No caminho do bem

Quando sombras do passado me visitam, costumo me ensimesmar em meio às fotografias da história da minha vida. Sinto meu queixo pender para baixo e um aperto nas tripas. É uma dor velada de sentimento e confusão, de paixão que demora curar, de amor que perdemos, do que era só nosso e agora não existe mais. Tudo se transforma de intensidade em pó na questão de uma conversa de mezanino.

Sou de sentir meses, tempos depois. Então, me volto para as ondas partidas na areia. Procuro reconstruí-las em bons momentos e saudades. Revisito nomes e desejo ligações, e-mails, mensagens e sinais de fumaça. Até que enterro esperança, levanto a cabeça, aceito que sempre sentirei essa falta, mas olho em frente. Concentro no brilho do futuro, no que me convida a viver em esperança.

É um processo.

No começo, nossas escolhas nos impedem de reviver o que decidimos deixar para trás. E eu sempre quero mais uma chance de me fazer entender. Não obter mais um segundo, um olhar, um suspiro ou abraço me frustra, nubla minha vontade de conhecer novos caminhos. Quero poder dizer os exatos porquês, as precisas vontades, a medida do respeito aos que conheci e abracei, mesmo respeito que sempre conservei ao que eu sou e ao que fomos juntos, pois não sinto falta de uma pessoa só.

Assim, feito uma âncora do que foi e não volta por falta de força que não deveria ser só minha, afundo minha consciência na rotina e no trabalho. Escrevo feito um louco em bloco, agenda, post-it, teclado, lápis, caneta e sem borracha pra deletar. Coloco pra fora até que alivie o peso dessa poeira toda que levantamos ao tomarmos decisões. Tenho vontade de perguntar ao pó, mas é outra história, outro tipo de paixão.

Por essa e por tantas, leio ainda mais. Fito as paredes da minha caverna. Percebo o quanto me isolo do mundo, em minha própria cabeça cheia de idéias. Sou um guerreiro que tem como espada a própria meditação. Sou um homem de letras cujas palavras não querem ser ouvidas.

Porém, como eu disse, é chegada a hora de transmutar as sombras do passado, de notar o brilho que chega do futuro. De volta para minha própria história, em busca de novas paixões. Quem sabe um grande amor, quem sabe novos rumos e ares. Sempre com minha coragem e com a resiliência que aprendemos juntos.

Assim, o sol anuncia o final de meu inferno astral. Em meio ao apogeu de minha reflexão metafísica, encontro a certeza de que nunca conservei meus dias em arrependimentos do passo pelo melhor. Reluzem as faixas da minha estrada certa.

Por mim, por tanto, no dia de hoje, abandono o acostamento e me apoio nos calcanhares. Piso forte por essa escolha. Certo, resiliente e firme, eu sigo. Sigo por essa trilha.

Muito mais que decisão só minha: é meu caminho do bem, meu bem.

Sobre Belão

Escritor, Professor e Publicitário. Não necessariamente nessa ordem. "Ele soava como um delírio de uma mente cansada da banalidade do segunda-à-sexta. Parecia daqueles que desfilam descuidados pelas ruas, sem se deixar afetar por nada ou ninguém. Com estilo próprio por excelência de consciência e com personalidade mais do que confusa pela falta de linearidade de todas suas idéias, pensamentos, ironias, citações e crises apocalípticas de descontentamento pelo mínimo que o existir exige."
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17 respostas para No caminho do bem

  1. Caraca Belão texto me fez refletir e repensar algumas coisas. Muito bom!!

  2. Jessyka disse:

    Ao futuro (= ..me diz uma coisa, você está sentado fazendo seus afazeres, de repente, te dá um negócio e você escreve umas coisinhas? O Blog daria um bom livro, só imprimir e encapar, haha

  3. aro disse:

    Concentrar no brilho do futuro, um bom conselho. Gastar energia com o que já foi só nos deixa amargurados e chatos.
    Bom ler suas linhas cheias de planos e vontades novas.

