A ética de um menino

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por um Felipe Belão que filosofa esporadicamente…

Antes mesmo do mundo ser mundo, eu-menino não sabia bem viver o dia de hoje. O dia me parecia efêmero demais para merecer minha atenção. Num zum-zum e num tic-tac passava e deixava para trás minhas fotografias, meus momentos mais preciosos. “Realmente os notei acontecer?” Só tinha certeza que tudo se desfazia nesse tal tempo, sem pedir licença ou desculpa. Sem autorização, pausa ou meta. Só acontecia. Então, como menino que sempre fui, concentrava minha atenção nas preocupações e no futuro – distante ou não – que me aguardava. Ele sempre me sorriu mais tangível que o agora. Assim, construí castelos, lutei contra meus próprios moinhos de ventos e assisti à vida me trazer conquistas, derrotas e coisas que qualquer ser andante recebe. Alicercei meus valores no efeito de cada ação, enquanto tomava banho de manhã e meu pensamento estava no final da tarde. Terminava de almoçar, pensando no jantar. Conversava com os outros sem prestar muita atenção. Andava distraído, distante e escrevia “zum-zum” e “tic-tac” nas bordas dos livros que lia pelas beiradas.
A vida adulta me caiu na ponta do dedinho do pé feito uma bigorna. Segurou-me e chacoalhou-me feito um infeliz. Cobrou meu olhar para o agora, cobrou minha atenção para o já. Mais uma preocupação apenas para minha vida de perscrutar desafios à frente. Então, demorei me ajustar. Andava desconcertado feito um pária para um lado e para o outro do tal do agora. A ciência da causa-efeito e da matemática das coisas passou a dar lugar para meu questionamento confuso. Nessa etapa, decidi que era importante ter opinião agora, já, nesse instante. E desse jeito defini meu agora penoso e triste. Você me fala “zá” e eu te digo o que penso sobre isso “zum-zum-tic-agora-tac”. Não havia argumentos mais fortes que os meus. Eu era minha opinião, um tipo de entidade/divindade estranha aos olhos da multidão.
Vieram os tapas na cara, as bofetadas do destino e percebi que o presente acelerou e virou uma linha de pontos concêntricos. Não sei bem explicar essa parte, mas ficou meio que musicado, tipo um rock clássico que acelera e vira metal. Sorte entrou na rotina dos dias. Frases encurtaram. Verbos rarearam. Só. Hoje. Agora. Uma loucura, pois a fórmula e os valores anteriores não me serviam mais. A ética de minha infância se desfez em passado. Em se tratando de meus atos, eu esperava ver no que dava. E, de uma hora para outra, mais bofetadas, mais tapas na cara. Decepções e desapontamentos. Afinal, da sorte muito se espera e pouco se recebe em troca.
Só nessa época de meu fantástico mundo é que entendi o tal do momento presente. Aprendi a repetir uma frase tantas vezes até que ela perdesse o sentido e eu a ressignificasse com minhas ações perante os outros: a estética do carpe diem. Como se vivesse um poema do Walt Whitman, tornei-me meu próprio capitão e os sinos soaram. Errei ainda mais, mas errei com amor e paixão. Vivi o hoje como nunca antes. Havia vontade em tudo, paixão pelo segundo e pouco tempo para o tal do futuro, afinal eu havia vivido e planejado para chegar àquele presente, àquele momento. O instante era vivido como uma dádiva. Eu aprendi que o que eu entregava, de uma forma ou outra recebia na mesma medida com outras formas. Tipo espalhar farinha ao ar e ganhar de presente um pão quentinho de quem eu ainda entregava um abraço logo em seguida. Foi o melhor dos tempos. Eu sabia quem eu era.
No entanto, como diria Molière, “Morremos uma só vez, mas é por tanto tempo!”. E, ao entender isso, por mais irônico que pareça, renasci perdido com a perfeita noção de minha mortalidade. Sem o carpe diem na mochila, sem o olhar do futuro, sem o brilho da paixão. Ao contrário de tudo, minhas opiniões me apertavam os calos do pé. Minhas certezas se desfizeram em pó. O casulo confortável me empurrava com um cutucão no rim para fora: “Vá! Voa, meu caro!” Mas para que lugar, em qual sentido? Aonde se meteu a minha intensidade?
Eram tantas perguntas que parei para olhar o passado. O que seria a tal da consciência de existir que ouvi em uma palestra de abertura no primeiro dia de faculdade? Na ocasião um professor-filósofo disse: “A diferença entre a gente e o Sol é que nós temos consciência que existimos.”
Eu me lembro de que meu lado ávido por saber de calouro precipitado decidiu, num rompante de sabedoria, guardar essa frase para depois, mais velho. Ainda assim, com essas palavras percebi que começava a me encontrar intelectualmente no ambiente universitário. E, anos passados, eu perdido em novas dúvidas, o momento finalmente chegara. Recuperei a frase em lembranças. Notei, então, que a noção completa da mortalidade era o que conferia valor à vida. E que a vida era feita do hoje, mas jamais em detrimento do amanhã ou do olhar rumo ao futuro.
