanidade.
 
Tão vazio era seu discurso quanto seus pensamentos. Tão vazias suas escolhas diante da fragilidade dos dias, da incerteza do tempo. Não questionou nada dos rumos tomados no passado. Sentiu saudades aterradoras de quem não se ouve mais falar.
Sanidade parecia uma questão de mera opção. Resmungava consigo mesmo.
– Tão estanho esse mundo. Tão vazio e, ainda assim, passamos tanto tempo nos preocupando por nada.
E, por alguns instantes, viu o mundo de cima.
Concluiu que o propósito é algo que se perde ao despertar.

 

Sobre Belão

Escritor, Professor e Publicitário. Não necessariamente nessa ordem. "Ele soava como um delírio de uma mente cansada da banalidade do segunda-à-sexta. Parecia daqueles que desfilam descuidados pelas ruas, sem se deixar afetar por nada ou ninguém. Com estilo próprio por excelência de consciência e com personalidade mais do que confusa pela falta de linearidade de todas suas idéias, pensamentos, ironias, citações e crises apocalípticas de descontentamento pelo mínimo que o existir exige."
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Uma resposta para Epifania

  1. Janaina disse:

    bem… eu não sou mosca, mas sempre passo por aqui!aguardando um novo post!

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