Posto e apago, logo existo?

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Uma amiga que gosto muito veio me contar que sofre de um peso existencial sobre o que posta e do que deixa de dizer nas redes. Em tempos socais digitais, ela me contou, não está fácil saber quem nós somos ou qual “nós” que a gente decidiu ser hoje. Um mundo aparentemente dividido entre quem é o que posta e quem permanece calado diante da aldeia global.

Claro que antes o silêncio, à estupidez ou ao preconceito de qualquer tipo.

Mas será que continuamos sendo nós mesmos quando deixamos de manifestar algo que nos desperta aquela paixão gritando truco e nos fazendo arder por dentro?!

Ou será que a paz e a humildade residem apenas e inexoravelmente em permanecer calado diante daquele post que ofende seu time, sua opção política ou seu personagem preferido de Game Of Thrones? Nem sempre a resposta é tão fácil quanto parece.

Como em toda desigualdade social de manifestação: para uns menos, para outros mais.

Para os italianos, as pessoas com tpm, os arianos impulsivos, os torcedores do Coxa (ou do Botafogo – que fase!), os entorpecidos e os pouco-se-fodendo (entre outros muitos) o negócio é postar hoje para se arrepender – ou não – amanhã.

Há os que falam médio: os que temem, os que amam demais, os que respeitam demais, os advogados, os debaixo de um coqueiro, os acomodados, os apaixonados que estão pensando em outra coisa e os políticos depois da eleição.

E, por sua vez, os que falam de menos… que… hmmm… não sabemos quem são.

“Eu já fui de vários e de nenhum tipo.” Somos o reflexo de todos no que dizemos e no que somos. Afinal, parte que somos, dizemos. Parte do que dizemos, somos. Tenho certeza que vocês também, ou não. Afinal, na rede o negócio é ser e, acima de tudo, ou não. Tanto faz, desde que com conteúdo gostoso e com amor.

 

Sobre Belão

Escritor, Professor e Publicitário. Não necessariamente nessa ordem. "Ele soava como um delírio de uma mente cansada da banalidade do segunda-à-sexta. Parecia daqueles que desfilam descuidados pelas ruas, sem se deixar afetar por nada ou ninguém. Com estilo próprio por excelência de consciência e com personalidade mais do que confusa pela falta de linearidade de todas suas idéias, pensamentos, ironias, citações e crises apocalípticas de descontentamento pelo mínimo que o existir exige."
Esse post foi publicado em Brasil, eleição, Escola da Vida, Liberdade, problemas do mundo. Bookmark o link permanente.

4 respostas para Posto e apago, logo existo?

  1. Lucas Raldi disse:

    Ao conhecer pessoas novas, quase sempre rola um espanto. É muito engraçado ver a cara das pessoas quando você diz que não tem facebook. “Como assim???” “Mas você não existe então!” “Vc tem problema com a justiça ou algo assim??”, dentre outros comentários engraçados. E quando perguntam o pq, nunca tenho tempo (leia-se tenho preguiça) de explicar o real motivo que excluí e nunca mais voltei.

    Há mais de um ano, mudei de emprego e comecei a viajar e passar muito tempo sozinho em quartos de hotéis, longe de família, amigos e rodas de conversa, e sempre tinha o facebook ali, me fazendo companhia e conversando comigo. Sempre fui um usuário desses ativos, postava muitas musicas, marcava presença nos eventos, seguia e compartilhava uma caralhada de coisas.
    Mas como disse, eu tava sozinho, longe das minhas referencias (meus amigos, familiares (pessoas que eu gosto de ouvir a opinião)). E tinha um monte de contatos no facebook que me contavam através de posts a vida deles, as opiniões e os gostos. E diferente de uma mesa de bar, onde eu pergunto tua opinião política, no facebook vem tudo na sua cara, sem pedir (eu sei que existe a opção de não visualizar o feed de tal pessoa, mas to falando de todo mundo mesmo, até as pessoas que a gente gosta (as vezes o cara é muito legal, mas tem uma opinião ridicula de tal assunto, e fb não é um lugar adequado pra debater)).
    Tipo, eu não quero ver a imagem besta que vc compartilhou falando mal da religião de alguém, só pq é ateu e se acha melhor que o evangélico que o pastor rouba dinheiro. Eu não quero saber se vc odeia a dilma, nem se odeia o aécio. Na vida real eu te pergunto esse tipo de coisa, e dependendo do que for a gente debate, conversa.
    Aquilo começou a incomodar bastante.
    E tem outra coisa que é a influencia do fb sobre o nosso comportamento. A gente julga a novela da globo que faz a cabeça das donas de casa e meio que ditam um modo da pessoa ser, ou a malhação que força um estilo nos jovens, mas nunca ninguém pensou na influencia que o fb tem nas nossas vidas. O quanto ver as pessoas falando e conversando de um certo modo molda nosso estilo de ser. Esse texto explica muito bem sobre a influencia do fb nas nossas vidas: http://papodehomem.com.br/para-o-facebook-voce-e-estatistica/

