Noturno à Janela de Drummond

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Quando o mundo fecha suas cortinas em nossas cabeças, temos que escolher rápido em que lado do palco ficar. Que tipo de vida vamos levar, que espécie de ordem das coisas, de regras para a sociedade vamos acatar, aceitar, decidir e optar por. Somos o indelével reflexo destas escolhas. Até porque de nossa história, do texto de nossas vidas só sobra nosso gesto enquanto ainda há tempo.

Durante minhas horas de insônia, em minha peregrinação pela noite, nas pedaladas de minha bicicleta ou nos passos de minhas caminhadas se escondem perguntas. Perguntas que me assombram e que se somam aos perigos de viver intensamente.

Se o caminho menos escolhido faz tanta diferença, por que sentimos tanto a dor da solidão? Por que é tão difícil a decisão de compartilhar a vida com alguém? Por que me encontro noturno à janela do apartamento, como Drummond, sem saber se é noite, mar ou distância? Por que o sentimento do mundo faz pesar tanto a insustentável leveza de ser cidadão livre de um mundo caduco e preso pelo julgamento?

Terá meu herói orgulho de mim?

Minha cidade parece mesmo uma Ilha Rasa e sem poder. Meu país padece de males maiores ainda. Os manifestantes de nossas ruas têm força nula. As manchetes nos atordoam a razão e escondemos a emoção na tentativa de ser o “profissional” que a firma espera que sejamos. Defenestramos nossa essência e o propósito de viver quando não abrimos completamente os olhos.

Por isso, fique atento! Mesmo com tantas perguntas. Mesmo que o sentimento de mundo não se dissipe. Mesmo que eu tenha que permanecer noturno à janela de meu apartamento, escolho por mim mesmo como usar meus dias, meu corpo, meu pensamento, minhas tripas e minhas sensações. Afinal, escolho com pouco cuidado minhas palavras.

Sobre Belão

Escritor, Professor e Publicitário. Não necessariamente nessa ordem. "Ele soava como um delírio de uma mente cansada da banalidade do segunda-à-sexta. Parecia daqueles que desfilam descuidados pelas ruas, sem se deixar afetar por nada ou ninguém. Com estilo próprio por excelência de consciência e com personalidade mais do que confusa pela falta de linearidade de todas suas idéias, pensamentos, ironias, citações e crises apocalípticas de descontentamento pelo mínimo que o existir exige."
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12 respostas para Noturno à Janela de Drummond

  1. Mayara Godoy disse:

    Sempre preciso nas palavras. Parabéns, Belão.

  2. Isa disse:

    “…sua solidão pesa mais do que nunca. Mas se perceber então que ela é grande, alegre-se com isso; pois o que (pergunte a si mesmo) seria uma solidão sem grandeza? Existe apenas uma solidão, e ela é grande, nada fácil de suportar. Acabam chegando as horas em que quase todos gostariam de trocá-la por uma união qualquer, por mais banal e sem valor que seja, trocá-la pela aparência de uma mínima concordância com o próximo, mesmo que com a pessoa mais indigna… No entanto, talvez sejam justamente essas as horas em que a solidão cresce, pois o seu crescimento é doloroso como o crescimento de um menino e triste como o início da primavera. Mas isso não deve confundi-lo. O que é necessário é apenas o seguinte: solidão, uma grande solidão interior. Entrar em si mesmo e não encontrar ninguém durante horas, é preciso conseguir isso. Ser solitário como se era quando criança, quando os adultos passavam para lá e para cá, envolvidos com coisas que pareciam importantes e grandiosas, porque esses adultos davam a impressão de estarem tão ocupados e porque a criança não entendia nada de seus afazeres. (…) Se um acontecimento mais íntimo é digno de todo o seu amor, é nesse acontecimento que o senhor deve trabalhar de algum modo, sem perder muito tempo nem muito esforço para esclarecer sua posição em relação aos outros homens. Quem é que lhe diz que o senhor tem uma posição.” Rilke, Cartas a um jovem poeta.

  3. Junior Gros disse:

    As palavras são o “sal a gosto” nas receitas de nossas vidas. Para alguns só gosto, para outros sabor e alquimia.
    Meus cumprimentos, mestre cuca do texto gourmet. O texto estava saborosíssimo.

  4. Lara Bona disse:

    E no meio de tantos sentimentos sentidos… SENTIDO!
    …Escolher a “única bússola confiável… Nosso próprio coração”. 😉

  5. todos são solitários a procura de partilhar a dor dos dias com uma pessoa que nos compreenda

  6. Belão disse:

    Isa, que comentário perfeito. Perfeito. Perfeito… perfeito.

  7. Belão disse:

    Dimir! muito grato. Somos todos cozinheiros, alquimistas de nossos dias e de nossas letras. estava com o coração apertado antes desse texto, mas passou ao escrever e poder dizer tudo para o mundo =)

  8. Belão disse:

    Verdade, Lara. O sentido… ahhhh o sentido! =) muito agradecido pelo comentário sempre =)

  9. Belão disse:

    sempre buscamos algo a mais, né? Valeu, Denise =)

  10. Fernanda Vulcanis disse:

    Parabéns pelo texto Belão!

  11. Belão disse:

    valeu, Fer! =)

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