De mãos dadas somos todos daltônicos

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Quando eu era criança acreditava que todo mundo tinha a mesma cor preferida. O que mudava de sujeito para sujeito era só a percepção. Assim, pro meu eu-menino, se você gostava de vermelho e eu de verde, no fundo curtíamos a mesma cor que cada um encontrava em tons diferentes. Eis um mistério da vida: vai que somos todos daltônicos…

Lembro de passar horas com essa história na cabeça. Sempre fui uma criança estranha. Cresci e não mudou quase nada. Outro dia encasquetei de pensar sobre os gestos simples da vida. Imagina o privilégio que é dividir algo que se sente na mesma intensidade com outra pessoa e, ainda por cima, ter consciência disso. Tem gente que logo vai pensar em amor, paixão ou tesão. Mas não! Estou pensando em algo muito mais simples e singelo, talvez um começo para outras descobertas.

Sabe aquele encontro de olhares que surge do nada? Ou melhor, aquele momento em que só encostamos em alguém. Pele com pele. Nada erótico, pelo contrário: meio por acaso, um pequeno gesto encantador.

Logo que acontece isso – ainda mais quando não conhecemos a outra pessoa – rola um sustinho no estilo “opa”. É só o nosso corpo e nossos sentidos dizendo pra prestar atenção que vale a pena. E, numa fração de milésimo de segundos, decidimos reparar. Eis que o mundo ao redor para de existir um pouquinho. Você curte na medida do outro. Sente o que o outro sente. E, se for esperto o suficiente, não espera mais nada em troca. Quem sabe só andar de mãos dadas.

Pronto! Está feito! Voltei a enxergar a mesma cor que você.

Sobre Belão

Escritor, Professor e Publicitário. Não necessariamente nessa ordem. "Ele soava como um delírio de uma mente cansada da banalidade do segunda-à-sexta. Parecia daqueles que desfilam descuidados pelas ruas, sem se deixar afetar por nada ou ninguém. Com estilo próprio por excelência de consciência e com personalidade mais do que confusa pela falta de linearidade de todas suas idéias, pensamentos, ironias, citações e crises apocalípticas de descontentamento pelo mínimo que o existir exige."
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14 respostas para De mãos dadas somos todos daltônicos

  1. se olharmos par o outro sem julgamentos, era isso que acontecia

  2. Belão disse:

    verdade, Denise =)

  3. hahah, que fofo!
    O melhor é que aprendemos uns com os outros, isso é muito especial!Tem certos tons de cores que o outro enxerga e nós ñ enxergamos…ehheheh…daí passamos a gostar delas. Mas, isso hoje….hahahh
    Gostei que só!

  4. Belão disse:

    opa opa que bom que gostou =)

  5. Que perfeito esse texto, foi exatamente como conheci minha ex-namorada, uma das maiores paixões que tive na vida! Estávamos no ônibus, ela encostou o braço no meu, e no mesmo instante parece que o mundo parou e eu senti ela perto. Ao ver que me tocou ela pediu desculpas e eu a desculpei e começamos a conversar… Parece que lendo o texto vivi um dejavu, sabe, como se essas fossem as palavras perfeitas que eu usaria pra descrever aquele momento!

  6. Luly Miranda disse:

    Gostoso é quando a gente aprende a reconhecer que isso acontece várias vezes na vida, no ano, no dia.

  7. Isa disse:

    Como é bom te ler!

  8. Belão disse:

    muito legal esse comentário, Mateus. Identificar nossas histórias é algo muito legal =)

  9. Belão disse:

    Luly! exato! às vezes uma conversa, um papo, um encostar na mão. lindo e mágico. reconhecer é necessário.

  10. Belão disse:

    Isa! como é bom te ver =)

    (por aqui ou ver o que você vê)

  11. Andrey Souza disse:

    Esbarrar de propósito (nada erótico) vale nesse contexto?? haha Ótimo o texto!

  12. Belão disse:

    vale também, Andrey! hehehe

  13. Boa noite!

    O seu texto é realmente singelo e tocante. Dá aquela alfinetadinha básica na nossa inércia, talvez faça soar um alarme… uma epifania óbvia. Enfim, a afirmação e confirmação de que “Essa sensação é realmente boa!”.

    Eu fiquei um pouco retraída para fazer um paralelo (ou dois, sendo abusada), afinal nem todo escritor curte. Mas, fiquei com isso na cabeça e decidi fazer mesmo assim, caso contrário ficaria pensando, pensando, pensando.

    Bom, o contexto me fez lembrar de um trecho de Água Viva, do qual gosto muito e transcrevo abaixo: “… eu o vi de repente e era um homem tão extraordinariamente bonito e viril que eu senti uma alegria de criação. Não é que eu o quisesse para mim assim como não quero para mim o menino que vi com cabelos de arcanjo correndo atrás da bola. Eu queria somente olhar”.

    E é isso. Tem pessoas que nos tira o fôlego: uma criança que lhe oferece uma gargalhada inesperada num parque, uma senhora de cabelos brancos com aquele olhar cúmplice numa livraria. Cenas que marcam, rostos que ficam guardados por muito tempo. Almas que se cumprimentam.

    E o segundo paralelo… bom, é ouvir Cláudio Lins ou Maria Rita cantando “Eu vi quando você me viu / Seus olhos pousaram nos meus / Num arrepio sutil”

    Leveza!

    Obrigada!

  14. Belão disse:

    Nathalie! me arrepiei com seu comentário! comentário rico e lindo =)
    era bem isso que senti ao escrever e sinto e presto atenção ao viver!
    Venha sempre aqui e traga essa visão de arte e mundo linda pro meu blog. Tá convidada =)

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