  4. Silvia disse:

    ai adorei! viva a nova fase!!!!

  5. Belão disse:

    Valeu, Guilherme! que bom que passou por aqui…

    Jessyka, é bem isso mesmo. me vem coisas na cabeça de uma hora pra outra. Mas esse texto escrevi na madrugada de ontem pra hoje. só postei agora 😉
    obrigado… pode ser um novo projeto, vamos ver…

    Valeu, Silvia, por sempre passar por aqui.

    Aro, to gastando energia só com coisa boa a partir de hj…

    Valeu, povo! continuem comentando!

  6. denise disse:

    a vida é feita por decisões, alegrias, paixões e amores acabados.
    bjus
    adoro seus textos
    até o proximo

  7. Belão disse:

    é verdade, denise. quem não passa por aí… não vive…

  8. Vanessa disse:

    Uma vez eu tinha asas e com elas fui em busca dos meus sonhos. Eu conseguia voar e ver ainda mais longe, mas no meio do caminho fui me perdendo e depois que as minhas asas se quebraram, cai em um pântano.
    Tudo estava escuro e sem cor e o céu estava cinza como um dia de chuva.
    Não sabia onde estava, não sabia para onde ir. Apenas andei por cima da lama com meus pés descalços e, como única amiga, a solidão que me acompanhava.
    De olhos fechados eu via todo o meu mundo e o meu passado que se fazia presente nas minhas angustias e o único peso que sentia era o vazio do meu coração.
    Depois que toda a tempestade passou a lua apareceu e com ela trouxe as estrelas.
    Abri meus olhos, procurei a chorona mais alta e alcancei a estrela mais brilhante. Dentro dela pude me proteger, me curei de todas as dores e minhas asas nasceram novamente e só então, quando eu tive certeza, é que pude voar.
    Então eu fui atrás dos meus sonhos que estavam adormecidos dentro de mim, mas nunca morrido.

  9. Belão disse:

    Vanessa sempre cheia de poesia por aqui. Valeu pelo comentário! voar alto é sempre bom!

  10. Alessandra disse:

    mtooo bom seu blog bjinhosss

  11. Belão disse:

    Tks, Alessandra!

  12. Andressa Gomes disse:

    Texto lindo como sempre!
    Estava precisando ler alguma coisa assim, obrigada por esse seu talento de transformar as suas palavras em involunários conselhos, me inspirou a fazer uma coisa aqui.
    Continue com esses desabafos em letras, são sempre ótimos.
    Beijos

  13. Belão disse:

    Obrigado, Andressa!
    Meu grande objetivo ao escrever é esse.
    Como já escrevi em outro texto: “Entendi então que a literatura é a farsa que precisamos para desaguar a vida, compartilhando-a. Tudo porque outros também passarão por ali. Outros se encontrarão perdidos em meio à faculdade, ao início ou final dela e de outras coisas da vida que mexem com nossas entranhas e paixões. É por eles que escrevo, não mais por mim, sim pela arte que é encontro e conforto: certeza de que não estamos sozinhos.”
    Beijos!

  14. Renata Silva disse:

    Lindo texto!!!!!!!!

  15. Belão disse:

    Valeu, Renata!

  16. mario disse:

    Acabei de ler teu livro. Dois trechos de avião, dois capítulos. Longe de casa, morrendo de saudade dos meus amores tudo me faz chorar. Chorei. Na ida e na volta. Chorei pelo Tito, pois nele me vi rapaz de novo. Chorei pelos meus filhos, pela dor e pela angustia do crescimento. Chorei por mim, pela juventude vazia, fugaz. Mas ri, sozinho, no escuro do aviao pela felicidade do amor consolidado. Ai que saudade de casa.

  17. Belão disse:

    Obrigado, Mario, pelo comentário. É muito legal saber que as pessoas estão lendo e que algum sentimento é despertado pela obra. é um um momento em que escrever vale a pena. obrigado mesmo! abraço!

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