Lá naquele dia: um show inesquecível

As fotografias que guardamos da vida, os momentos que vivemos, as lembranças que guardamos e os amores que encontramos em abraços, beijos e canções são as coisas mais importantes. Uma pessoa que não guarda suas lembranças num canto gostoso de um sorriso não viveu de verdade. Amar amigos, família, canções, letra e poesia faz parte dessa compilação dos nossos melhores momentos por essa terra. O verdadeiro sentido metafísico e discutido na complexidade dos pensamentos filosóficos encerra-se na simplicidade de um instante ou talvez de um show. Não precisa durar para sempre, desde que seja para a eternidade lembrado.

E tudo começa bem cedo. Quando eu era criança ganhei um pôster dos Beatles da minha mãe e de meu pai. Eles me contaram seus nomes: John, Paul, George e Ringo. Eu admirei a forma que eles me contaram a história do quarteto enquanto suas músicas rolavam soltas no toca-fitas. Eu me lembro de haver me apaixonado sem saber direito o porquê. Havia algo de especial naquela história, naqueles dias de Liverpool para o mundo. Não sei se o José Eraldo ou a Luci Aparecida sabem até hoje da diferença daquele instante em minhas escolhas, minhas letras e meu mundo de paixões. Até hoje sou grato aos meus pais por esta melhor educação, por haverem me ensinado o caminho das canções pela vida.

Então, o tempo passou. Tive fases de adorar o ritmo no One, passei pelo questionamento do White Album, viajei junto com a Magical Mystery Tour, deixei estar ao som do Let it Be e, no meio da faixa de pedestres da Abbey Road, encontrei o sol que veio pequeno, grande e gigante como um rei – verdadeiro Sun King – rumo ao fim baseado no amor que se entrega e recebe na mesma medida.

Como um menino sinestésico que enxergava o som majestoso de mensagens para o mundo, eu me imaginava descalço, de pé no chão em um mundo de pisar com força no quente e no frio, de amor e encontros, de noites e lágrimas, de amizades e sorrisos. Minhas lembranças passaram a ser feitas de parte acontecimento e parte canção. Pronto: meu mundo se tornou música.

Por tanta coisa, eu fui ao show do Paul no Rio passo sobre passo, quilômetro a quilômetro e sem saber direito que, ao lado de mamãe, encontraria todas estas lembranças. E posso passar horas escrevendo sobre cada música, cada Live and Let Die que explodia no palco, multidão de platéia e em meu peito. Um Hey Jude com “na-na-na-na-na´s” sem fim. Posso descrever do Let it Be ao Helter Skelter, do Hello Goodbye  da abertura ao Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band com The End no final. Do Something para o amigo George das belas letras ao Yesterday de lembranças de Beatles e de mim mesmo menino.

Cada nota, uma coisa pra pensar. Alguém que passou pela minha vida, que eu revisitei em memórias. Sim, se você fez diferença na minha vida um dia, você estava lá comigo como se não houvesse jamais fim ao que foi intenso no presente do passado.

Foi por isso que meu momento especial de todo o domingo com Paul McCartney foi quando ele disse que era para seu amigo John e cantou Here Today, dizendo que ele estava ali com ele em canção. Agora, colocando o show inteiro e o revisando em minhas próprias letras, posso dizer que eu recordei tudo que foi e que terminou em sorriso de despedida que soa como preparação para o próximo encontro.

Ele deixou em sua canção, eu deixo em minhas letras à luz da lua no fundo do meu próprio palco de faz de conta. Se eu passei em lembranças por você nessa hora, deixe estar, foi puro carinho.

Se eu abraço você daqui para frente, saiba que faz parte das melhores memórias que ainda estou construindo, pois nem a morte é capaz de interrompê-las na misturera de nosso próprio espaço-tempo continuum-descontinuum. Afinal, vivemos uma carreira solo de discografia intensa em que passamos do Here Today para o Lá Naquele Dia no espaço de um parágrafo de piscar de olhos. Somos confusa canção e provavelmente riremos muito disso em um de nossos dias. Em breve, tão breves, musicais e eternos dias de hoje.

Sobre Belão

Escritor, Professor e Publicitário. Não necessariamente nessa ordem. "Ele soava como um delírio de uma mente cansada da banalidade do segunda-à-sexta. Parecia daqueles que desfilam descuidados pelas ruas, sem se deixar afetar por nada ou ninguém. Com estilo próprio por excelência de consciência e com personalidade mais do que confusa pela falta de linearidade de todas suas idéias, pensamentos, ironias, citações e crises apocalípticas de descontentamento pelo mínimo que o existir exige."
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32 respostas para Lá naquele dia: um show inesquecível

  1. Adorei o texto e os últimos parágrafos são sempre os meus preferidos! Queria muito ter ido ver o Paul, mas já tive o meu momento no ano passado em São Paulo. E a minha vontade, quando saí do show, era assistir vários outros, sem pausa… poderia simplesmente ir no Morumbi todo fim de semana para ver e ouvir o Paul, sem enjoar.

