Bravura ou braveza?

Texto sobre escrever que começa com as palavras do Júnior Gross. Mais uma parceria.

Por que você escreve? Creio que, assim como eu, todos que se expressam por meio das palavras já responderam a essa pergunta ao menos uma vez.

No meu caso, comecei a escrever porque doía, sentia um aperto por dentro. Algo que me incomodava, que nem mesmo as horas trancado dentro de estúdios ensaiando resolviam. No início foram alguns poemas, coisa dolorida mesmo. Depois vieram os primeiros textos. Logo virou algo natural, escrever é um deleite e está se tornando minha profissão.

Em resumo, escrevo porque sinto. Escrevo por prazer, algumas vezes porque dói ou porque sinto necessidade de manifestar minha opinião sobre esse ou aquele assunto. É parte de mim, se um dia parar de escrever, terei parado de sentir, estarei morto.

Junior Gross

 

 

Felipe Belão escreve em resposta, sempre escreve pra responder. Lá vai.

Tem dias que tudo que resta é escrever. E todo escritor carrega consigo uma melancolia elegante, uma dor contida, um sentimento por revelar. Por isso as palavras escapam pro papel. Da idéia pro papel. Do coração pras frases. Das tripas pra manchar a folha em branco. Único jeito certo.

E a agonia de não fazer? Não acredite que é falta de coragem. Muitas vezes fazemos de conta que não precisamos do texto. Mas o simples exercício de viver nos puxa pro lápis ou teclado. Atendemos ao chamado por bravura ou braveza, depende do dia, da escolha de viver.

E, assim como para amar, é preciso dedicação e cuidado. É preciso viver de verdade, estar atento. Guardar os próprios dias no peito. Afinal de contas, há muita solidão espalhada por aí.

Intensamente jogamos para longe o verbalismo exacerbado de quem trata a arte com obrigação analítica. Viver pra escrever é diferente de escrever pra esquecer. O que cai no meu texto, permanece vivo em sussurros de minha própria eternidade.

Não me analise. Ame ou odeie. Seja quente ou frio. Discorde comigo. Concorde contra mim mesmo. Não ache que meio silêncio termina no gesto, pois ele vira palavra.

Eu proclamo, romanceio, poetizo ou profetizo. Sou arrogante a ponto de esperar que você passe um tempo me lendo. Sou humilde o suficiente pra entender que sou imperfeito.

E entenda, ó estudioso das literaturas e letras, que a arte é justificativa de vida a plenos pulmões. Não me reduza ao teu ensaio. Os intelectuais do mundo morreram quando chegamos na casa dos bilhões de pessoas. Quero dizer que existem milhões de pessoas produzindo melhor do que eu, estudando mais do que qualquer um neste instante. Ninguém é capaz de chegar a um milésimo de tudo de qualidade que existe nas obras do mundo. Sim, somos todos pseudo-intelectuais.

Por isso, sou capaz de detestar cada uma de minhas linhas. São grãos de areia numa galáxia de desertos. Sou capaz de questionar cada vírgula da minha sinceridade. São suspiros de paixão ao vento. Bom ou ruim pouco importam. São conceitos vazios. O conteúdo inexorável nasce e morre nos olhos do bom leitor.

Oxalá os tenhamos sempre, por bravura ou braveza, conservados em intensidade.

Sobre Belão

Escritor, Professor e Publicitário. Não necessariamente nessa ordem. "Ele soava como um delírio de uma mente cansada da banalidade do segunda-à-sexta. Parecia daqueles que desfilam descuidados pelas ruas, sem se deixar afetar por nada ou ninguém. Com estilo próprio por excelência de consciência e com personalidade mais do que confusa pela falta de linearidade de todas suas idéias, pensamentos, ironias, citações e crises apocalípticas de descontentamento pelo mínimo que o existir exige."
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26 respostas para Bravura ou braveza?

  1. JuniorGros disse:

    Por bravura ou por braveza que possamos sempre manchar papéis, distribuir flores, expor feridas, pintar amores.
    Obrigado pelo espaço.
    Abraço!

  2. Belão disse:

    Valeu, Ademir! é um grande prazer.
    A minha resposta em texto é inspirada no que você escreveu.
    É um desabafo de quem escreve para quem lê ou para quem não entende o escritor… ou entende também.
    O que vc escreveu tb resume muito disso.
    abração!

  3. Renata Silva disse:

    muito bom saber um pouco mais sobre como quem escreve pensa
    beijão

  4. Belão disse:

    obrigado, Rê! beijos

  5. Silvia disse:

    “Guardar os próprios dias no peito.”
    Adorei essa expressão!!! sempre adoro esse blog e seus textos!!!!!

  6. Djuliano disse:

    Gostei do “… grãos de areia numa galáxia de desertos.” hehehe
    Ótimo texto, gostoso de ler.
    Essas parcerias rendem textos bem legais.
    Abraço.

  7. Ana disse:

    Lendo o texto lembrei-me da famosa frase de Fernando Pessoa: “Escrever é esquecer. A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida”.
    Às vezes, discordo de Pessoa, pois escrever também é uma forma de se importar muito com a vida.
    Talvez, escrever seja um ato quixotesco que bate de frente com gigantes, mas para quem ainda luta nenhuma causa é perdida.

  8. Belão disse:

    Obrigado, Silvia!

    Dj… valeu mesmo! estamos aí pra entregar coisas pro mundo…

    Ana, o Fernando Pessoa sempre será sensacional. Mas gosto muito do jeito que ele fala de escrever em relação aos sentimentos.
    Tipo: “tenho tanto sentimento que às vezes me confundo e acho que sou sentimental…” coisas assim…
    Beijos!

