Passeio lindo é o Público

 

Portão do Passeio Público (Curitiba) – foto da década de 1930.  Fonte: Wikipédia.

 

 

Minha Curitiba não está perdida. Precisa é ser revisitada em seus mais caprichados dias de sol com frio de gelar a ponta dos dedos do pé. Só que pra isso é preciso vontade passear feito criança pelos locais que deixamos para lá por conta de lendas urbanas de violência e degradação. Pois eu afirmo que é possível nos surpreendermos com nossa cidade, viajando pelos lugares que há décadas existem e nos esperam, bem públicos e bem desenhados para nossos merecidos passeios de “e” bem carregado.

Neste domingo, me surpreendi ao ser convidado por um grande amigo, compadre, irmão em idéias e crenças para almoçar no Passeio Público. Fomos eu, ele, sua esposa e o rebento recém-concebido que ainda esconde o sexo e permanece protegido e confortável no ventre materno. “Porra, Dindo! Eu tava quietinho(a) por que escrever isso a meu respeito?” – ele(a) vai me dizer um dia. Tudo bem que o senhor Rava Ravanello só me convidou para ir almoçar neste local específico porque mudou recentemente para a região. Eu aceitei desconfiado do passeio e da má fama da redondeza. Qual o quê!

Foi assim: passados mais de vinte anos desde que fui como criança passear por lá com meu pai e minha mãe para ver passarinhos e aquários, encontrei o sol, as árvores e o lago no mesmo lugar. Achei também as gaiolas gigantes e os bichos ainda mais elegantes e empertigados com o frio. Encontrei a nostalgia não só das minhas lembranças, mas também de uma Curitiba da década de sessenta e setenta, de velhinhos com boinas jogando cacheta em mesas e bancos de pedra. Várias mesas, vários deles. Desenhei uns planos de futuro nessa hora.

Achamos por lá também um restaurante à beira do lago com comida boa, cerveja e underberg – que combinado com uma água tônica, gelo e limão serve de ingrediente para o que chamamos, por excelência da aparência, de água-de-valeta, santo remédio contra a ressaca do sábado. Jogamos fora conversas incríveis e rimos enquanto um filé de alcatra gigante ao estilo bife de brontossauro dos Flinstones nos era servido na chapa quentinha com arroz, feijão, farofa com torresmo, maionese e um vinagretezinho porque ninguém é de ferro.

Tratamos de comer lentamente. Olhar o sol. Mudar para a sombra quando esquentava demais as costas. Voltar para o sol quando esfriava o pé. Pedir mais uma, duas, três rodadas para o garçom, amigo Mohamed.  Tiramos sarro dos pais que passeavam com suas crianças em pedalinhos que pendiam para o lado feito um hovercraft desequilibrado pela diferença de peso de seus passageiros. Isso tudo e muito mais risos.

Tudo bem que está tudo por lá, conservado do jeito que dá. Tem um batalhão de polícia que garante uma aparente ordem e não temos mais aquela degradação toda que ouvi falar nos últimos anos. Ainda assim, pode ser melhor. Mais visitado, ainda melhor cuidado e mais valorizado. Depende de nós mesmos. Depende de passarmos por lá. De encontrarmos grandes tesouros nos lugares esquecidos de nossa cidade.

E eu repito que minha Curitiba não está perdida. Nós é que precisamos sair mais de casa. Aparecer por lá. Andar por esses lugares guardados em nossa memória de criança. Destrancar lembranças, reviver os momentos passados e reconstruir os passos de nossa história provinciana. Por isso, a partir desse e de cada domingo meu, convido a todos a usar melhor o que resta das contas de últimas horas de fim de semana. Revisite, aventure-se e conte para mais alguém. Afinal, o Passeio mais lindo da cidade é nosso bem Público.

