não é pra qualquer um

Era pra ser. Era pra que a sensibilidade nos aproximasse mais e mais das pessoas. Porém, num mundo cego, quem enxerga (ou sente) demais geralmente é isolado ou se isola. Vou arriscar dizer que isso nunca mudará. Nós só passamos a lidar com o fato de forma diferente com base na época e nas experiências de nossas vidas. Eu acredito ou acreditava que o amor pode ou poderia quebrar isso. Nem que fosse só um pouco. Nem que fosse por pouco tempo.

No entanto, acontece que aquilo que nós somos, essa sensibilidade acaba sendo mais forte. E ela aflora sem nos pedir licença. E mergulhamos nela até porque não existe vida fora da sensibilidade. Até que o “eu” sinta tanto e tudo que tudo e todo mundo perdem o gosto e o sabor. Então, há o risco de desaprender de viver com os outros. E o tal do “eu” se isola mais.

Daí, achamos mesmo que não tem mais jeito, até o amanhã nos sorrir com outro motivo para sermos intensos.

E o sujeito numa hora dessas?

Se não for forte o suficiente você vai deixar passar. Tipo o pirata da maldição que não sente o sabor da maçã, não importando quantas ele pode e consegue morder. E, de uma hora pra outra, você busca subterfúgios pra ser feliz, ou pra viver intensamente como antes. E você não sabe distinguir um do outro mais. E a tristeza que está ali ao seu alcance quando todo mundo parece ter esquecido de você. Porém, quem é intenso demais não é de verdade esquecido. Às vezes, e muito pior, é ignorado. Mas dá pra culpar quem isola os intensos? Acho que não.

É difícil de conviver com eles. É interessante, é encantador e é cansativo.

E quando você perdeu a vontade de saborear até mesmo sua tristeza de tão fraca que ela se tornou pra sua intensidade, chegou a hora de uma escolha: ou volta pro mundo morno ou desiste pra sempre. Voltar é sempre melhor, até porque viver é pros bravos e corajosos.

Como eu disse, não ficará fácil com a idade. Pelo contrário, ficará pior e machucará ainda mais. Mas essa é, deve ser a decisão: voltar pro mundo todo dia, mesmo sabendo o quanto o mundo vai lhe fazer sofrer sem você nunca ter pedido pra ser diferente assim.

Uma coisa boa: você não está sozinho.

Outra coisa boa: nós nos encontramos.

A terceira coisa boa: não passa, não se resolve, mas é bom sentir empatia e amor de quem entende a gente de verdade.

Você vai achar que por sermos sonhadores demais, o leve e o surreal são uma dádiva. Até entender que são conquistas. Você vai querer um peso para lhe prender ao chão, para caminhar com mais facilidade e rumo. Até entender que isso só lhe impedirá de ir além. Você vai se sentir cansado, trabalhando cinzento e trancado em si mesmo. Até entender que você acabou de descortinar o mundo em que viver é presente.

Errado?

Quem sente assim tem que ter mais que claro que não existe certo ou errado. Existem convenções sociais. E existe a decisão de ser quem você quer ser. Opto por ser eu mesmo todo dia, nem que pra isso eu precise abandonar as discussões que não querem minha opinião, subverter o que ainda não subverti, ou que eu de um soco na parede do nada – só pra sentir que eu estou existindo e que o mundo está sendo agora.

Essa é uma de minhas missões nessa vida: cumprir o desafio gigante, cansativo e pouco nobre de ser eu mesmo em tudo que racionalizo é desejo. Esse é seu desafio.

Agora sobre ser feliz: haverá as fotografias. A vida é bruta e nos atropela. A vida é grande, bem maior que o mundo ou que as pessoas. Os tolos se acham menores que o dinheiro ou que alguém é. Os iludidos acham que a resposta está no outro, no parceiro, mesmo sem saber que isso é resgate – tipo bombeiros – e não amor. Os sábios podem até ser tristes, mas buscam deixar no outro o brilho de serem eles mesmos. Os mais tapados são os que buscam ser melhores do que os outros pelo conhecimento quando o conhecimento é o único jeito de tentar deixar os outros melhores como a gente sonha em ser.

Eu estou junto com você nesse barco. Sei que não ajuda muito, mas estamos nesse mundo e não é à toa.

Nos momentos de dúvida, na escuridão da noite, não sei se realmente devo aceitar os bons trechos de infelicidade pela minha história. Questiono se quero ser quem eu sou. Chego a preferir ser mais vazio pra viver sem grandes dramas. Talvez, então e só então, eu não precisasse de uma história emocionante e nem prestar atenção em cada minuto. Talvez eu, você e todos nós poderíamos apenas ser comuns e querer uma casa e alguns filhos obedientes. Eu sei do que você está falando: do sonho social que quer aprisionar com promessas. Eu juro que você não cederá. Mas será mais triste mesmo. Saiba, contudo, que você não estará abrindo mão da felicidade. Até porque esse tipo de vida não é pra você e nunca lhe faria feliz. Aprenda mais de você antes e vai notar que em alguns casos ser triste e não se encaixar é escolha sua. E você pode desfrutar melhor só o que te faz bem.

Então, não deixe de ir viver. Saia de casa com seu chapéu mais estranho, aja de maneira estranha e tente ficar ainda mais estranho quando estiverem lhe julgando. Mas aproveite o que faz seu tempo valer a pena. É mais difícil e mais triste, mas cansa menos parar de tentar mudar a gente mesmo.

Conheça mais de você nos próximos anos. Não invista em conhecer você nos outros, isso é um jeito burro de pensar. Nós precisamos de mais. Talvez não seja nessa vida que vai passar. Por isso, não se negue sentir a dor e a frustração. Aprenda com elas, chame-as de amigas se for o caso.

Só não pode desistir. Não é pra qualquer um.

Sobre Belão

Escritor, Professor e Publicitário. Não necessariamente nessa ordem. "Ele soava como um delírio de uma mente cansada da banalidade do segunda-à-sexta. Parecia daqueles que desfilam descuidados pelas ruas, sem se deixar afetar por nada ou ninguém. Com estilo próprio por excelência de consciência e com personalidade mais do que confusa pela falta de linearidade de todas suas idéias, pensamentos, ironias, citações e crises apocalípticas de descontentamento pelo mínimo que o existir exige."
Esse post foi publicado em declarações, esperança, filosofia. Bookmark o link permanente.

6 respostas para não é pra qualquer um

  1. Bill Murray disse:

    Tô com você! ❤️

  2. Belão disse:

    hahahahahh billmurrayemos o mundo!

  3. Cath disse:

    É bom se encontrar em devaneios e se desprender das chances de entristecer. E quando alguém te olha e diz ‘ué, você está preocupado pq quer, ninguém se importa com isso.’ kkk.. Aprendi com o tempo que o bom mesmo é rir e cantar. Beijoss

  4. Belão disse:

    sim, Cath! e amar a tristeza. Mas, por curiosidade, que Cath é vc?

  5. Cath disse:

    Alguém que te quer bem e acha melhor existir apenas assim =)

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