Vontade de viver é vento

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Quando o começo e o meio da semana se precipitam com a solidão na sua cabeça, James suspira. Recebe do vento, um carinho e, a partir deste, reacende a fagulha de sua vida. Desde pequeninho, um sujeito da terra e devoto apaixonado pelo perfume das águas. Aliás, o que mais amava das águas era a sensação gelada delas passando devagar aos seu pés e por seu tronco. Toda vida sorridente diante de temporais, chuvas, chuvinhas e garoas, ele sempre foi sujeito dos melhores para brindar ainda que de longe.

Havia meses e anos em que você poderia jurar que James não saiu do lugar. Ele, no entanto, manteve o movimento constante em seus dias. Só não sabia explicar a inércia dessas últimas luas. Havia barulho nas ruas, pessoas de bem, casas em volta e tudo parecia igual, mas seu sonho murchava a cada segundo.

Numa conversa com seu amigo, um que morava num prédio meia quadra pra lá, ele tentou explicar: “Não é uma questão de desistir do sonho, mas sinto que a trilha foi coberta por um gramado. Não sei dizer nem se estou perdido, se vai dar certo. Eu forço acreditar. Eu acredito até… acho. Não sei dizer. São vários tipos de não. Vários tipos de silêncio. Várias dores que fazem estalar minhas juntas. Eu me perco sem o vento.”

Seu amigo só ouvia. Não falava nem não, nem sim. Só ouvia e, no silêncio atento, oferecia cuidado. Tamanha era a intenção de amizade de um para o outro que eles se olhavam, se mediam, se miravam e se refletiam num balé de mais nada por dizer. A dança desta tristeza de James, no entanto, seguia. E sua vontade de colocar toda a força vital em um mesmo propósito parecia minguar.

Tudo ficou bem só quando o amigo silencioso rompeu a noite da janela do seu apartamento: “Sim, até mesmo as árvores podem se apaixonar.”

 

 

Sobre Belão

Escritor, Professor e Publicitário. Não necessariamente nessa ordem. "Ele soava como um delírio de uma mente cansada da banalidade do segunda-à-sexta. Parecia daqueles que desfilam descuidados pelas ruas, sem se deixar afetar por nada ou ninguém. Com estilo próprio por excelência de consciência e com personalidade mais do que confusa pela falta de linearidade de todas suas idéias, pensamentos, ironias, citações e crises apocalípticas de descontentamento pelo mínimo que o existir exige."
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