Sobre Belão

Escritor, Professor e Publicitário. Não necessariamente nessa ordem. "Ele soava como um delírio de uma mente cansada da banalidade do segunda-à-sexta. Parecia daqueles que desfilam descuidados pelas ruas, sem se deixar afetar por nada ou ninguém. Com estilo próprio por excelência de consciência e com personalidade mais do que confusa pela falta de linearidade de todas suas idéias, pensamentos, ironias, citações e crises apocalípticas de descontentamento pelo mínimo que o existir exige."
Esse post foi publicado em Curitiba, gosto das coisas, infância, Passeio Público, sol, viver. Bookmark o link permanente.

22 respostas para Passeio lindo é o Público

  1. Isso ae; se nao é tudo vero, é tudo bene trovatto.

  2. Belão disse:

    verdade! hahaha!

  3. Silvia disse:

    Eu não vou lá faz tempoooo…. fiquei até com vontade.
    belo texto
    bjinho

  4. Tali disse:

    É sempre incrível ir no Passeio Público. Depois que deixei de lado o preconceito com o lugar não consigo mais parar de ir, virou minha pista de corrida semanal. Cada dia uma história diferente e hilária.
    Só precisamos de mais pessoas como você, que motivam visitas aos lugares antigos da nossa cidade. Parabéns, texto encantador.

  5. Belão disse:

    Vale a Pena passar por lá mesmo, Silvia! Recomendo!

    Obrigado, Tali! Sim, a partir desse domingo, virou um lugar que faço questão de visitar mais. Obrigado pelo comentário e por sempre passar por aqui. Escrevo o que posso e espero de verdade motivar mais as pessoas a passarem por lá.
    Beijos!

  6. JuniorGros disse:

    Quantos domingos não já passei correndo por lá. Lá se vão mais de 20 anos. Mas cheguei a passear bastante por lá na época em que dividia meus dias entre a “Casa Aluminio” (no centro) e o Estacionamento “Pássaro” (no Centro Cívico) durante os anos em que tive como patrão o Sr. Malek Nader, sírio muito correto e sistemático. Enfim, um lugar de muitas lembranças que vale a pena ser visitado e revisitado por todos.
    Curitiba não está mesmo perdida, muitas vezes somos nós que a perdemos.
    Parabéns!

  7. Belão disse:

    Valeu, Ademir! ahh essas lembranças que temos e que nos fazem quem somos são as melhores. Obrigado por passar por aqui sempre e comentar. Acredito que tudo o que perdemos podemos reencontrar. O passseio, a cidade. e por aí vai.
    Abraço!

  8. Renata Silva disse:

    passando rapidinho…. adoreei o texto… adoro o passeio… beijo beijo

  9. Belão disse:

    Obrigado, Rê! continue adorando. hehe beijo

  10. Andressa Gomes disse:

    Nossa, lembro de quando eu era o alvo de piadas com minha mãe nos pedalinhos!
    haha
    Tempo bom que não volta nunca mais…
    Mais vale a pena reviver, relembrar.
    A nossa Curitiba não esta perdida, nós a que perdemos, esquecemos, desvalorizamos.
    Ela é linda e amável, como sempre!
    Acho que farei uma visitinha lá pra ver os bixinhos de novo hehe!
    Parabéns pelo texto Belão.
    PS: Me deu muitaaa fome isso. hahaha
    =)
    Beijos

  11. Belão disse:

    hahaha. texto que dá fome e vontade de voltar ao passeio… é texto que deu certo.
    Obrigado, Andressa pelo comentário e por sempre pasar por aqui! Vale a pena revisitar Curitiba… em textos e pessoalmente. Beijos!

  12. Polenta disse:

    Uma curiosidade… sabia que o portão do passeio público é um réplica do cemitério de cães de Paris???
    Belo texto, só pra constar.

  13. amenriconi disse:

    Esse texto me transportou da cadeira diretamente para a infância, quando ia ver os bichinhos com meus pais e almoçar no (extinto) restaurante vegetariano da esquina do passeio…que saudades!
    Os movimentos para a revitalização do centro histórico da cidade (bem como os eventos culturais que dele se apropriam, trazendo vida e cor) tem apresentado ótimos resultados, acredito que o melhor deles seja o Paço da Liberdade. É bom poder reviver essa Curitiba de que sempre ouvi meus pais/tios/avós falarem. É bom voltar a sentir orgulho de uma cidade que até alguns poucos anos atrás dava um tanto de desgosto.
    Ótimo texto!