O único elemento duradouro é o bem que se pratica. Dalai Lama afirmou que podemos sempre mudar nossas atitudes e praticar o bem, esta é uma capacidade da mente humana. E como somos dotados desse tal o telencéfalo altamente desenvolvido e o polegar opositor retratado na Ilha das Flores, somos todos capazes. E, pela antítese de que é feita o próprio Deus de qualquer tribo, só errando e pisando na bola feio mesmo é que entendemos o bem e, finalmente, chegamos perto de praticá-lo.
É meio que um jogo de memória. Você erra. Quanto mais arrisca, maior é o erro. Quanto mais longe chega nesse “dark side” melhor entende o que é correto e certo para as próximas vezes. É tipo usar a força para proteger a galáxia. Veja bem, para tudo isso é preciso se arrepender. Jamais se arrepender de errar, mas entender em que instante se cometeu o erro e fazer diferente da próxima vez. O bem duradouro vem dessas rugas, cicatrizes e experiências compreendidas, assimiladas e entregues em novos gestos para um mundo melhor.
Sem lamentar o passado e usando tudo que é aprendido como um trampolim para o futuro, o homem anda nessa estrada. O processo é solitário. É tipo o caminho para super-homem Nietzscheniano. Quem sabe até seja o sentido das coisas. E, como proclamou o Paulo Leminski, o sentido é a entidade mais misteriosa do universo… e, assim como o poeta, me recuso a viver num mundo sem sentido.
No entanto, nessa dinâmica das coisas entra outro fator responsável pela ereção das bolsas: o dinheiro. É o tipo do troço esquisito esse tal. Ele foi criado pelo homem para facilitar o peso das posses, do trabalho (verdadeira fonte de riqueza segundo Jesus e Adam Smith, com finalidades completamente distintas) e das coisas. É isso mesmo: foi criado para você não precisar carregar tudo que tem de um lado pro outro. Foi inventado pra facilitar tudo até que um dia o tamanho do homem passou a ser medido pelo peso de sua burra. Estúpida realidade que persevera.
Por isso mesmo, minha meta em longo prazo é esquecer que o cifrão existe. É dedicar tempo e ouvido aos que merecem pelo bem que praticam ou que podem praticar. Não é o dinheiro que mede o valor de meu presente para o mundo. Portanto, a moeda jamais construirá meu futuro de mim mesmo. Minha solidariedade não é monetária. Minha palavra distribuída ao vento no formato de aulas chega para quem se considera humilde suficiente para recebê-la. Afinal de contas, o tal do Blaise Pascal estava certo: “Ninguém é tão sábio que não tenha algo pra aprender e nem tão tolo que não tenha algo pra ensinar.” Por isso e ainda mais, aprender é um ato de humildade que independe da conta bancária.
Só que o mundo em sua rotina de horas contadas, cartão ponto, etiquetas de preço e de cifrões faz as pessoas se esquecerem de ser gente. Tudo virou negócio. Negócio virou sinônimo de lucro. Administrar se tornou prerrogativa para regras impositivas, inflexíveis e padrões pautados em números. O diferente é excluído do processo. O não-convencional não pode ser meio para o fim almejado. E, como afirmou Marx, não é mais a consciência que determina a vida e sim a vida que determina a consciência. Pensar é proibido na maior parte do dia que passa e o presente se esvai sem futuro.
No Brasil, predomina a Lei de Gerson. Na Europa e EUA, a Lei da Inércia. Aqui te passam pra trás. Lá não te atrapalham, mas também não te ajudam. E a natureza vira vinagre. A solidariedade é motivo de medalha. O cadeado prende para fora e para dentro. Ninguém soma. Todos se dividem. E a tecnologia inventa pseudo-revolucionários. “Eu curti no facebook, mudei o mundo.” É como na música do Oasis: “So I start a revolution from my bed.” Meu filho, isso não é mudança, muito menos atitude.
É o tempo da vida feita do perfil das aparências soltas. Pra fazer e realizar de verdade é preciso superar essa apatia. É necessário unir o real e o virtual em atitude. Enfrentar primeiro a guerra da mudança do pensamento e do questionamento de si mesmo. É preciso questionar sua própria ética, assim como o mundo fez em sua evolução histórica. É preciso buscar ir além e fazer um pouco mais. Toda paz pode ser conquistada num mundo que a tecnologia liga as pessoas com o objetivo do bem. E, como previu McLuhan, só então se concretizará a Aldeia Global.
Dessa forma, para manter a lealdade e os compromissos é preciso começar no agora, sem perder de perspectiva o que se construiu com o passado e o que se almeja para o futuro. É unir a teoria de nossos erros com a prática de nossos gestos. É como escreveu Paulo Freire: “A teoria sem a prática é um atavismo cego, e a prática sem a teoria é um verbalismo inoperante.” Só assim é possível coordenar nossos esforços, nossos recursos e nossas equipes. Num olhar de constante amor e aprendizado. Numa paixão louca por pensar e refletir os gestos. Não acreditando apenas nos prazos e metas, mas sim no mais humano que existe em cada um de nós.
É o amplo entendimento e a plena aplicação do poema do T. S. Elliot: “Não devemos jamais interromper nossa exploração, pois o final dela será chegar ao lugar em que começamos e conhecê-lo pela primeira vez.” Esse é a verdadeira proposta da vida: um constante reviver no amor e renascer em nossas próprias limitações e erros, cientes de nossa brevidade social e da beleza que floresce da capacidade de nos apaixonarmos.

