O apanhador de sonhos

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Quarta-feira, semi-durmo.

Hoje esbarrei em alguém, mas continuei andando sozinho. Eu pisei num tecido branco em meio a um rodeio de pessoas do passado. Uma festa em dimensão etérea, uma lembrança. Sabe quando você revê lembranças e se perde em olhares que já te pertenceram? Definitivamente não consigo explicar quando durmo, pois me parece tão pouco ou quase nada. E sinto que deixo sempre pra trás algum sentimento de mim mesmo. Algum quê de se encontrar entendido.  Os fatos se perdem em uma absoluta solidão. Tudo porque não sei contar sonhos, apenas colecioná-los.

Por que você não me alcançou? É a pergunta sem destinatário que encontra apenas o eco de minha voz em resposta. Mais um sonho e o cachorro do vizinho late. Desperto assustado e num quarto que não é o meu. Me assusto e volto a despertar, desta vez em uma sala branca, uma imagem do amor dentro de mim mesmo. A luz cega meus olhos e saio de um sonho apenas para cair em outro. Tudo porque não sei contar sonhos, apenas expô-los em vitrines.

Quarta-feira, o dia me promete.

E a quarta começa com a literatura me convidando para dançar. Desperta com a sala de aula cheia me esperando. Há sorrisos, apreços, encontros de ideias e os desencontros tão importantes para o professor seguir se questionando.  Saio da sala. Há o trânsito, o asfalto que nunca presto atenção. As faixas paralelas que nunca se encontrarão. Tem trabalho , mensagens boas de carinho, e-mails de cobranças tortas e vai seguindo com as dessincronicidades dos equívocos alheios. Se desdobra com sinceridade, sempre ela. Tudo porque não sei contar sonhos, apenas transformá-los em meus gestos.

Chega a tarde, a noite e há mistério. O desejo de que possa existir mais para hoje. A vontade de voltar no sonho da madrugada e esbarrar em alguém. O desejo de não andar mais sozinho. A força para realizar a minha parte e a sua e a de mais alguém para o mundo. Fazer acontecer. Meu mundo, seu mundo, nosso mundo. Somos tão imperfeitos perante o espelho nu de nossa sala vazia. A vida nos pede tanto mais, um bocado mais de amor. Ofereço sem olhar a mão da troca. Então, encontro a força que sobrevive no fundo da caixa de pandora de minha semana. Transformo no melhor dia, melhor da semana. Imagino e respiro fundo com a certeza de uma breve conquista, graça do reconhecimento. Afinal contas, tudo que me faltar em otimismo eu compensarei em fé forte, reza brava e gratidão declarada. Tudo porque não sei contar sonhos, apenas colocá-los em prática.

Quarta-feira, a noite me encerra.

Dos degraus, vejo a porta fechada, a luz apagada. A varanda jaz silenciosa. Eu atravesso a porta, a ponte para o outro lado. Pendente da parede me olha. Deixo quem sabe meu sorriso menos triste e minha alma mais leve. Pego o livro na mesma mesa em que deixei parado e gelado. Folheio sem pressa – percebo que é a primeira coisa que faço sem pressa o dia todo. Leio e encontro a preciosidade de alguém que pensa como eu. No encontro de nossas folhas, eu desatino a imaginar mais futuro. Nós dois e o mundo gigante aberto. Conquistado, nosso mundo sorri. Tudo porque não sei contar sonhos, apenas sonhar ainda mais.

Sobre Belão

Escritor, Professor e Publicitário. Não necessariamente nessa ordem. "Ele soava como um delírio de uma mente cansada da banalidade do segunda-à-sexta. Parecia daqueles que desfilam descuidados pelas ruas, sem se deixar afetar por nada ou ninguém. Com estilo próprio por excelência de consciência e com personalidade mais do que confusa pela falta de linearidade de todas suas idéias, pensamentos, ironias, citações e crises apocalípticas de descontentamento pelo mínimo que o existir exige."
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13 respostas para O apanhador de sonhos

  1. isa disse:

    me perco dentro de suas palavras e sonhos

  2. Belão disse:

    valeu, Isa. eu também me perco hehehehe mas logo me encontro =)

  3. Junior Gros disse:

    O bom sonho é aquele que pulsa, inspira, transpira, que para existir não necessita de noite, sono ou cama.

  4. Belão disse:

    exato, Dimir! os escritores se entendem nisso =)

  5. Laís Iubel disse:

    Adoro seus textos primo, não sei se é o destino mas estamos sempre em sintonia de sentimentos e situações! Obrigada por esse momento gostoso nesse dia tão corrido!

  6. Belão disse:

    eu que agradeço, Prima! que comentário mais lindo. tão bom receber retornos como estes =) semana que vem tem mais …

  7. Belão disse:

    Thanks for everyone from Poland that have visited and read my text today =) I don’t know you, but I like you already

  8. Ariana disse:

    Você é um daydreamer convicto, mestre. E nos encanta com seus sonhos escritos. 🙂

  9. Belão disse:

    Muito agradecido, Ariana. Sempre daydreamer =)

  10. Lara Bona disse:

    Sonhos adormecidos… Sonhos despertados…
    Alguns vividos, alguns perdidos, outros transformados. Muitos incansavelmente sendo buscados…
    Mas de alguma forma vivenciados…
    Apanhá-los, colecioná-los, expô-los, transformá-los, praticá-los e principalmente continuar a sonhá-los… Sempre em movimento!
    E o melhor de tudo… (aqui faço uso de suas palavras) Ler e encontrar “a preciosidade de alguém que pensa como eu.”

    E não me canso de dizer… Mais uma vez encantada! (vais enjoar de ler essa palavra!)

  11. Belão disse:

    Jamais enjoarei, Lara!
    Seus comentários sempre muito bons! fico muito feliz com sua participação aqui sempre. O escritor é feito de textos lidos e usados =)

  12. Lara Bona disse:

    😉 Obrigada Felipe!
    Seus textos é que inspiram…

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