  14. Gabriella disse:

    Passo lá na frente todos os dias, e sempre penso todos os dias em dar uma paradinha, minha vó mora ali do lado também. Engraçado como é sempre verdade que os proprios moradores de uma cidade são os unicos que vão raramente nos pontos turisticos da propria cidade! (excluo aqui o parque barigui, que aquele bafafá de final de semana lá já está insuportável)
    (((((Aliás, proponho aqui que vocês, curitibanos lindos da minha vida, troquem o passeio de sábado/domingo no Barigui, por ocasionais visitas à esse lugares que tendemos a esquecer, como o Passeio Publico, etc.)))))

    Enfim. Belo texto, gostei, me fez lembrar de muitas coisas, e querer revive-las
    🙂

  15. Belão disse:

    Polenta, obrigado por passar. Sim! Vi na wikipédia que é uma réplica. Achei isso muito legal. me fez gostar ainda mais de ir até lá.

    Alessandra, acho que sempre conservei amor por essa cidade. Redescobri-la em detalhes ou passeios é sensacional. Lembrar de coisas de infância nesse processo é ainda melhor. Obrigado pelo comentário e por passar por aqui! Beijos

    Gabriella, obrigado também! Se a gente puder estimular as pessoas a passear por lá, é um jeito do texto dar certo e do escritor encontrar resultado de obra. Que bom que gostou e que viveu suas próprias lembranças ao ler. Beijos!

  16. Renata Barp Igeile disse:

    Baaah… recomendo também a feirinha de organicos que tem lá aos sábados…demais também…muito bom o texto! Realmente nostálgico! =)

  17. Belão disse:

    Opa! essa feitinha eu não conheço. vou passar. obrigado por passar e ler. o texto é cheio de nostalgia mesmo. Beijos!

  18. luci disse:

    Que nostalgia boa!
    Passei por lá acompanhando aos pulos os passos largos de meu pai e aprendi algumas coisas com ele… “que nada melhor que água tônica para matar a sede; que a cobra cascavel (que ficava em um aquário por lá) tem um chocalho no rabo que bate quando ela vai picar a gente; que a erva de passarinho, uma planta que fica em cima daquelas árvores ( numa relação de simbiose ou seria uma parasita? sei lá!) é mutio boa para fazer um chá para ser tomado com gemada, pincipalmente no inverno…e que o “Tan Jão”(era assim que ele falava) ficava longe dali e que eu ia ter que andar um bocado para chegar lá sem reclamar e comer um pastel de palmito. Passei por lá de mãos dadas com seu pai e depois com você.
    Nunca levei seu irmão lá! Vamos marcar de comer um “filédebrontossauro” qualquer dia desses no Passeio Público. Bjos

  19. Jessyka Ramona disse:

    Caramba, rs, quando eu vinha passar as férias na casa do meu pai, (desde os 7 anos) eu sempre ia no passeio andar nos pedalinhos em forma de cisne.. acabo de recordar a última vez que fui lá, em 2002.. Agora que moro aqui e passo todos os dias lá na frente sempre sinto vontade de voltar, pena que não vou poder correr e brincar hahaha ou vou e dane-se se me acharem doida… Adoro o zoológico também.. Mas é como morar na praia e enjoar do mar.. damos valor quando perdemos.. rs. Belão e seus textos que fazem apertar o coração de saudade, haha. Acho que vou até lá domingo. (=

  20. Belão disse:

    Opa, saudade é coisa boa às vezes, Jessyka! Passa lá mesmo e vive novamente estes momentos.

    Mãe, eu te chamei! hehehe Mas vamos marcar outro fds com certeza! Almoço de domingo com todos no Passeio Público. Só o Nono que vai fazer falta. Ficam as lições. Beijos!

  21. Renata Barp Igeile disse:

    Vale a pena conferir a feirinha babe…a feitinha huahua já não sei hauha…nostalgia boa!
    beijão

  22. Belão disse:

    hahaha opsss.. ***feirinha. passarei por lá… 😉

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