Sobre Belão

Escritor, Professor e Publicitário. Não necessariamente nessa ordem. "Ele soava como um delírio de uma mente cansada da banalidade do segunda-à-sexta. Parecia daqueles que desfilam descuidados pelas ruas, sem se deixar afetar por nada ou ninguém. Com estilo próprio por excelência de consciência e com personalidade mais do que confusa pela falta de linearidade de todas suas idéias, pensamentos, ironias, citações e crises apocalípticas de descontentamento pelo mínimo que o existir exige."
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12 respostas para A ética de um menino

  1. Rava disse:

    Eu sei da onde veio a linha acerca da lei de gerson e da lei da inercia!

    Ra Ra Rava,
    ps.: eu nao tenho tempo de escrever, tou aqui fazendo

  2. Belão disse:

    Hahahaha verdade, mas veja que seu papo e uma aula de ética me inspiraram a escrever. Meu jeito de começar a fazer é escrevendo… Saudade, cumpadi!

  3. Belão disse:

    Perguntaram-me anonimamente se cometeria novamente todos os meus piores erros. Resposta: sim, não deixaria pra trás nada que aprendi.

  4. Anônimo disse:

    “voce cometeria todos os seus piores erros?” depende… como vou me lembrar de todos? alguem anotou?

    ra ra rava

  5. Belão disse:

    Hahahaha tem sempre alguém anotando…

  6. anonymous disse:

    é, uma bela de uma resposta para a minha pergunta, eu diria.

  7. ” Só os que arriscam a ir longe demais são capazes de descobrir o quão longe se pode ir”. T.S.Eliot sabia o que tava falando! É caindo que a gente sabe quão longe tá o chão né? 🙂

  8. Belão disse:

    Obrigado, Anonymous! Gabriella, é por aí mesmo. todo poeta tem um pouco de filósofo e vice-versa quem sabe… mas ir longe é tentar longe… cair do alto.. certamente…

  9. Polli Silva disse:

    Bom mesmo é quando alguém consegue expressar em palavras aquilo que muitas pessoas sentem caladas 🙂 Valeu Belão, essa “aula escrita” merece um like nas alturas! haha

  10. Belão disse:

    Valeu, Polli! Sensacional ler comentários como estes =)

  11. Belão disse:

    valeu, Polli! excelente saber disso =)

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