Escatologias, urubus e abutres

Imaginemos uma batalha pela vida envolvendo urubus, abutres e hienas. Garanto que em seus rasantes enfurecidos os penáceos prevaleceriam na querela. Quando o assunto é abutre então, o fato é indiscutível pelo tamanho da criatura. As hienas levariam a pior, são o lado fraco e carniceiro da vida. Todo mundo viu rei leão, né? Aposto que, se os abutres entrassem na briga, a disputa seria totalmente diferente naquela tal pedra dos machos de juba.

Agora imaginem uma pessoa abrir o peito em uma mesa de cirurgia. Melhor, vamos falar das borboletas no estômago e imaginá-las voando graciosas para o intestino delgado e em seguida para o intestino grosso. Elas até tentam lutar contra os movimentos peristálticos – uma palavra sensacional, vamos admitir. Porém, são vencidas pela irremediável crueldade da vida. E o sujeito jaz na mesa, com suas entranhas de bom moço abertas na mesa para quem quiser ver. O cirurgião observa ignorando a própria distância de seu Criador. Tudo muito rápido, a metáfora bizarra da paixão misturada com o que sobra do processo digestivo em uma cena linda de bater de asas em um mundo de cores menos gentis: marrom, vermelho e púrpura.

Quando o mundo cai aos nossos pés, tudo que podemos fazer é nos abaixar para catar os cacos na esperança de juntá-los. Vem alguém e bate nossa carteira e nos abate no chão. Os dentes batem no asfalto que em seguida desaparece. Sentimos que não há chão e vamos caindo pelo precipício de viver. Padecemos de insônia, entranhas à mostra e rasantes de abutres. As hienas vêm em nosso socorro e nos enxergamos como vilões da história. Admitimos culpa e não fazemos a menos idéia do que estamos de fato fazendo. Caminhamos breves e tristes, flutuantes. Sérios, repousamos os olhos nas palavras, livros, filmes e mergulhamos em fluxos de consciência maiores que pensamentos, pois são vida que começa e termina por si mesma.

Então, na fronteira da fauna e da escatologia, podemos até nos deparar com os ciclos que se fecham, as montanhas que tiramos do lugar ao longo destes. Então, ofendemos quem não merece, descemos de carros em movimento, mandamos gente pra longe, batemos o portão na nossa própria cara e o sangue espirra. Isolamos o mundo de nós mesmos. Vivemos no limite do que faz mal e ainda pior.

O Criador aparece e bate no braço do cirurgião, levanta o bisturi. Urubus à espreita. Mais uma batalha de olhares e energia aprisionada. O Chefe fala “paciência” e nos permite chorar. Dois dias de prazo de derrota e vencido temos que ressuscitar. As entranhas são costuradas, as cicatrizes ficam e nos fazem bem. O bem que fizemos é ignorado, em princípio por nós mesmos e em seguida por quem precisa não ver. Seu mundo é devastado e o amor permanece intocável. Afinal, mesmo diante de tanta merda e penas, o amor vivido sobrevive nas lembranças.

Terminamos com a certeza que, independente da batalha, a escolha certa é viver.

Sobre Belão

Escritor, Professor e Publicitário. Não necessariamente nessa ordem. "Ele soava como um delírio de uma mente cansada da banalidade do segunda-à-sexta. Parecia daqueles que desfilam descuidados pelas ruas, sem se deixar afetar por nada ou ninguém. Com estilo próprio por excelência de consciência e com personalidade mais do que confusa pela falta de linearidade de todas suas idéias, pensamentos, ironias, citações e crises apocalípticas de descontentamento pelo mínimo que o existir exige."
Esse post foi publicado em abutres, declarações, dream, escatologias, ficção, intensidade, loucura, Love, ok?, paixão, tudo brincadeira, urubus, viver. Bookmark o link permanente.

6 respostas para Escatologias, urubus e abutres

  1. Belão disse:

    Foto é uma brincadeira inofensiva… é pra ressaltar a reflexão insana do texto que, pode até não parecer, mas é otimista. ok?

  2. Ale disse:

    Bom, faltaram as abelhas, que neste caso acho que só trariam ainda mais confusão…

    Abraço

  3. Silvia disse:

    texto forte e intenso!!!

  4. Pingback: Tweets that mention Escatologias, urubus e abutres | O Fantástico Mundo de Felipe Belão Iubel -- Topsy.com

  5. um pouco diferente do que já li seu, mas gostei bastante. mesmo mesmo! 😉

  6. Belão disse:

    valeu, Camilla. é uma fase diferente. palavras diferentes.

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