Lembranças de copas


“Eu escrevo, me exponho
em prateleiras de sonhos e lembranças.
Assim, vivo e me lembro de jamais esquecer
que o que importa de verdade
é ser do seu tempo.
No seu tempo, com respeito e paixão.
Com desejo de dias sempre melhores,
compreensivos e mais justos.
As saudades sempre ficam e meu papel 
não aceita tudo ou qualquer coisa.”

 

A copa é um momento mágico de todo o mundo. Tirando os
países que não compreendem o fascínio que o futebol desperta, todas as pessoas do
globo olham o que acontece dentro das quatro linhas enquanto atletas buscam uma
superação absurda de seus próprios limites de habilidade e de trabalho em
equipe. Golaço depois de chapéu no zagueiro, defesas incríveis em cabeçadas
indefensáveis, chutes do meio de campo que nunca entraram, pênaltis mal
batidos, mãos divinas e pés inspirados. O corpo transpira o esporte que mais
encanta. As lembranças desses momentos permanecem e viram lendas.

Desde criança aprendi em família o valor de comer reunido em
mesa cheia e de torcer quando o assunto é futebol. Independente dos brasões
locais que dividiam opiniões, nos uníamos quando a assunto era copa. A primeira
que vivi, não lembro. A de 86 é etérea e vaga em minhas lembranças. A de 90 foi
uma zica só. Eu tinha avisado minha mãe que não queria assistir às oitavas na
casa da tia que ela me levou. Eu queria ver com meu vô, ele era a verdadeira
diversão das copas. Não deu outra, levamos uma dos hermanos.

Mais quatro anos, outra copa. E a melhor chegou.
Definitivamente, a mais marcante pra mim foi a de 1994, lembro-me bem dos jogos
assistidos na sala da casa que não existe mais. Aquele piso de madeira que
gritava, rangia e torcia conosco a cada lance do Romário e do Bebeto. Meu nono
gostava do dunga, o padrinho não muito, meu pai chegava correndo do trabalho e
minha mãe estava triste demais com a partida da minha vó. Ainda assim, a de 94
sim foi uma copa sensacional. Comemorávamos em silêncio pelo respeito que a
morte sentenciava. Porém, torcíamos e nessa época aprendi com o Seu Belão que
torcer pra Azurra é importante também. “Os dois na final, o resultado será bom,
claro.” No final das contas, torcemos mais para a canarinho, mas eu aprendia
com aquele homem dos cabelos brancos que devemos valorizar as origens. Não
pulamos com o pênalti do Baggio, pois apenas nos abraçamos. Precisávamos sorrir
diante da saudade que ficava.

Veio a de 1998 e, além do mesmo lugar no sofá que eu ocupava
ao lado do meu vô, a imagem mais marcante era a do meu primo que hoje está em
Manaus. Ele vinha enrolado em um cobertor que dizia trazer sorte para os jogos.
Também tinha um daqueles equipamentos de torcedor fanático que usava para fazer
barulho
apenas quando começava o jogo e quando o Brasil fazia gol. Seu Belão e
eu assistíamos atentos a cada lance e tínhamos comentários só nossos. Em um
desses, não lembro qual, falei algo meio sarcástico sobre qualquer coisa que
aconteceu e ele teve um daqueles ataques de riso em que os olhos enchem de água
doce. Eu ria junto e o Brasil foi passando e ganhando, passando, marcando e
ganhando. Até que minha mãe decidiu chamar a tia dona da casa que arruinou a
copa de 90 pra assistir à final. Eles bagunçaram o lugar dos sofás e meu primo
já não botava mais tanta fé no cobertor. “E o pior é que nem a azurra levou.”

Dois mil e dois eu estava na faculdade já. Havia jogos e
encontros e bares, mas nada substituía o sofá e os comentários do nono. Ele
adorava o Felipão e o jeito firme dele. Concordou quando ele não levou o
Romário. “Ele tá velho já.” E seus cabelos brancos torceram comigo. O resultado
de cada jogo, o gol meio sem querer contra a Inglaterra foi o mais comemorado.
A campanha da azurra foi horrível. Eu não gostava do Rivaldo e ele me dizia
sério: “preste atenção que ele leva o time nas costas.” A final contra a
Alemanha. “Jogo duro, não é de hoje que eles estão acostumados a ganhar.” 2×0 e
ficamos putos com o Cafu que escreveu em cima da camisa do Brasil antes de
levantar a taça. “Vê se isso é coisa de fazer com a camisa do país.” Enfim,
campeões.

2006 foi um ano muito conflituoso. Eu me mudei algumas
vezes, passamos distantes. Mesmo assim, assistimos a alguns jogos juntos. Rimos
e nos abraçamos com gols. Sabíamos que a França não era fácil. “Jogo duro, não
é de hoje que eles estão acostumados a ganhar do Brasil.” Perdemos e acabou a
última copa com o Seu Belão. Nós não sabíamos, mas deveríamos tratar todas assim.
Acho que no final das contas tratamos e vivemos copas um para o outro. Ele era
minha razão de guardar lugar no sofá e de rir dos jogadores. Discordávamos,
concordávamos, nos preocupávamos e vibrávamos juntos. Fomos campeões com o
Brasil em 94 e 2002 e éramos dois dos poucos a parar qualquer coisa para ver os
jogos da Itália.

Tudo ficou e permanece em memórias de um tempo de futebol
mágico e fantástico. Ele deve lembrar onde quer que esteja. A consciência não
nos abandona enquanto ainda somos lembrados. Que venha outra copa, a primeira sem
o Seu Belão, meu herói. Vamos, Brasil! E, se nada der certo, vamos de azurra,
certo?

Sobre Belão

Escritor, Professor e Publicitário. Não necessariamente nessa ordem. "Ele soava como um delírio de uma mente cansada da banalidade do segunda-à-sexta. Parecia daqueles que desfilam descuidados pelas ruas, sem se deixar afetar por nada ou ninguém. Com estilo próprio por excelência de consciência e com personalidade mais do que confusa pela falta de linearidade de todas suas idéias, pensamentos, ironias, citações e crises apocalípticas de descontentamento pelo mínimo que o existir exige."
Esse post foi publicado em Não categorizado. Bookmark o link permanente.

6 respostas para Lembranças de copas

  1. Flávia disse:

    Aiii…choro de ler o que você escreve!! Por favor… bjos e bjos melados da Duda

  2. Felipe disse:

    problemas técnicos: alguma coisa está acontecendo que ninguém está conseguindo comentar. estou verificando… (no gerúndio)

  3. Alexandre disse:

    que bom que voltou a escrever… quanto ao futebol, vou deixar para lá… Abraço

  4. Janaina disse:

    Quando li seu texto, morri de saudade do meu avô! Dos jogos na casa dele ou na chácara… Esses velhinhos fazem falta, não?

  5. Marcela disse:

    Ate eu lembro do seu Belão , com o radinho no ouvido, escutando os jogos de futebol…, bons tempos!

  6. Belão disse:

    Com certeza, Marcela! Muita saudade 🙂

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s