Declarações repetidas nunca antes vividas

Era daqueles que gostava de repetir frases, construir idéias. Naquele dia, chovia e parava. Chovia novamente e ele pensava consigo mesmo: “o tempo passou sem pedir perdão.” Ainda que trouxesse consigo melhores anos, a sensação é que a realidade escapava pelos dedos antes que a consciência fosse capaz de sorvê-la no ritmo do desejo.

Segundos apressados esbarravam em seus pensamentos e o faziam buscar motivos mesmo sabendo que o verdadeiro era sua paixão, a primeira como gente grande. Ela intoxicava virtuosamente sua rotina, bagunçava delicadamente com seu planejamento dos dias num verdadeiro delírio de promessas de amor outrora lidas, resenhadas e sonhadas.

A sensação era de paz. Paz consigo, menos importância para o que se faz. Mais atenção para no que acredita, sente, transmite e vive.

Um simples almoço, a mão dele escorrega para o lado. Encontra a dela. Dedos se entrelaçam e o subterrâneo da mesa é testemunha. Os ombros mais juntos, antebraços de perfumes, admiração ao virar para o lado. Deslumbramento com tempo que passa sem pedir perdão. Abraços trocados numa tentativa de agarrar a vida e apertar “pause” ali naquela lanchonete mesmo, no meio daquela conversa que se desenvolve pela importância do trajeto e não da chegada.

Consciente das mais de quatorze horas de trabalho diário, dos fins de semana não remunerados, da desilusão do criador com a política, do conforto de um travesseiro sobre o lençol esticadinho, das vozes e o que elas pronunciam, das ligações para matar saudades e da força inconsciente que lhe sussurrava: “agarra tudo que é teu”. Prendia-se apenas ao fato de não haver posse diante do sentido maior de viver: o amor.

Assim, num ano regido pela descoberta de se importar, chegou um pouco mais perto de descobrir razões para insistir tanto em carregar essa vontade continental de ser ele mesmo. Assim, repetia suas declarações diante do seu estado de embasbacamento diante da pura verdade que antes só ensaiara para viver.

Sobre Belão

Escritor, Professor e Publicitário. Não necessariamente nessa ordem. "Ele soava como um delírio de uma mente cansada da banalidade do segunda-à-sexta. Parecia daqueles que desfilam descuidados pelas ruas, sem se deixar afetar por nada ou ninguém. Com estilo próprio por excelência de consciência e com personalidade mais do que confusa pela falta de linearidade de todas suas idéias, pensamentos, ironias, citações e crises apocalípticas de descontentamento pelo mínimo que o existir exige."
Esse post foi publicado em amor, chuva, declarações, intensidade, paixão, tempo, viver. Bookmark o link permanente.

4 respostas para Declarações repetidas nunca antes vividas

  1. Anônimo disse:

    como comentar se o texto me deixa sem palavras??
    ..adoro teus textos.. todos!!!! cada dia uma coisa nova.. 😉

  2. Felipe Belão disse:

    poucas palavras são sempre as melhores escolhas… 😉

  3. sheyla amaral disse:

    Gostei do blog novo. E no entanto, continua o mesmo.
    p.s: Esperando a anunciação do livro!

  4. Felipe Belão disse:

    o mesmo de bom ou de ruim? hehehe critiquem =)

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