O ano nunca mais acabou em busca de sentido

Um dia vou ser como eu mesmo sou.

Não sei direito o que esta frase significa, mas acho que tem alguma coisa com a arte do autoencontro. Aliás, vivo revivendo, relendo e pensando no que o Leminski escreveu sobre o sentido e sobre ser a gente mesmo.

São passos e decisões.

O mundo lá fora nos cobra mais.

Os degraus aumentam de altura, pois nossas pernas cresceram.

Cresceram?

Mas seremos sempre meninos.

 

Por falar nisso, conservar a meninice parece ser a única coisa que faz sentido.

A vontade de sorrir por besteira, de abraçar por coisa alguma, de transformar o caminho na jornada.

A página em branco em pintura de letras.

Aliás, a página em branco é a verdadeira descoberta.

Uma amante muda que apenas resmunga ao estalar do teclado e ao explodir no peito da excitação do escritor que a ela se entrega como verdadeiro apaixonado.

Deleita-me em afagos.

 

Em busca do sentido dos dias perdidos que ainda não chegaram, mergulho em seu nublado de possibilidades na esperança da descortinada e incauta beleza que descubro em meu próprio dedilhar pela arte de transpirar do corpo de escritor em consonância com o acaso inspirador.

Meus dias de acaso.

Acaso dos meus dias.

 

E, sem surpresa alguma, paro de escrever coisa com coisa para respirar letras.

O ano nunca mais acabou em busca de sentido.

Tudo é tempo que se dissolve em torno de paradigmas partidos.

Caídos e estrebuchados sobre um chão coberto de lama, nosso antigo brilhante.

E do barro renascemos, somos novos em folha.

Não nos cabe mais o julgamento da escuridão.

E as pessoas e os passos se confundem até que haja fim,

requisito indispensável do que pretende se renovar.

E até que o processo se conclua, encavernados em nosso ensimesmamento permaneceremos.

Somos feras prestes a se apaixonar por um novo amanhecer.

E numa dessas o ano não acaba nunca mais.

Mas isso só até que a página

branca volte

a nos

inspirar.

Amém, minhas letras.

Sobre Belão

Escritor, Professor e Publicitário. Não necessariamente nessa ordem. "Ele soava como um delírio de uma mente cansada da banalidade do segunda-à-sexta. Parecia daqueles que desfilam descuidados pelas ruas, sem se deixar afetar por nada ou ninguém. Com estilo próprio por excelência de consciência e com personalidade mais do que confusa pela falta de linearidade de todas suas idéias, pensamentos, ironias, citações e crises apocalípticas de descontentamento pelo mínimo que o existir exige."
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7 respostas para O ano nunca mais acabou em busca de sentido

  1. Nati disse:

    Me perco em suas palavras e busco o sentido das coisas ao seu lado.. Me apaixono por ti a cada palavra. Estamos juntos meu amor, e o ano vai acabar sim, em breve. E logo logo teremos um novo ano, mais belo, mais leve e com algumas angústias, só pra você ter inspiração para suas palavras….

  2. lg disse:

    leminski trabalhava em alguma agência de publicidade de Curitiba, que agora não recordo o nome, e todos reclamavam que ele não ficava sentado no seu lugar para concluir o seu trabalho (a genialidade irrita os ignorantes). ele tinha que estar andando para pensar. como ele mesmo disse num poema:

    “Andar e pensar um pouco,
    que só sei pensar andando.
    Três passos, e minhas pernas
    já estão pensando.

    Aonde vão dar esses passos?
    Acima, abaixo?
    Além? Ou acaso
    se desfazem no vento
    sem deixar nenhum traço? ”

    então ele saia, dava voltas na quadra, entrava em algum bar e só então voltava para a agência com a ideia que resolveria o problema do job.

    isso irritava muita gente, como eu já disse, e pediram para ele começar a trabalhar sentado no seu lugar.

    mas, você deve estar se perguntando, o que tudo isso tem haver com o texto acima. certo dia leminski foi até o outro lado da rua da agência e grafou o muro com a seguinte frase: “sentado não faz sentido”.

    bom, não sei se fez sentido mas isso pouco importa.

    feliz natal ano novo carnaval.

    obs: é bom lembrar que os tempos mudaram e os hábitos de trabalho na criação de uma agência são outros. se isso é bom ou ruim ninguém nunca vai saber, só sei que tinha que acontecer.

  3. Denise Quintela disse:

    “São passos e decisões.

    O mundo lá fora nos cobra mais.

    Os degraus aumentam de altura, pois nossas pernas cresceram”
    Adorei
    Parabens tudo de bom no ano novo
    bjus

  4. Belão disse:

    Valeu, Denise!

    Léo, é por por aí… a mudança é algo que fazemos qdo perdemos verdadeiramente o medo de ser. Agora ser… é tarefa pra poucos.

    Nati, obrigado pela parceria sempre, minha linda. O ano se descortina com grandes expectativas.
    =)

  5. luci disse:

    Gosto de pensar que estive em sua meninice…
    Que o ano novo venha…e talvez a gente se descubra, com degraus mais longos e pernas mais curtas, pois a idade faz isso com crueldade. Mas os anos novos que nos deixam mais velhos também nos dão o dom da eternidade.
    Um beijo meu menino.

  6. Anônimo disse:

    sábias palavras, mãe! hhehe

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