Papo de Cozinha

Papo de Cozinha
– Naquele noite, eu decidi só andar pela cidade. Acabei não fazendo nada de especial.

– Como não? Você andou pela cidade, não?

– Andei.

– E conhecia a cidade já?

– Conhecia, mas não éramos íntimos.

– Conta então de um pedaço novo dela que você conheceu hoje.

– Eu gostei de andar por uma rua movimentada – não sei o nome – que num pedaço tem paralelepípedo e em seguida emenda o asfalto e um viaduto. Sei que parece estranho, mas aquela luz meio amarela, o viaduto e os carros passando rápido me fizeram parar no meio para olhar apenas.

– Olhar o quê?

– A beleza das luzes.

– Você enxerga beleza em qualquer coisa.

– Não é essa a razão de viver?

– A razão de viver é amar, independente da beleza. E aprender amando.

– É, eu não amava o viaduto tanto quanto posso amar alguém. Mas isso não me impedia de achar bonito e de amar o fato de estar ali. Você não tem ciúmes de um viaduto, né?

– Depende das curvas.

– Este tinha uma curva perfeita bem no meio. Para a direita de quem vem e para esquerda de quem vai.

– Traidor.

– Por quê?! Você ainda é mais importante.

– Só até você encontrar uma estrada inteira.

– É o que temos pela frente.

– Não me prometa nada, não lembra o que combinamos?

– Não prometi nada. Vai que no meio da estrada largo você para dar carona para um viaduto.

– Agora você parou de fazer sentido.

– Do jeito que você gosta.

– Pra me agradar?

– Sempre.

– Não prometa!

– Nunca.

– Você é estranho.

– Ufa! Você também.

– Vamos mudar ainda.

– Para a direita ou para a esquerda?

– Juntos.

 

 

Sobre Belão

Escritor, Professor e Publicitário. Não necessariamente nessa ordem. "Ele soava como um delírio de uma mente cansada da banalidade do segunda-à-sexta. Parecia daqueles que desfilam descuidados pelas ruas, sem se deixar afetar por nada ou ninguém. Com estilo próprio por excelência de consciência e com personalidade mais do que confusa pela falta de linearidade de todas suas idéias, pensamentos, ironias, citações e crises apocalípticas de descontentamento pelo mínimo que o existir exige."
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