    Agora espero pelo próximo show dele e que não demore muito… Enquanto isso, “Life goes on”.

  2. Tali disse:

    “Não precisa durar para sempre, desde que seja para a eternidade lembrado.”
    Não tem como esquecer um sequer minuto do show. Tenho ele todinho na memória.
    Até me faltam palavras para descrever tamanha emoção. Só quem tava lá sabe como foi. =D

  3. Larissa disse:

    Acho que não vou me perdoar nunca por não ter ido! Será que ele volta?? 😦

  4. Belão disse:

    Ana, espero que abram a pedreira para ele passar por Curitiba como em 1993.
    Ele é demais mesmo.

    Tali, foi sensacional mesmo… obrigado por passar por aqui sempre 😉

    Larissa, perdeu mesmo… mas quem sabe ele volta.. eu vou novamente se isso acontecer…
    Beijos e obrigado pelos comentários!

  5. Gabriella disse:

    Nossa.
    Vale comentar que fiquei sem palavras? Concordei com tudo, e adorei o “Não precisa durar para sempre, desde que seja para a eternidade lembrado.”
    E por óbvio, como bem disse a Ana ali em cima, os ultimos parágrafos, quase caí da cadeira.

    Parabéns, você transmitiu do seu jeito único, o que muitos tentam dizer e não consegue, e foi muito bem sucedido nisso.
    Obrigada, alegrou meu dia demais!
    🙂

  6. Silvia disse:

    Adorei! queria muito ter ido a esse show também! Lindo texto!!! beijinho

  7. Renata Silva disse:

    Belones, misturar texto de música com saudade é bem sua cara. Show com certeza vai deixar saudades tb. Eu fui em sampa na última e queria estar nesse também……

  8. Belão disse:

    Obrigado, Gabriella. Os últimos parágrafos sempre me carregam pra dentro da página. Fico feliz que tenha gostado e feito diferença no dia!

    Silvia! sempre presente por aqui! Obrigado! Bjs

    Rê, valeu mesmo. eu procuro misturar tudo com tempo presente e passado. A gente é mistura de tudo, né? Beijo e obrigado por passar por aqui também.

  9. JuniorGros disse:

    Todos os pais do mundo deveriam dar um presente para seus filhos, um cartaz, um livro, mesmo um velho álbum duplo do Jimi Hendrix todo esculhambado, como aconteceu comigo há muitos anos. Teríamos um mundo mais pensante, mais amante, mais vivo.
    Quanto as lembranças, bem, não importa o quão longe você vá, se não consigo a poeira da estrada que seja, você apenas perdeu tempo.
    Ótimo texto.
    Abraço.

  10. Belão disse:

    Valeu, Ademir! Estamos nessa vida pra isso mesmo. Comer poeira na estrada, ver shows irados e delirar com as músicas. Utilidade pública é passar esse sentimento para as próximas gerações.

  11. Andressa Gomes disse:

    “Uma pessoa que não guarda suas lembranças num canto gostoso de um sorriso não viveu de verdade”
    Bem por aí prof.
    Sem muita inspiração ultimamente.
    Texto lindo como sempre.
    Beijos

  12. Belão disse:

    Por que está sem muita inspiração, Andressa? O que te acontece?
    Por aqui um show igual a esse do Paul é fonte certa de letras.
    Obrigado pelo comentário sempre! Beijos

  13. Mari disse:

    Lindo o show né???
    na segunda feira não teve hello goodbye e teve magical mystery tour!!!
    emocionante o here today!!!
    e cairam lagrimas quando ele tocou something!!!!
    e se tiver mais um show…. vou de novo!!!
    =)

  14. Aurea disse:

    O seu texto encanta e absorve.. é impossível não ler tudo.. Gostaria de ter ido no show..mas não foi dessa vez!..
    bjs

  15. Belão disse:

    Isso aí, Mari!
    Acredito que os dois foram demais. A vibe da galera era sensa! e o Paul é o cara mesmo.
    Obrigado por passar por aqui. Bjs

    Obrigado, Aurea! Fico muito feliz por ver mais um comentário seu por aqui.
    O plano de quem escreve é entregar isso tudo de sentir de alguma forma para o leitor. Fico satisfeito em saber.
    Beijos!

