Triste tempo eleitoral: um papo fictício de bar entre FHC e Lula

foto: Reprodução/Internet

pura brincadeira dentro dos limites da liberdade de expressão e com base no direito da ficção democrática.

Eu havia feito uma promessa silenciosa e pessoal de permanecer em silêncio durante as eleições, mas ando indisposto às dificuldades do viver e avesso ao impossível. Assim, dentro dos limites da ficção e da minha mente partidária dos tucanos, mas não cega politicamente a ponto de confiar em bandeiras e deixar de torcer pelo melhor para a pátria, fiquei pensando em uma pergunta que o Marcelo Tas fez pelo twitter sobre o desmerecimento dos governos anteriores pelos atuais candidatos de acordo com seus interesses e bandeiras – palavra que se repetirá no texto, uma vez que aparentemente no nosso país vale tudo pelas cores da bandeira do Partido e não do Brasil.

Desse jeito, em meio às minhas filosofadas político-partidárias, nasceu nesta mente perturbadinha pela auto-reflexão e pela consciência do mundo um papo de bar entre o FHC e o Lula. Isto mesmo, o sociólogo intelectual e o molusco populista se encontram para travar uma, por incrível que pareça, amigável conversa sobre as eleições.

Bar do Carioca, Curitiba, em um dos dias do feriado da padroeira. Aproveitando a celebração do aniversário de fundação do Coritiba, um ex-presidente e um praticamente-ex-presidente se encontram na mais européia das capitais brasileiras. Escolhem a cidade não apenas pela tradição do clube que comemora aniversário, mas também pelo ar neutro que o silêncio dos curitibanos para com os vizinhos inspira. O bar foi escolhido a dedo por um dos protagonistas pela variedade em se tratando de aguardentes.
– Essa cidade é muito boa de visitar, companheiro. Da última vez que passei aqui vim só num palanque pra tentar desbancar o que se elegeu pro governo. Não funcionou, você sempre foi mais popular que eu por esses lados.
– Pois é, é uma situação que pode ser avaliada do ponto de vista… enfim, não vamos entrar nesta questão, na minha última passagem eu ministrei uma daquelas palestras.
– Deve ser por isso. Vai tomar o que?
– Conhaque.
– Aqui só tem druris. É conhaque?
– Tomo o que você tomar então.
– Maravilha. Garçom, dois rabos de galo, 4 rollmops e uma cerveja sem rótulo.
– Para manter a imparcialidade?
– Sempre. 80% só falando e desfalando.
– Eu lembro bem.
– Bom, vamos falar logo disso para acabarmos com essa conversa antes do frango à passarinho.
– Sim. Você prefere a Dilma. Eu prefiro o Serra. Apoiamos pelo partido, mas no fundo você quer voltar e eu me sinto velho e cansado para opinar de verdade.
– Isso é fato, companheiro. Mas o poblema aqui é otro. Ops. Problema é outro.
– Sinta-se à vontade para verbalizar conforme lhe aprouver.
– O problema, Fernando…
– Fernando era o outro. Nisso concordamos.
– É… dei só uma apoiadinha pra ele lá… nada muito sério. Uhn, uhn.
– Se afogou com a cachaça? Brincadeira… não quero ofender… sei como é essa história de apoiar.
– Então… FHC, como eu tava dizendo, o problema é otro. É que nunca na história desse país, escolhemos uma mulher. Por essa você não contava para a eleição ein.
– Francamente, não estou muito solidário ao Serra. Ele me tira do palanque. Todo mundo me ataca, não entendo.
– Eu te defendo, copiei sua política econômica.
– Ah, falemos francamente… era a única viável e que nos deixariam usar de verdade.
– Fala baixo, companheiro.
– Por quê? Até o Plínio sabe.
– Uhn, uhn. Mas o fato é que, Deusolivre de alguém ouvir isso, o país evoluiu nos últimos tempos por conta das medidas do seu governo e depois do otimismo e liquidez do meu.
– Entretanto, não crescemos dentro de todo o potencial que poderíamos diante do cenário macroeconômico.
– Sim, mas caminhamos. Inclusive em assuntos polêmicos.
– Sim… sempre fomos a favor do diálogo em assuntos como casamento gay, aborto, descriminalização de umas ervas.
– Eu sou só da cachaça.
– Eu vi o discurso do seu ministro do meio ambiente em um show de reggae.
– É que a Marina saiu e tive que colocar o cara.
– Ah, nem vamos falar da Marina.
– Ela tem razão em muita coisa, né? Assustou a companheirada toda. Eles acharam que ela faria alguma coisa de verdade como ministra.
– Como presidente daqui uns anos talvez não faça concessões em termos políticos por mais poder. Pode inovar na presidência.
– Verdade, mas meu voto é pelo partido.
– Melhor dizer aqui que o apoio é declarado, mas o voto é secreto.
– Te fragaram apertanu o branco.
Risos dos dois. Melhor descrevendo… lágrimas de tanto rir.
– Foi só para tirar sarro de todo mundo. Sou espirituoso, só porque estudei não dão risada.
– Não vamos entrar no assunto da risada.
– Ok,então, sobre o aborto e a cartada religiosa.
– Por que misturá a religião nesse rolo todo?
– Esses marketeiros.
– Ajudam, né?
– Você que o diga. Mas eu acho um absurdo polarizarmos em amém ou aborto.
– Acho ruim também, mas temos que deixar pra falar disso depois. O povo que vota é muito sensível.
– Regredimos, não acha?
– Regredimos. É difícil trabalhar pelo melhor em um país de interesses tão diferentes.
– Voltamos brigados de Curitiba?
– Sempre. Você privatizou e eu não.
– Você dá dinheiro e não ensina a pescar.
– Seu candidato disse que vai ampliar.
– Ah, sem faz de conta… o que o Bigode disse?
– Como vou saber?
– Ele tá do seu lado agora. Sempre tá do lado de quem ganha. O povo acha que ele escolhe bem. Não entende que ele leva sozinho.
– Bom… ele disse o de sempre.
– É, meu caro… pra Marina só faltou um fio de bigode.
– Ainda bem que Dilma tem.
Silêncio. O frango à passarinho ficou pra outro dia. Vem a conta. Lula paga no cartão. Eles se abraçam abichornados pelo que ainda poderiam fazer juntos. FHC sai do bar e vira à esquerda. Lula toma mais uma e sai à direita.
Um país de paradoxos silenciosos, poderes coronelistas, bigodes espalhados e contrastes inescrupulosos.
Contrastes: quem perde é a gente.

