Crônica da Literatura Anunciada

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Era um tempo de planos e sonhos. Uma época de solidão em cada passo junto com alguém. Minha vontade de viver não encontrava balde, poço ou mar no qual desembocar. Foi assim e eu ainda contava com apenas meus 21 anos de pouco saber.

A faculdade caminhava para o fim e levei um belíssimo pé na bunda do meu estágio. Aquela velha história de não ter verba e não poder contratar. Sentia que tudo que suei e ralei para as coisas da vida darem certo viravam pó.  Depois da banca, faltavam poucas aulas e minha namorada – companheira de sala – também dava sinais de descontentamento e eu podia respirar o perfume que precede o rompimento.

Foi assim que, como bom menino que eu era, entreguei os trabalhos finais, abracei meus professores, pedi compreensão e decidi fugir. Corri pra casa da minha mãe no interior do Paraná. Levei um computador quase estragado debaixo do braço, acelerei com meu Chevette velho e pilotei fumaçando pelas estradas dos campos gerais. Levei comigo apenas reflexão, amor pela minha Curitiba outrora chamada de perdida e um sentimento louco de revolta pelo meu aparente desajuste universitário-juvenil diante da vida, afinal era o fim de tudo que eu conhecia, respirava e chamava de mundo.

Chegando lá, transformei meu desentendimento com o existir em arte: desde então meu jeito primoroso de lidar com os problemas. Misturei o pouco que sabia sobre o viver com a ficção que me atormentava nos intervalos escuros e insones que me empurravam para o amanhecer. Percorri as horas, tomei litros de café, tomei banhos e vesti o mesmo pijama. Permaneci trancado em casa até que o vento batendo na janela branca cheia de ferrugem me despertasse e me mandasse voltar.

Foram 19 dias escrevendo e voltei encontrar minha Curitiba, com o final do livro na cabeça. Cheguei, fui ao teatro para vê-la e receber os pontos finais de um relacionamento fadado ao fracasso pela imaturidade. Eu me culpava.

Passeei pela rua XV, pelo Largo da Ordem e continuei andando até minhas pernas doerem e meus olhos secarem. Neste dia não escrevi. No dia seguinte percebi que eu já era outra pessoa e o livro havia me carregado nos braços até aquele ponto. Vigésimo primeiro dia de um livro e derramei um parágrafo na última página da minha Vitrine de Sonhos.

Entendi então que a literatura é a farsa que precisamos para desaguar a vida, compartilhando-a. Tudo porque outros também passarão por ali. Outros se encontrarão perdidos em meio à faculdade, ao início ou final dela e de outras coisas da vida que mexem com nossas entranhas e paixões. É por eles que escrevo, não mais por mim, sim pela arte que é encontro e conforto: certeza de que não estamos sozinhos.

Sobre Belão

Escritor, Professor e Publicitário. Não necessariamente nessa ordem. "Ele soava como um delírio de uma mente cansada da banalidade do segunda-à-sexta. Parecia daqueles que desfilam descuidados pelas ruas, sem se deixar afetar por nada ou ninguém. Com estilo próprio por excelência de consciência e com personalidade mais do que confusa pela falta de linearidade de todas suas idéias, pensamentos, ironias, citações e crises apocalípticas de descontentamento pelo mínimo que o existir exige."
Esse post foi publicado em amor, arte, ficção, FNAC, intensidade, Livraria Cultura, livro, livro do Belão, Love, paixão, profissão, tempo, Tito Tassus, Vitrine de Sonhos, viver, words. Bookmark o link permanente.

14 respostas para Crônica da Literatura Anunciada

  1. Silvia disse:

    adoro seus textos e fico imaginando vc escrevendo e vivendo isso tudo!!! bjos!!!

  2. Jessyka disse:

    Bem isso mesmo, mas quando parece que tudo vai dar errado sempre tem alguma coisa que salva. Ou não…

  3. Belão disse:

    Obrigado, Silvia, pela atenção sempre!

    Jessyka, há sabedoria no ritmo das coisas, com certeza! =) obrigado pelo comentário também!

  4. Larissa disse:

    “..a literatura é a farsa que precisamos para desaguar a vida…”.
    Falou e disse!

    Gosto de passear por aqui, sempre encontro algo diferente. Não “diferente do esperado”, simplesmente diferente. E um diferente bom. 🙂

  5. Belão disse:

    Obrigado, Larissa.
    Passe sempre, pois sempre é bem-vinda.

  6. denise disse:

    eu de novo,
    sempre passo para ler seus textos e sempre me surpreendo e me identifico com eles
    bjus
    volto qualquer dia

  7. Belão disse:

    Valeu, Denise! Passe sempre e se identifique a vontade =)

  8. Silvia disse:

    Você viu que você saiu no Acontece Curitiba http://acontececuritiba.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=3371:rock-semper-fi&catid=16:contos&Itemid=13 Parabéns! Meu amigo ficando famoso!!! hihihi

  9. Belão disse:

    Vi sim, Silvia.
    é uma crônica que publiquei em Julho aqui no blog.
    coloquei até esse link no meu facebook. bem legal mesmo! =)
    aos poucos, meus textos estão passeando por aí.

  10. Vanessa disse:

    Hoje entrei no blog para me distrair mas não imaginei que o meu espirito seria invadido de alegria após ler tão maravilhoso texto. Achei fantástica cada palavra.

  11. Belão disse:

    Obrigado, Vanessa! volte sempre e sempre comente… =)

  12. Regiane disse:

    Parabéns, Felipe

    Textos cada vez mais inspiradores. Me sinto bem lendo você e me identifico com seus textos.
    “..a literatura é a farsa que precisamos para desaguar a vida…”.
    Frase perfeita! Eu encontrei nos contos “minha farsa para desaguar a vida”, quem sabe um dia um livro?

    Sucesso

  13. Belão disse:

    Opa! vá em frente, Regiane! Compartilhar na forma de letras e artes é sempre bom! Desafoga o peito.

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