  16. Janaina disse:

    Fazia tempo que não passava por aqui!
    Mas vi que você escrever sobre o show e não poderia deixar de ler!
    Coisa mais linda ver o Paul… emoção indescritível…
    Eu morri com Black Bird e Here Today foi simplesmente impossível não chorar!
    E as suas palavras e as suas descrições sempre excelentes!
    Beijo grande!

  17. Anônimo disse:

    Você é TUDO!

  18. Belão disse:

    Jana,
    obrigado por passar! Como assim, fazia tempo?! Não pode esquecer de passar por aqui.. hehehe
    Show foi sensa mesmo. Black bird que ele contou a história ainda.. foi demais mesmo.. mas here today foi especial.
    Beijos!

    Tudo, anônimo, é muita coisa. hehehe

  19. Vanessa disse:

    Sabe, eu ia perguntar na próxima aula “e ai professor, como foi o show?” mas não precisa, depois de ler esse texto a gente consegue entender exatamente como foi o Show do Paul.

    Esse texto vem carregado de nostalgia e com uma dose extra de carinho pelos familiares (o que, na minha vida, não sei muito bem o que é isso). Ainda sim podemos encontrar e sentir toda a vibração que o nosso autor sentiu durante o show. Reconheço que eu tive vontade de sair gritando a plenos pulmões ainda antes de terminar de ler o texto.

    Esse, para quem não tem sensibilidade, pode ser mais um dia na vida de alguém, mas com certeza você vai guardá-lo como O Dia na sua vida, mais ou menos como eu me senti quando fui ao show do AC/DC que pra mim foi fantástico, nesse dia eu senti a maioria dos sentimentos possíveis de se sentir em apenas um dia.

    Parabéns novamente por mais um texto e agora sim eu já posso sair gritando…

  20. Belão disse:

    Valeu, Vanessa! é bem isso… dias como esse são especiais. vale muito viver um momento desses e ter a noção que está acontecendo.
    Obrigado por sempre passar por aqui e pelo carinho no comentário.
    =)
    Grita mesmo!
    hehe

  21. lucy disse:

    Não agradeça por ter lhe apresentado esta banda. Não foi difícil…cresci ao som destas músicas e letras. O escovão que dava brilho ao chão de madeira ficava leve ao som de Help!… Yellow Submarine… She ‘s Got a Ticket to Ride… que uma agulha tirava enquato arranhava gentilmente um long play de vinil . Nas horas mais intimas Lucy in the Ski With Diamonds…e outras.
    Quanto ao show? Bem, o que dizer de uma “cinquentona” que chorou feito criança, pulou e gritou como se tivesse 18 anos, relembrou como se tivesse memórias presentes do passado e pensou num futuro como se ainda desse tempo.
    Obrigada pela companhia e por ter aprendido a gostar de boa música mas principalmente por este texto. Nunca vi nem li nada igual! Parabéns e que você possa fazer com palavras num papel o que os Beatles fizeram com as palavras na música. Orgulho de Mãe!

  22. Belão disse:

    Amo muito você, Mãe.
    Foi o nosso show sensacional. Amém para o que você escreve e pelo seu carinho que faz toda diferença. Beijos!

  23. Flavia Coelho disse:

    Acho que esse é meu predileto!

    Parabens Belão.

  24. Belão disse:

    É mesmo? Fico feliz em saber, Flávia. Obrigado pelo comentário. Bjos

  25. Anna Paula disse:

    Lindo texto, adorei!
    E sua sensibilidade é admirável…

    🙂

  26. Belão disse:

    Valeu, Anna! estou nessa terra pra isso 😉

  27. Renata Barp Igeile disse:

    De arrepiar o texto…show da minha vida sem dúvida alguma…coisas que ficam pra sempre…

  28. Belão disse:

    Valeu, Rê! E obrigado por passar por aqui. Foi um show inesquecível. O melhor da vida… com certeza! Bj

  29. Jessyka Ramona disse:

    Pois é, não sou a fão nº 1 dos beatles, mesmo gostando de algumas músicas, não sei quase nada sobre eles. Admiro muito esse amor que você tem por várias coisas prof, o jeito com que você narra suas vivências e experiências inesquecíveis me dá inveja hahaha, acho que você consegue viver seus momentos autista por um segundo e transfigurar sua alma, suhsuhusha com certeza. Que bom ler tanta coisa boa (= tks Belão!

  30. Belão disse:

    Que comentário, Jessyka. Acho que eu fico ensimesmado mesmo para viver mais intensamente e isso muda almas com certeza. Quem não gosta de Beatles? O Negócio é deixar mudar a vida e o jeito de ver as coisas mesmo. Obrigado pelas palavras… Beijos!

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