Um passeio clássico

texto que escrevi há muito tempo
com tudo que me veio à cabeça
com esse concerto (e só isso).

Sim! Em meio à música de paixão e amor não correspondido Felix Mendelssohn comecei uma frase sem saber que ela viraria texto e se ela teria fim ou se chegaria a qualquer lugar. Sem restar partícula de pensamento na realidade do agora, caminhei. Percebi, então, que o universo era onírico. Olhei e nada parecia ter forma ou cores fixas. A realidade era difusa, confusa e etérea.

De uma hora para outra frases foram atiradas em mim, por vozes conscienciosas, com carinho de dedos nos cabelos, por mãos que me tocavam em silêncio.

“Caminhar, seu próprio passo, esse você faz sozinho. Viver é encarar esta solidão e, com sorte ou destino, dividi-la com poucas pessoas.”

Meus olhos não existiam, caso contrário, estariam marejados. Meus pés também não havia, mas meu passo era certo. Passos largos. A gente sofre por olhar para frente sem perceber o que acontece ao lado, pelos lados, pelas bandas do sentimento. Pelos lados da nossa fronteira mais tênue, o lado do desapego, o lado que precisa entender que repetir é necessário até aprender e que amar é deixar ir embora, deixar viver e sorrir.

Troquei de foto, de olhar, meu plano agora era mais denso, as notas não encostavam umas nas outras, pulavam de extremos, batiam na parede de pedra. Umidade. Mais uma fala, um dizer sem saber ser ouvido:  “vou correr pras colinas na chuva e, finalmente, viver a liberdade para conhecer meus limites.”

Música e palavra silenciaram por um milésimo. Logo tudo se tornou lento, paulatino como o aprendizado. Logo eu me vi envolto em escuridão de meu próprio desespero de não aceitar nunca mais, meu medo de voar. Logo, o ritmo é quebrado. Alguém me chacoalha pra eu perceber a única verdade e a palavra morte reverbera do amor. Reflete em mim o mais mórbido dos fins de pontos finais em terra quando os volumes acentuam uma viagem por um mundo de natureza desconhecida. Grito, grito, pena, lamento e dor. Volta a suavidade com uma nota, voz final, morte se transforma, faz viajar e ironiza minha perda, faz pouco da minha carne. O volume aumenta ainda mais, não tenho tímpanos, mas os sinto em desespero e êxtase. Um tesão de morte, uma pequena forma de morrer e amar ao mesmo tempo, uma mistura de gostos, um romance à moda antiga, um livro de páginas amarelas e logo vem mais e se perde e eu me encontro, sorrio mesmo sem dentes. É o fim, final da música, Felix. Final, amor e morte. Última voz vem e me abraça. Não sei se o texto acaba e ela só me diz “se pedirem pra ser quem você não é… desista (deles) e continue com você. Morra por amor.” Tempo. Grito. Silêncio. Sim, é o fim.

Sobre Belão

Escritor, Professor e Publicitário. Não necessariamente nessa ordem. "Ele soava como um delírio de uma mente cansada da banalidade do segunda-à-sexta. Parecia daqueles que desfilam descuidados pelas ruas, sem se deixar afetar por nada ou ninguém. Com estilo próprio por excelência de consciência e com personalidade mais do que confusa pela falta de linearidade de todas suas idéias, pensamentos, ironias, citações e crises apocalípticas de descontentamento pelo mínimo que o existir exige."
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3 respostas para Um passeio clássico

  1. Silvia disse:

    que mórbido!

  2. Anônimo disse:

    nossa, até parece que você intensificou as palavras e o caminhar do texto com as notas da música..belíssimo (;

  3. Belão disse:

    Obrigado, Sr(a) Anônimo(a), obrigado… é isso que vejo no som. 😉

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