Não entendo amor que odeia

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Desde menino pequeno, escuto comentários de uma tal linha tênue entre sentimentos. Nunca encontrei sentido em tal afirmação sobre o amor e o ódio. Porém, devo confessar, as linhas da vida sempre me apareceram de forma torta e desordenada. Outro dia só, depois de quase velho, fui entender o jeito de meu avô deixar passar certas coisas. Como dói permanecer calado. Aprendi também a ouvir meus pais depois do tempo em que a voz da consciência me levou ao vento. Agora esse tal de odiar-amando faz menos sentido que segunda-feira.

Cansam-me certos pesos da vida: os quilos das amizades desfeitas, as mágoas de amores partidos, ressentimentos cultivados em hortas e os sorrisos guardados em solidão.

Chega a doer minhas pálpebras de tanto pensar nas razões de transformar em pior, como um alquimista do mundo bizarro (com cara quadrada e tudo mais), algo verdadeiro. E o pior é que vejo se repetir pelos cantos desse mundo de bloqueios criativos em todo santo janeiro e fevereiro.

Nas escadas de prédios de vizinhos carrancudos, nos churrascos em que a mais santa das felicidades foi abandonada, nas mágoas dos amantes de imaginação, nas palmas guardadas por inveja, nos dentes amarelos dos simpáticos à hipocrisia, nos joelhos dos que cansam cedo ou tarde demais.

Ninguém vai me convencer de odiar quem já recebeu meu amor. Até porque acho que todo eu-te-amo ecoa na eternidade das lembranças que nos fazem ser o eu-de-hoje.

Amor de família, de amigo, de parceria, de primo, de irmão, de filho, de cúmplice, de confidente, de confiante, de angustiado, de apaixonado. Amor de todos os gostos são liberdade de quem pra sempre percebe seu doce perfume, feito de tempo e sorriso que me escapa. Feito do canto da boca para o resto do mundo.

Ai de quem guarda, recolhe tamanha saudade. Ai de quem perde o amor para o ódio. Ai do mundo que lança o amor à sorte e o ódio à rotina.

Sobra-me a esperança de que jamais nos falte o discernimento, a mim e ao vento, para que nossas entranhas apenas se agitem ao sabor de um novo amor.

Sobre Belão

Escritor, Professor e Publicitário. Não necessariamente nessa ordem. "Ele soava como um delírio de uma mente cansada da banalidade do segunda-à-sexta. Parecia daqueles que desfilam descuidados pelas ruas, sem se deixar afetar por nada ou ninguém. Com estilo próprio por excelência de consciência e com personalidade mais do que confusa pela falta de linearidade de todas suas idéias, pensamentos, ironias, citações e crises apocalípticas de descontentamento pelo mínimo que o existir exige."
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10 respostas para Não entendo amor que odeia

  1. JuniorGros disse:

    Para mim, são sentimentos distintos. Também não consigo odiar quem já amei um dia. Confiança é uma folha que uma vez amassada, não mais voltará ao que era. Mas ainda pode receber palavras, sentimentos.
    Parabéns, mestre.

  2. Belão disse:

    Falo mais do que só amores de amantes, falo mais ainda de amigos, Ademir! Concordo com vc!

  3. Gisele Lopes disse:

    Fe, adoro como você descreve as coisas complicadas com tamanha simplicidade. Cada palavra faz todo sentido, e transforma o mundo bem mais confuso, já que a maioria das pessoas não pensam assim e não faz sentido ser tão pequeno e tão medroso.
    Recentemente ando emaranhada em meus pensamentos, com um grande bloqueio devido tanta confusão. Espero sair dele assim como você, encontrando tanta verdade interior.
    Parabéns, adorei.

  4. Belão disse:

    Valeu, Gi! Comentário lindo demais. Sempre bom poder contar com a sensibilidade de pessoas como você. É a verdadeira inspiração pra quem escreve…

  5. Claudia disse:

    Entendo o amor que odeia, mas só aquele momentâneo – que odeia perceber uma ação auto-destrutiva (sou-velha-mesmo-escrevo-tudo-com-hífen, e digito sagüi) ou um sorriso para outros lábios.
    A longo prazo tenho a habilidade de lembrar muito mais dos bons momentos. Fato para nostálgicas mesas de bar.
    Então também não entendo as pessoas amam-odeiam. O compromisso é tanto que pra mim é inimaginável voltar atrás.

    Você sempre me fazendo pensar, e de um jeito ou de outro, lembrar de tempos onde as coisas eram, ou pelo menos pareciam, mais fáceis. Texto sensacional, como sempre!
    Saudades Fe. Beijos

  6. Belão disse:

    Saudade também, Cláudia! Vc sempre com comentários geniais. Os tempos mudam e os textos continuam novos por aqui 🙂 beijos com carinho

  7. quanto tempo que eu não passava aqui, sempre coisa bonita, sempre coisa que ecoa na eternidade. xD

  8. Belão disse:

    Valeu, Camila! Amém pra ecoar!

  9. Simplicidade da forma de tratar o amor e ódio. Pra mim, sentimentos distintos.

  10. Belão disse:

    obrigado! fico feliz que gostou =)

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