O homem que pulou a janela

“Qualquer dia, eu pulo.” Ele repetia para seu pai em meio a um sorriso de moleque. O pai fazia de conta que não sabia do que ele falava. Era mais fácil para os dois manter a brincadeira e não rir jamais. Os dias passavam com esse sabor de travessura e a casa era grande demais para os dois.

Com o tempo, o menino decidiu dar seus próprios passos. Virou gente grande e caminhou pelo mundo de responsabilidades que não era capaz de entender. Suspirava e cantava sua saudade de uma terra desconhecida quando cansava de tudo. Odiava as segundas e, com esses sentimentos, tornou-se adulto. Afastou-se de todos. Andava sozinho numa cidade pequena e mal olhava para os lados ao atravessar as ruas.

Tinha medo da agressividade que uma porção de gente carregava e apontava para outros. Sentia falta da paz do tempo da janela e nem se lembrava da frase e o gosto do sorriso do pai ele havia perdido. Seus dias eram de silêncio e ele chegou a pensar em comprar um cachorro. Qual o que! Acabou desistindo no caminho para a loja. Ao invés disso comprou uma garrafa de Jack e foi pra casa pensar. Contemplou o tempo repleto de vida que acontece na fragilidade dos instantes. Refletiu sobre a morte que carregava coisas e gentes para um novo começo.

Pegou um pedaço de papel e escreveu com letra doída de mão que não está mais acostumada a segurar lápis.

“Mais um final de semana passou e me deixou pra trás. Num passar de pernas, o destino me arrastou para o abismo dessa segunda em que me precipitei e caí. Caio. Queda. Nada de chão. Sinto saudades de dias que passaram. Sinto falta de todos e de ninguém. Quero me trancar em casa e escapar pela janela, pular delirante rumo ao desconhecimento.”

Nisso, o sol se abriu para mais um dia e ele simplesmente desistiu. Largou seu emprego, deixou suas obrigações e abriu mão de seus conhecidos, pois se sentia tóxico demais para falar com alguém. Suspirou e cantou sua saudade. Sorriu como menino e abriu a janela.

– Hoje eu pulo.

E pulou. Do parapeito seus pés escorregaram para o gramado macio e verde daquele quintal abandonado. Viu um pé de jabuticaba do lado direito e o pé de mimosa do lado esquerdo. Sentiu o perfume dos pés de couve molhados mais a frente e caminhou lento. Quando o gramado acabou, pisou puro em chão e o caminho de terra fazia trilha até seu destino.

– Agora sim. Eu finalmente pulei.

Meio que falou e pensou alto demais. Sentiu a paz de sua infância novamente e reviu suas escolhas até aquele ponto. Tanto mais para viver e mudou de vida. Foi feliz e ainda sorri.

Sobre Belão

Escritor, Professor e Publicitário. Não necessariamente nessa ordem. "Ele soava como um delírio de uma mente cansada da banalidade do segunda-à-sexta. Parecia daqueles que desfilam descuidados pelas ruas, sem se deixar afetar por nada ou ninguém. Com estilo próprio por excelência de consciência e com personalidade mais do que confusa pela falta de linearidade de todas suas idéias, pensamentos, ironias, citações e crises apocalípticas de descontentamento pelo mínimo que o existir exige."
Esse post foi publicado em amor, dream, ficção, gosto das coisas, infância, loucura, morte, paixão, sol, tempo, tudo brincadeira, viver, words. Bookmark o link permanente.

8 respostas para O homem que pulou a janela

  1. Silvia disse:

    que trite… era pra ser? mesmo assim gostei!
    beijinho

  2. Belão disse:

    mudanças não são tristes. valeu, Silvia! bjo

  3. Ale disse:

    Belão, adorei o texto

    Abraço

  4. luci disse:

    Sabe Felipe,
    O pé de jabuticaba continua lá, a mimoseira e as couves também…
    Mas tudo mudou. As janelas se abriram e os muros se fecharam.
    De tudo só sobrou meu olhar distante tentando resgatar o passado ou talvez um futuro com pés de criança prontos para pular janelas.
    Mas fico feliz descobrindo que houve paz em sua infância e que você está deixando o novo entrar.
    beijos
    Luci

  5. Belão disse:

    comentário de mãe é sempre o melhor 😉

  6. cath disse:

    Parece que a insônia me castiga nesse dia frio de Curitba…
    Venho aqui apreciar um de seus textos infinitos de profundidade, encontro algo que me diz exatamente o que eu precisava nesse instante. Pular janelas e seguir em frente; seguir um caminho desconhecido e convidativo. Adorava imaginar minha vida futura e hoje, vejo que sempre imaginei coisas que não se realizaram, apenas minha essência prevalece intacta e sonora. Sonhos de criança, atos simbólicos como escapar de todas as chatices pela janela. talvez sair e tomar uma cerveja me salve rs. Belíssimo texto Felipe, beijos.

  7. Belão disse:

    Obrigado, Cath. Quem pula a janela vai mais longe… =)))

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