Meu gorro de natal

O destino é tão forte quando decide mudar que é impossível ignorar o sangue que arde feito ácido nas veias. Ainda assim residem no mundo os insistentes protestos sem eira nem beira. A vontade de reclamar por audiência. É como escrever sobre o câncer de alguém ou sobre alguém que fala um “a” sobre o câncer de alguém. É um bocado de idealização bestas que tanta gente precisa para poder seguir medíocre. Pronto, aí está. Aumentaram seus page views, seus comentários saltaram para mais de cem. Sem sentido pra mim. Todo o resto do mundo ignora a doença do outro, a minha doença, o seu sistema de saúde que permanece uma merda mesmo, os nossos problemas e a coletiva falta de capacidade de olhar para o lado como se olhasse para o próprio umbigo.

Confiamos de menos. Reclamamos ao infinito. Reclamamos do reclamar alheio e escrevemos textos tipo esse aqui: um relicário de contradições.

Ainda assim, o novembro chegou. Como de costume, antecipamos o final do ano e, com o décimo terceiro em vista, o meu povo já faz planos de ceias e compras e vontades repetidas do ano passado.

Pois eu gosto do Natal e das mudanças por outra coisa. Cansei de reclamar ou de ouvir reclamações. Quero o verdadeiro espírito de nascimento e renovação de um período de tempo inventado. Quero o sentimento de criança que aprendi com minha vó Maria e com meu vô Atílio.

Cada um deles tem a voz reverberada na minha cabeça. A dele me lembra valor de família e a vontade de nunca mais votar em político por simplesmente não confiar em nenhum. Ele sabia das coisas. A dela me lembra o tratar direito o menino e a criança que fui e ainda sou. Ela me faz recordar a doçura de pendurar bolas de vidro de pobre em árvore de natal datada da década de oitenta.

Os dois me fazem lembrar e pensar que um gorro é bem mais que um gesto, é uma busca. Uma peregrinação por um tempo esquecido em que o sentimento de solidariedade e de mudança positiva era algo em que eu botava minha fé de criança que tudo pode. Sem protestos, sem doenças e sem problemas sociais. Afinal, se precisassem de mim, eu lá estava por meu papel no mundo e eu sempre precisei de todo mundo. E meu mundo ia até a fronteira do portão e nele todos – até os cachorros e as centopéias – eram minha família e tudo somava e havia amor por todo o lado.

Eu idealizo minhas lembranças e uso meu gorro de natal o ano inteiro por saudade dos meus avós que me criaram juntos e me transmitiram tanta coisa do que sou hoje. Eles me ensinaram o amor pelo mundo. Ensinaram a amar sem idealismos. Renovar quando preciso. Estar lá na hora certa. Falar o que pensa quando preciso, na hora certa em que o silêncio abre alas e passa de lado para que sua voz desfile. Cresci transformando a minha voz em letras e os ensinamentos deles em minha poesia deitada, sem verso ou rima.

Tudo isso pra lembrar com carinho dos dois e dizer que sou desses que ama o natal. Ensinarei as crianças por perto de mim a gostar também. As que quiserem ouvir sem reclamar. Paz e bem pra todos é do que se trata. Um mundo melhor, independente do seu pecado de ontem. Família perdoa. Sou desses família. Sou desses que gostam do natal a ponto de vestir meu gorro vermelho o ano todo. Que comece o nascimento, a renovação. Cuide das crianças – das que pouco viveram e das que colecionam primaveras – pois logo chega o verão.

Sobre Belão

Escritor, Professor e Publicitário. Não necessariamente nessa ordem. "Ele soava como um delírio de uma mente cansada da banalidade do segunda-à-sexta. Parecia daqueles que desfilam descuidados pelas ruas, sem se deixar afetar por nada ou ninguém. Com estilo próprio por excelência de consciência e com personalidade mais do que confusa pela falta de linearidade de todas suas idéias, pensamentos, ironias, citações e crises apocalípticas de descontentamento pelo mínimo que o existir exige."
Esse post foi publicado em amor, Brasil, infância, intensidade, natal, Poesia, política, problemas do mundo, quintal, respeito, tempo, viver. Bookmark o link permanente.

8 respostas para Meu gorro de natal

  1. Nati disse:

    Engraçado.. eu não gosto do natal justamente pela saudade que eu sinto.. algumas saudades até antecipadas… Você me mostra o outro lado, o lado das lembranças e não da falta…. Tenho certeza de que essa ano teremos um bom natal.. um natal de esperança, renovação, de família e de muita alegria. O meu natal bom só podia ser ao lado do cara do gorro de papi noel 🙂
    Te Amo!

  2. Re disse:

    Nhoimm que lindos!!!
    Esse Natal pra mim também será diferente, como a Nate também sempre fiquei com a saudade…mas esse literalmente será de renovação!
    Parabéns pelo texto!
    Beijão no casal nhoim!

  3. Belão disse:

    Nati…
    eu estou muito feliz de passar meu natal ao seu lado. dividir minhas lembranças, minhas teimosias, as coisas que acredito com as coisas que você acredita. Pensamos muito sobre o mundo, confundimos lembranças e saudades… ação e reação… pois quem ama vai lém junto, na concordância ou diálogo. Conversando, vamos além e isso que temos de conversar cada ponto é o que nos faz o melhor casal. Amo vc!

  4. Renata Silva disse:

    infância é tudo de bom!!!

  5. Belão disse:

    natal que é, Renata! heheheh

  6. JuniorGros disse:

    Manter o espírito natalino vivo nas crianças é a melhor forma de mantermos vivas nossas lembranças mais preciosas.
    Parabéns.

  7. Belão disse:

    Sim! valeu, ademir… espírito é feito de lembrar e guardar fotografias.. hehe

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s