A fome não dorme

Esse texto foi minha contribuição para o Forum de Sustentabilidade FGV Direto Rio+20

“Truth is neither ojectivity nor the balanced view;
truth is a selfless subjectivity.”
Knut Hamsun

Caminhamos em um mundo em que a economia foi criada pelo homem para o homem, em prol das relações entre as pessoas, por uma imaginada harmonia social. No entanto, em algum ponto de nossa história nos perdemos. A economia deixou de ser o meio para melhor estruturar nossas relações para ser o fim, a finalidade maior da vida de muita gente. Não é difícil enxergarmos tal realidade, essa visão de mundo deturpada que justifica a vida de muitas famílias e pessoas em torno do lucro e da acumulação de algo que inventamos e chamamos de dinheiro.

O grande desafio tem sido pararmos de discutir sobre esquerda e direita como se a fome e a desigualdade pudessem ser resolvidas simplesmente por uma rua no trânsito. Muito mais que política, estes termos precisam ser discutidos em termos de consciência individual. A falta de condições em que muitos se encontram é sim responsabilidade de todos no mundo. A social-democracia falhou ao esquecer a verdadeira função da demanda efetiva keynesiana que deveria movimentar uma economia em prol de desenvolvimento do estado do bem-estar social e não no caminho do lucro. A esquerda falha ao chegar ao poder e seguir pelo mesmo caminho ou lançar mão de medidas autocráticas populistas.

Fome não se resolve com populismo. Fome se resolve com acesso a condições humanas dignas, por uma vida menos marginal. Quando o trabalho – verdadeira fonte da riqueza do prazer da consciência – será de acesso a todos? Problemas sociais são resolvidos com o esforço de muitos por todos nós, enxergando e reconhecendo os laços de família e fraternidade que conectam as pessoas no mundo. Todos temos o direito a buscar a liberdade e conceituá-la ao nosso modo. Todos temos o direito de nos esforçarmos em direção à felicidade que é tão etérea quanto subjetiva. Todos temos obrigação da fraternidade incondicional e esta não se encontra a mesa para discussão, pois deve estar no ar que todos respiramos.

O porquê pode ser complexo: somos manifestação plural de algo que é único e vem a priori da existência. As religiões discutem entre si, os falastrões criam dogmas e os ateus criticam a imposição da crença. Sejamos, pois, práticos ao perguntar “e o cara ao meu lado?”

Por tudo isso, meu argumento é simples: lucro é baseado em dinheiro que muda de nome conforme vontade de governos dirigidos por políticos; fome é uma manifestação indiscutível dessa capa de carne e osso que todos nós temos e que envolve nossa consciência que, por sua vez, é a única manifestação do transcendente em nossa vida mundana. Quando colocaremos nossa consciência a favor da vida fraterna em que todos devem ter direito à liberdade da terra e a felicidade do mínimo do prato cheio?

Sua moeda muda de número, mas a fome no mundo não dorme.

Sobre Belão

Escritor, Professor e Publicitário. Não necessariamente nessa ordem. "Ele soava como um delírio de uma mente cansada da banalidade do segunda-à-sexta. Parecia daqueles que desfilam descuidados pelas ruas, sem se deixar afetar por nada ou ninguém. Com estilo próprio por excelência de consciência e com personalidade mais do que confusa pela falta de linearidade de todas suas idéias, pensamentos, ironias, citações e crises apocalípticas de descontentamento pelo mínimo que o existir exige."
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8 respostas para A fome não dorme

  1. Nati disse:

    O mundo tem muita gente do bem, de esquerda, de direita, de cima do muro, católico, espírita, ateu. Cabe a nós entender as boas intenções de cada um e fazer acontecer ao invés de simplesmente discutir… E assim percebemos que no fundo, toda essa gente de bem quer a mesma coisa. Mas e ai Vamos colocar a mão na massa?!

  2. Belão disse:

    Vamos?! também acho! concordamos em muita coias…
    e discutir também faz parte de fazer algo… a consciência é uma grande ação.

  3. Silvia disse:

    gosto mais dos textos de paixão…. mas fome é tenso mesmo… vale discutir… suas palavras são fortes bj

  4. Belão disse:

    valeu, Silvia. Nem só de paixão vive o mundo…

  5. Patrícia disse:

    Agradeço muito pela sua contribuição no Fórum!!!
    Assuntos como este realmente são revoltantes e, ao mesmo tempo, instigantes.
    Discutir é preciso, mas, mais ainda, agir é necessário.
    Na qualidade de advogada posso afirmar o quanto o ordenamento jurídico brasileiro é composto por belas leis, algumas certas outras nem tanto, além dos tratados internacionais ratificados pelo Brasil e inseridos formalmente em nosso ordenamento.
    Diante disso, acredito que hoje, portanto, discutir é necessário, talvez não para a criação de novas leis e normas, mas sim, medidas e meios de como colocar esse nosso ‘agir’ em prática.

  6. Belão disse:

    Eu é que agradeço a oportunidade e destaco a importância do seu trabalho e deste Fórum. Eu acredito que podemos fazer essa diferença.

  7. Marcos disse:

    Ótimo texto…Se todos parassem pra pensar no que disse, o mundo seria mais Justo. Realmente, “Fome não se resolve com populismo. Fome se resolve com acesso a condições humanas dignas, por uma vida menos marginal”. Espero sucesso de você ao propagar essa ideia.

  8. Belão disse:

    Valeu, Marcos! também espero que pelo menos pensem… =)

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