  9. Andressa Gomes disse:

    Difícil explicar porque se escreve. Na verdade, busco encontrar nas palavras as definições certas para determinados momentos. Penso que escrever é o mais íntimo refúgio da alma, onde calamos em palavras escritas. Tanto que as vezes nem eu entendo o que escrevo, um desabafo comigo mesmo. Mas aí é que esta a graça, coincidentemente se encaixa na vida de outras pessoas, tornando a nossa história um pedacinho das delas. Escrever por jogar palavras e formar frases é vazio. O real sentido é fazer com que a leitura seja um resgate de nós mesmos e de todos que compartilham.
    Ótimo texto.
    Beijos

  10. Belão disse:

    Valeu, Andressa! compartilhar palavras sempre. boas ou ruins. coisas de verdade ou inventadas. o importante é o sentimento que está ali. Obrigado. Beijo!

  11. Alessandra disse:

    texto mais pesado eu achei….. só que sempre do seu jeito muito bom

  12. Belão disse:

    obrigado, Alessandra!

  13. sentimentos (amor, ódio ou a dor) traduzidos em palavras, vozes que estão na cabeça tem tendencia a marcar papeis.
    adoro seus textos
    espero que vc continue a escrever
    bjs

  14. Belão disse:

    Obrigado, Denise. É uma coisa que nasce com a gente… não tem como eu não continuar escrevendo enquanto, como diria o chico, eu “não tiver terminado o relato da minha existência”. beijos!

  15. amenriconi disse:

    Texto inspirador! É na escrita que concretizamos nossos pensamentos e sonhos, e é nela que traduzimos nossas sensações e sentimentos. Adorei.

  16. Belão disse:

    Obrigado, Alessandra. é por aí que vejo também… =)

  17. Matuda disse:

    A eterna pergunta do por que você escreve. A busca de uma definição, de um motivo, o “porquê”. “Escrever é preciso”, num amálgama estranho das palavras de Fernando Pessoa. Escrever o que se sente, escrever o que é preciso, escrever sobre aquilo que se ama, ou quem sabe apenas regurgitar aquela euforia, aquela indignação que sobre pelo peito, vinda das profundezas mais guturais de seu ser. E aqui neste conto eu me encontro, deste e daquele modo, física e mentalmente, me sentindo bem e mal, como se soubesse tanto e nada ao mesmo tempo, e penso novamente nesta pergunta, tantas vezes respondida, nunca do mesmo modo. Mas se fosse escolher uma, das melhores ou piores, eu ficaria com a última a qual dei a quem me veio tão inocentemente perguntar a grande pergunta.

    “E por que não?”

    Abraço Belão, que não lhe faltem palavras como eu sinto me faltar agora, hahah.

  18. Belão disse:

    E por que não? é o melhor jeito de resumir. Vamos escrever sempre, Sérgio. É algo que vai além, nos leva além!

  19. Vanessa disse:

    Não basta apenas fazer, tem que sentir o que se esta fazendo, seja por apatia, por dor, por amor ou quando as mãos coçam e precisam desesperadamente pular em cima do teclado quando o peito esta fervendo como um vulcão em atividade louco para despejar as palavras em forma de poesia.

    Mesmo que as pessoas tenham o habito de andar de bicicleta, essa habilidade lhes foram ensinadas em alguma período da vida, mas para o escritor o habito de escrever não se aprende de um dia para a noite ou simplesmente em uma sala de aula em um dia de sol quando se conta os minutos para bater o sinal. O Saber expressar o que se sente não é pra aqueles que querem muito, mas sim é um presente que foi dado de um Cara lá em cima na hora que alguns poucos privilegiados vem dar na Terra o ar de sua graça.

    O que às vezes não se entende que a perfeição existe justamente no que não é perfeito. Palavras como humildade, prepotência, arrogância, sinceridade entre outras não são para serem jogadas ao vento ou ao primeiro pedaço de papel que se acha em branco, existe toda uma carga sentimental por traz disso tudo e só aqueles que são dignos de ler e de entender o que foi escrito, de coração ou com o intestino, é que podem achar e discordar.

    Que seja por bravura ou braveza, que escreva sempre, ho querido escritor que é simples e bravo ao mesmo tempo, sendo eu capas de entender ou não, coloco os meus pés em cima das suas pegadas só para admirar mais um presente que o autor apresenta ao mundo.

  20. Kelly disse:

    Lindo texto… Palavras simples e fortes… Incrível…
    Parabéns!

  21. Belão disse:

    Obrigado, Kelly.

    Vanessa, belíssimo comentário! É verdade que cada palavra carrega uma carga de sentimento. Não é simples palavra, assim que cai no papel e se entrega para quem tem olhos de leitor. Obrigado mesmo!

    Beijos!

  22. Dizem que escritores são malucos, depressivos; ainda dizem que os melhores roem as unhas, rs. Essa angústia esculpida em palavras, de querer dizer. Você pinta com palavras, escritor. Continuarei apreciando, Bjs!

  23. Belão disse:

    escrever é, acima de tudo, sentir a vida. Obrigado, Jessyka… continue mesmo !

  24. Regiane Silva disse:

    Lindo texto!
    Inspirado nele acabo de fazer um texto onde respondo o porque eu escrevo.

    Parabéns!!!

  25. Regiane Silva disse:

    Escrever… Eu escrevo porque sinto necessidade de contar aos outros sobre o tombo que levei, sobre o banho de chuva que tomei, sobre o beijo que não dei. Sinto necessidade de partilhar tudo aquilo que está preso dentro de um órgão frágil e tolo, meu coração, de arrancar tudo aquilo que está preso dentro de um lugar obscuro e misterioso, minha mente.

  26. Belão disse:

    Obrigado por compartilhar, Regiane. Escrever é de fato algo que nasce com a gente e suaviza o peso dos dias.. Beijos e passe sempre por aqui!

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