Do coração de um país esquecido

Ou Do coração das amizades improváveis

gabriel_macht1

Hey Kelvin, Oh Giselda!

Feridas abertas na ponta da mesa. Tem dias que ela acorda carregando todas as dores do mundo. Assim mesmo, no gerúndio, hiperbólica, tê-pê-êmica e com seus sonhos de viajar por um, e ser der sorte, quem sabe até os dois de seus mundos. Afinal, a realidade é o que ele, a mesma pessoa que ela, faz de seu dia, de seu compromisso com o quê mesmo?

Ele que é ela, é um e são dois. Emagrecem, fazem quaresma, viram vegetarianos, debatem política, escutam a energia dos povos. Aqueles que se comprometem como ninguém com o que decidem. Criam e pronto: vira regra, lei tabu e cobrança automática. Um código inquestionável, incompreensível, até mesmo para um terceiro: o outro ele que não é nenhum dos dois primeiros.

A amizade é assim. Sem definição pronta, sem começo nem fim.

Dão oi sem ir embora, chegam sem notar que não estavam ali.

Abraçam forte por qualquer coisa.

Tanto é assim que Hulk fica emotivo, pé vermelho vira latino americano. O tempo e espaço giram com ou sem continuum. E é de se admirar, tipo a Dona Chica com o gato, que o primeiro ou segundo dos eles – agora não sei mais diferenciá-los – aprendeu até a deixar a emoção de ser tão inventivo tomar conta. Ela é pura flor da pele e o terceiro faz um tanto de tudo para poder olhar aliviado para o nada.

No começo é assim difícil de entender, de aceitar, de deixar ser, passar e levar. O mundo nos encontra de calças curtas e nos rende quando ainda não estamos prontos: infantes de choro fácil. E nós todos somos os três, acordando de mau humor, respirando o ar do parque e dando oi para as velhinhas que passam, correndo para fugir de pensamentos, vendo os vinte-e-sete passar e ninguém morrer.

O tempo nos deixa pra trás acenando como quem já sabe.

Todos passamos por aqui, a vida é curta demais para deixar passar o movimento que carregamos no ombro, nossa vontade de viver de olhos abertos.

Afinal de contas, meus amigos, decidimos permanecer sem dormir. Só assim estaremos prontos na hora em que a vida vier nos perguntar: “Quem deixa o sangue ferver e transbordar de amor? Quem aqui questiona essa ordem que nos foi imposta? Quem está disposto a criar um mundo novo, uma nova lei, um universo paralelo, um castelo de nadas tão significativos? Quem aqui tem forças para carregar seus próprios erros e o de mais alguém? Quem aqui se rende ao silencioso interlocutor que conduz o escritor a inspirar e amar para a vida dele e dos outros? Há tanto, vocês vêem?”

A resposta está nesse repetido movimento. E o movimento está aqui ó: na omoplata que se desloca de acordo com o sinal, desejo que é nosso gesto. Este mexer de pedaço de carne, parte do osso que nasce da alma. Uma vez realizado… é ousadia que entregamos ao mundo. Aqui, no Canadá, na Irlanda, no Alto da Glória, no Bronx ou na Vila Fanny. Pra puta que pariu com o julgamento! Pare, escreva, subverta, seja três ao mesmo tempo. Feliz quem ama sem entender.

Sobre Belão

Escritor, Professor e Publicitário. Não necessariamente nessa ordem. "Ele soava como um delírio de uma mente cansada da banalidade do segunda-à-sexta. Parecia daqueles que desfilam descuidados pelas ruas, sem se deixar afetar por nada ou ninguém. Com estilo próprio por excelência de consciência e com personalidade mais do que confusa pela falta de linearidade de todas suas idéias, pensamentos, ironias, citações e crises apocalípticas de descontentamento pelo mínimo que o existir exige."
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4 respostas para Do coração de um país esquecido

  1. JuniorGros disse:

    Sejamos quantos forem necessários para não deixar o bonde da vida partir vazio.
    Ótimo texto, mestre.

  2. Belão disse:

    Exato, Dimir! Vamos que vamos intensos em amizades 🙂

  3. Matuda disse:

    Entreguemos então toda a ousadia que houver e mais um pouco então, passemos ao mundo, sem medo, sem vergonha, mesmo sem entender.
    Grande mestre, amigo pra hoje, sempre e ontem.
    Aquele abraço pelo simples prazer de abraçar!

  4. Belão disse:

    Valeu, Sérgio, meu amigo! Sempre bom receber esse carinho. Saiba que é recíproco =)

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