21 gramas de silêncio

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Em dias em que acordo sem música alguma na cabeça, tenho medo de me perder. E já que cada um carrega seus medos para lá e para cá, levo comigo meu silêncio. É ensurdecedor, pois ligo o som e nem presto atenção, pois tenho tanto a pensar. O foco se esvai de minha vista e me sobra um desejo de futuro sem passado. Então, acontece, meu maior medo se manifesta: já nao sei mais quem sou.
Numa primeira reação a tudo, sinto-me uma espécie de fraude, o fantasma de um homem. Porém, todos somos sombras que dançam nas paredes de cavernas, cada qual com sua textura. Logo, vem a fome, o vazio nas tripas. Parece que as paredes de meu estômago se grudam enquanto eu caio e sinto o frio cortante, pois meus pés permanecerem pregados no chão.
Sei que parece não fazer sentido. Sei que tudo não passa de mimimi de um pensamento delirante, mas mesmo assim não passa.
Corre o tempo. Mergulho em livros. Escuto minhas ideias. São diferentes das de ontem. O contentamento torna-se por um tempo desaparecido. E, em meios a ventos gelados de segunda-feira, minhas palavras encontram o papel como forma de dar vasão à minha alma.
Tiro a pedra de cima do peito, mas o silêncio permanece, afinal desagrada-me descrever tristeza ou confusão. Porém, me contentor com o vento. Com minhas letras de agora espalhadas na forma de um papel de presente rasgado que deixa de ter importância assim que revelado seu propósito.
Dizem que o instante é presente. Eu imagino. Daí em diante, só imagino. Até que uma entidade misteriosa chamada desejo feita de sentimento e devoção ao sorriso venha ter comigo uma conversa melhor. Até que o brilho de nuvens revelem o algo além da chuva ou o gosto do frio.
Por hora, sento, deito, trabalho e levanto calado como se um quase-triste. Faço enquanto, na verdade, preparo meu mundo para o espetáculo de uma nova voz, uma banda inteira por descortinar em melodia, letra e inéditos versos.
Afinal, vivemos um tempo curto de paciência e cheio de promessas, mas de nada vale viver sem um bom som.

Sobre Belão

Escritor, Professor e Publicitário. Não necessariamente nessa ordem. "Ele soava como um delírio de uma mente cansada da banalidade do segunda-à-sexta. Parecia daqueles que desfilam descuidados pelas ruas, sem se deixar afetar por nada ou ninguém. Com estilo próprio por excelência de consciência e com personalidade mais do que confusa pela falta de linearidade de todas suas idéias, pensamentos, ironias, citações e crises apocalípticas de descontentamento pelo mínimo que o existir exige."
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9 respostas para 21 gramas de silêncio

  1. Vanessa Eliane disse:

    “mas de nada vale viver sem um bom som”.

    O que é o som? Tecnicamente o som é uma vibração que passeia pelo ar e quando chega aos nossos ouvidos faz com que o tímpano se movimente na mesma freqüência e depois, para receber a interpretação adequada do cérebro, o mesmo é decodificado pelo martelo, bigorna e estribo.

    Há quem pense que o melhor som a ser ouvido é o som da respiração, do coração batendo ou de uma frase curtinha ao pé do ouvido.

    Às vezes o mundo me dá sons que eu não quero ouvir, no meu caso, ao contrario do autor, procuro ouvir as musicas para me distrair e me concentro nelas, caso eu não faça isso acho até que vou enlouquecer. Essa é a minha válvula de escape.

    Parece sempre que meu anjo da guarda esta triste perto de mim, e por muitas vezes não encontro o meu equilíbrio andando sempre na corda bamba, só mais um passo e, ufa, dessa vez não cair.

    Mesmo assim o maior sentido da vida é que ela não fazer nenhum sentido. Nós vamos evoluir e ainda sim, mesmo que fiquemos anos e anos procurando as respostas que queremos, nunca vamos encontrá-las.

  2. cleverson disse:

    A vida é um profundo vazio, que preenchemos com nossas esperanças, saudades, frustrações, sangue, suor e por que não dizer, lágrimas.

  3. Belão disse:

    Valeu, Vanessa. São caminhos que fazem sentido sempre com muito som!

    é por aí, cleverson, mas há sempre algo logo depois, logo ali.

    abraços!

  4. Ana Kretzmann disse:

    Nova paixão? Como é bom!

  5. Belão disse:

    Nada. Período sabático. hehehe

  6. Já do passado restam apenas coisas e lembranças embaralhadas. Por que a gente sente tanto medo de acabar sem ter a certeza de que se teve a felicidade?. Acumulo de pensamentos gerando anseios, é bom pra emagrecer… Abrçs,

  7. Belão disse:

    hauhauah bom pra emagrecer é uma boa. Lembranças embaralhadas é sinônimo de vida bem vivida. Bjs

  8. cleverson disse:

    Lembranças embaralhadas…Também é uma frase conhecida como pensamentos confusos ou recordações sem muito sentido. Sinto do gosto da infância permeando minha boca, e a cada novo passo, sinto o cheiro da adolescência vagando em minhas narinas, o toque da vida adulta em cada frase que escrevo. Porém, não posso assegurar o que esperar futuro. A escuridão do final da vida é algo certo, mas e o próximo minuto? Será certo também? Divago em pensamentos que são tão íntimos que muitas vezes tenho medo de dividir comigo mesmo…
    21 Gramas você diz…Pois bem, muitos poderão pensar em drogas, ou algo muito fantasioso, sei lá, Eu penso em gramatura, e na dificuldade que encontramos em preencher essa gramatura com o grande vazio de nossas vidas diárias.
    Á algo fantástico em cada um de nós, porém estamos em estado de “sítio”, cercados de “tiradores de foco”, como nossa mídia, tão conhecida. A manipulação que sofremos não é momentânea. estamos sendo atacados desde que nascemos, é só observar. Quando falo em “o grande vazio de nossas vidas”, não me refiro somente a mim, mas sim a uma sociedade que está cega, doente e precisando de ajuda.
    Quem são os grandes ídolos desse emaranhado de gente chamado Brasil? Como eles nascem? De onde tiramos que o “Sertanojo universitario” é bom pra “curtir”…Por aí vemos o quanto somos manipulados…Forte abraço…

  9. Belão disse:

    Boa, Cleverson! É complexo existir e 21 gramas é o peso da alma, o quanto pesa permanecer em silêncio enquanto tudo isso se passa. Abração! Apareça sempre.

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