Pedras para peixes

Havia duas pedras sobre a mesa. Uma clara que puxava pro rosa, como se imitasse um quartzo; e uma escura que brilhava em dourado de rio em dia de sol. E ele inerte observava as duas. Refletia sobre o futuro e a possibilidade dos destinos e escolhas que nos aparecem em vida. Não se tratava simplesmente de optar por um dos objetos, mas da complexidade do pensamento envolvido. Era sua boa mania de complexar um simples gesto.

No entanto, era boa praça, brasileiro em nacionalidade. Pintava no peito as cores de uma bandeira que não compreendia. Não entendia as fronteiras do mundo. Quando criança, imaginava que havia muros nas fronteiras desenhadas pelos mapas mundiais. Acreditava que atribuíamos as nacionalidades e línguas, pois éramos fisicamente incapazes de transpormos de um país pra outro. Botou fé nesse dogma por anos. Porém, hoje não nutria mais conceito ou preconceito ufanista.

E as pedras estavam sobre a mesa. Permaneciam ali, lembrando escolhas de Sofia ou mundos de Alice ou os lados da força ou pílulas do Morpheus. Filosofar parecia ser o único caminho. Transformar as questões fundamentais da vida em objetos inanimados e pequenos demais se comparados àquelas pedras: clara e escura sobre uma mesa de madeira antiga de árvore que morreu sem sofrer.

Respirou fundo. Passou a mão sobre os lábios. Sentiu o próprio toque como áspero. Suspirou todo ar de uma só vez. Agitou-se na poltrona de couro. Percebeu o barulho que fazia e sua pele, vestida apenas por bermuda de algodão, descolou de uma parte da almofada para colar como promessa eterna em outra. O relógio no alto da parede direita encarava-o, cobrava por resultados. Quem o visse de longe, percebendo sinestesicamente cada detalhe, julgá-lo-ia como triste sujeito. Erro categórico, estava apenas absorto em questionamentos dos detalhes. Sua metafísica se resumia a menor parcela da visão holística.

Encaixou as vértebras da coluna. Estava prestes a se mover, optar por sua estrada. Escolher a pedra que para sempre mergulharia em seu aquário de neons e acarás. Nunca mais a tocaria a não ser que fosse limpar o tanque. Como era difícil ser criança.  A lição por fazer, a hora da aula por chegar. Barulhos para além da sala. Movimento. Pessoas. Passos mais pertos, era sua avó do sorriso doce.

– Felipe, venha almoçar.

Sobre Belão

Escritor, Professor e Publicitário. Não necessariamente nessa ordem. "Ele soava como um delírio de uma mente cansada da banalidade do segunda-à-sexta. Parecia daqueles que desfilam descuidados pelas ruas, sem se deixar afetar por nada ou ninguém. Com estilo próprio por excelência de consciência e com personalidade mais do que confusa pela falta de linearidade de todas suas idéias, pensamentos, ironias, citações e crises apocalípticas de descontentamento pelo mínimo que o existir exige."
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8 respostas para Pedras para peixes

  1. Silvia disse:

    que lindoooo adoro texto de qdo vc era criança

  2. Belão disse:

    Obrigado, Silvia. É meio uma mistura de dias e tempos. Quando eu era criança era mais difícil. É pra todo mundo.

  3. Belão disse:

    Obrigado, Denise! =)

  4. Renata Silva disse:

    muito bom!!!

  5. luci disse:

    Agora vc me fez chorar.
    Lembranças…decisões…sorrisos doces… mergulhados nas águas de um passado onde havia um reflexo puro de amor e encantamento.
    Saudades

  6. Belão disse:

    saudades tb, mãe.. acho que é a época do ano.

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