Sobre Belão

Escritor, Professor e Publicitário. Não necessariamente nessa ordem. "Ele soava como um delírio de uma mente cansada da banalidade do segunda-à-sexta. Parecia daqueles que desfilam descuidados pelas ruas, sem se deixar afetar por nada ou ninguém. Com estilo próprio por excelência de consciência e com personalidade mais do que confusa pela falta de linearidade de todas suas idéias, pensamentos, ironias, citações e crises apocalípticas de descontentamento pelo mínimo que o existir exige."
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5 respostas para Triste tempo eleitoral: um papo fictício de bar entre FHC e Lula

  1. Anônimo disse:

    LOL mesmo.

    Um texto repleto de clichês. Não entrou em nada que pudesse suscitar boas reflexões, não deveu em nada àquilo que se lê todos os dias nos grandes meios.

    Paciência.

  2. Belão disse:

    Obrigado, Sr. Anônimo.
    Esse era o objetivo (ou não).
    Os clichês são reflexos da nossa política (muita paciência quanto a isso) e do nosso comportamento como eleitores.
    Boa análise da minha produção textual com base na teoria frankfurtiana.
    Continue comentando.
    Com os princípios democráticos em mente, acredito que apenas há relevância diante da discordância.

  3. O mesmo Anônimo disse:

    Não critiquei sua produção textual, critiquei sua postura política. E aproveito para estender a crítica aos demais que continuam reproduzindo este tipo de posicionamento. A imagem do culto em detrimento do burro (não, não é burro, é malandro), a imagem da suposta civilidade curitibana em detrimento da suposta barbárie do resto do país… ao evocá-las se está tão somente cristalizando preconceitos, suscitando o elitismo perene que o Brasil vem lutando para diluir desde há 20 anos.

    Você que gosta de democracia, meu amigo, deve saber que pluralidade nesse sistema é um ‘a priori’. Então não se impressione com um operário no poder; isto não é paradoxal, mas a prova clara de que se está levando a efeito o sistema democrático no país.

    Da próxima vez vê se põe uns programas de governo pra discutir, porque para esses clichezinhos nós – exceto os conformados, talvez – já estamos de saco cheio.

  4. Belão disse:

    Sr. Anônimo,
    convido-o a deixar o nome, como deixo o meu (ou não).
    Obrigado por gostar da produção textual. Sobre a postura política, você não entendeu o texto.
    Não critiquei o Lula. Não fique bravinho por causa disto.
    O texto diz que – e aqui é uma tradução da minha parte pra facilitar a compreensão do texto – é importante que os candidatos trabalhem pelo Brasil e não para o partido. Trabalhar para o Brasil é não criticar por criticar nossos ex-presidentes e sim discutir propostas e aprimorar o de bom que já foi feito.
    Eu não falo do culto em detrimento de burro e não acho ruim um operário ser presidente de maneira alguma. Pelo contrário! E o paradoxo ao qual me refiro – tradução do texto novamente para facilitar – é o apoio do Lula ao Collor nesta eleição e o fato de todos os partidos que chegam ao poder precisarem do Bigode – este não vou explicar. Isso é paradoxal.
    Quanto à cidade de Curitiba, ahhh aí você errou de uma vez. Eu falei que a gente não gosta muito de conversar com estranhos. Isso é verdade e me incluo nesta realidade. É uma constatação. Não é crítica e não disse que há barbárie no resto do país… aliás, nesta parte, estava criticando nossa fama infundada de cidade européia – tradução do autor… acredite portanto.
    Ah! Se sou amigo diz seu nome…
    E, bem ao contrário do que você afirmou, eu não nasci com o software do preconceito e gosto mesmo da democracia e do diálogo… mas tenho preguiça de ter que explicar texto.
    Agora programas do governo… pffff…. blog errado, meu amigo… eu fiz o texto criticando que os candidatos não abordam os mesmos de forma positiva. Saco cheio, aperta o xizinho lá no topo.
    Com o texto melhor compreendido, continue criticando… com nome. sem nome é ainda mais fácil falar bobagem.

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