Futuros Amantes

Ele decidiu acordar sem dormir, passar a mão gentilmente pelo lençol branco. Havia um perfume no ar e ele levantou para passar uma água no rosto. O pó do café acabara. Não havia sequer uma gota de chá do dia anterior. E a cafeína distante era por seu corpo demandada. Por isso, colocou a calça jeans azul surrada, marcada com ferro quente na barra roída de tanto andar arrastando com seu all star gasto. Vestiu a camiseta preta e sentiu o perfume da noite anterior, seu próprio cheiro. Levou consigo um bloco inseparável e o lápis – único jeito de escrever direito.

Na cafeteria o ambiente quente e úmido convidava a sentar no canto e de costas para a parede para poder observar o pouco movimento das seis da manhã. A moça o serviu com preguiça. Ele não tinha pressa, suas férias estavam longas demais para reclamar de alguma coisa relacionada ao tempo ou à esperar. Então, entre o bloco e o lápis, encheu o copo de café preto, pensando em quem jamais conheceu. E escolhendo as melhores palavras, decidiu escrever sobre um dia amar.

Ela passeava seu corpo pelo meu. Algo como me descobrir pela pele, pelo gosto. Eu deixava, pois gostava de fazer o mesmo. Trocávamos, de quando em quando olhares de desejo, palavras feitas da vontade que sentíamos. Havia entrega, beijos molhados, corpos que transpiravam em pertencer. O lençol por testemunha se retorcia como voyeur daquela paixão, nossa paixão por sentir.

No balanço do amor que vivíamos em carne, o suspirar ofegante e entrecortado pela fúria com a qual nos entorpecíamos de tesão. Triunfantes em nossos corpos jovens, desfrutávamos do instante como se o resto da Terra e Universos tivessem parado ao nosso redor. Amávamos assim, como se amanhã não fossemos amanhecer de cansaço.

Entregues e com olhar penetrantes próximo ao êxtase, realizávamos em silêncio nossas juras de amor. Confessávamos por gestos o tempo em que esperamos para que tivéssemos um ao outro – verdadeira confissão de irremediável desejo. De precioso, incontável tempo se passou até que nós dois caíssemos de lado, desfalecidos e satisfeitos, abraçados pelo que de mais puro pode haver na promessa de futuros amantes.

Terminou o texto com: “…trepar intensamente, o único jeito certo.”

Sobre Belão

Escritor, Professor e Publicitário. Não necessariamente nessa ordem. "Ele soava como um delírio de uma mente cansada da banalidade do segunda-à-sexta. Parecia daqueles que desfilam descuidados pelas ruas, sem se deixar afetar por nada ou ninguém. Com estilo próprio por excelência de consciência e com personalidade mais do que confusa pela falta de linearidade de todas suas idéias, pensamentos, ironias, citações e crises apocalípticas de descontentamento pelo mínimo que o existir exige."
Esse post foi publicado em ficção, intensidade, Love, paixão, Sonhos, tempo, Trepar intensamente, tudo brincadeira, viver. Bookmark o link permanente.

9 respostas para Futuros Amantes

  1. Confesso que li no duas vezes, em alguns instantes eu me vi na situação descrita, só que no meu caso pensando ao invés de escrevendo, e talvez um suco substituindo o café. Enfim, me identifiquei muito com esse texto.

  2. Belão disse:

    Valeu, Bruno…. O escritor cria mais coragem quando alguém aproveita suas letras

  3. Patrícia disse:

    Realmente agente se vê nesse amor carnal. Futuros amantes…ah…Amantes sempre tem tanto a dizer, viver. Muito bom. Vim conhecer um pouco do que escreve. Bjsss

  4. Perfeito. Cafeína é sempre inspiração para textos perfeitos e densos como esse.

  5. JuniorGros disse:

    “Ela passeava seu corpo pelo meu. Algo como me descobrir pela pele, pelo gosto.” Tato, olfato, paladar, instrumentos para dar sentido ao irracional ato de trepar.

  6. Belão disse:

    Valeu, Patricia, Ale e Ademir! Por passarem por aqui e encontrarem um pouco da intensidade em letras! Bjs pras meninas hehe

  7. Denise Quintela disse:

    parabens ficou muito bom, perfeito
    Adorei essa parte “Entregues e com olhar penetrantes próximo ao êxtase, realizávamos em silêncio nossas juras de amor”

  8. Vanessa disse:

    Eu li o texto dia 30 de dezembro, mesmo assim não resisti a comentar, mesmo com o tardar das minhas palavras. Perdoe-me novamente.

    Todo poeta que se preze anda com um bloco de papel e um lápis a tira colo. Isso porque a inspiração sempre vem rápida demais, nos momentos às vezes mais inoportunos e, se a gente não registrá-la rapidamente, a sua visita logo vai embora e não volta mais.
    Café é uma bebida muito nobre, geralmente nos é oferecido em xicrinhas na casa onde estamos apenas de passagem, no copinho tirado direto da térmica na empresa ou no baldão do coxa pela manha para podermos despertar para mais um dia. Tomar vinho com a pessoa amada é maravilhoso, mas café me parece perfeito para escrever sobre amor.

    Transar, trepar, comer ou dar, pratica sexo, fazer amor. Para tanto vai depender do ponto de vista dos autores da ação descrever em quais opções melhor se encaixam. Violento ou não.
    Contudo, se ambas as partes estiverem de acordo, podemos concluir que, ao final, o prazer e a satisfação existirá, sem se importar com as descrições citadas a cima.

  9. Cath disse:

    Que delícia :))

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