    Mas voltando ao meu caso. Decidi sair do facebook, e passar um tempo “não existindo”. O que é não ter fb nos dias de hoje? É se sentir triste e não postar uma musica do radiohead pra contar pra todo mundo que está triste. É estar feliz e não poder contar pra todo mundo o que está sentindo. É estar de olho naquele brotinho e não poder mandar uma indireta através de um post na timeline. E o contrário tbm vale. Se eu preciso saber como meu amigo está, preciso ligar ou marcar de encontrar pessoalmente.
    A experiencia mais legal de não ter facebook é conhecer as pessoas de verdade. Tenho um grande amigo que é muito popular. É lindo ver o facebook dele, vários mil amigos, ele é Dj em algumas baladas, conhece todo mundo que frequenta a trajano, não pega fila em bar, só tem foto em festas e com bebidas e feliz. Esses dias fomos tomar um café e o cara tem tendencias fortes a depressão. Só fala de como não é feliz de verdade, do quanto bebe pra superar essa tristeza. Os poemas e as pinturas que ele faz retratam isso. o vazio no olhar dele tbm. Mas quase nunca reparam, pq ele decidiu ser uma pessoa no facebook e todo mundo conhece ele por aquilo. E isso acontece o tempo todo.

    Nossa geração é isso. A gente escolhe o que quer ser e vai moldando com posts, curtidas, comentários. E pior, vai moldando nosso jeito de ser e compartilhar as coisas.
    Depois que exclui meu facebook, tenho visto o lado das pessoas que elas não escolhem mostrar. E melhor, depois que exclui meu facebook eu sou o que eu quiser o tempo todo. eu nao tenho mais onde compartilhar as coisas que to sentindo, então não preciso mais medir nada que eu sinto pra ver se ficaria bom num post. Se eu gosto de alguém, eu preciso ligar e contar, ou olhar no olho e explicar o que eu to sentindo. não tem mais espaço na minha vida pra indiretas. É uma sensação de liberdade imensa. não consigo contar quantas vezes já ouvi “nossa, nunca conheci ninguem igual a você”, acho que pq o modo que levo a vida hoje não segue os padrões que a minha geração inteira está seguindo.

    Enfim, considero que foi a melhor coisa que eu fiz (mesmo perdendo a data de aniversário dos amigos (que eu nunca mandava parabéns mesmo haha)). A certeza vem em épocas tipo eleição, copa do mundo, e meus amigos reclamam que a timeline tá uma porcaria, que ta enchendo o saco só ler sobre eleição, eleição, eleição, copa, copa, copa, menina estuprada, cachorrinho perdido, o corpo é meu, vídeo do taca-lhe pau, etc.
    É tão mais gostoso escolher o que eu quero ler, debater. E não digo isso como uma pessoa preguiçosa do tipo “aahh quero ficar na minha bolha”. Não, eu sigo meus blogs, amo conhecer gente nova, gosto de ouvir opiniões diferentes das minhas.

    E eu recomendo a todos, nem que seja por um curto período esse “desaparecimento”. É bem legal.

    Desculpa o texto longo (e sem revisar) aqui nos coments. É que nunca escrevi sobre esse assunto, e depois de ler teu texto deu vontade de escrever alguma coisa a respeito.

    Um abs

  2. Priscilla disse:

    Volta e meia me pergunto sobre os danos que o “face” tem me feito. É um vício! E eu, que estou morando longe, fico com aquela falsa impressão de que estou perto. Fácil isso de manter os amigos sem muito esforço, apenas digitando algumas palavras. Mas o fato é que é uma vida vazia. A vida que importa não tem facebook. Algo me diz que logo logo vou jogar essa porcaria no lixo! Tá me tornando doente. E certamente os amigos de verdade vão me mandar emails pedindo notícias, e os não amigos, simplesmente vou sumir da linha do tempo e nem vão perceber. E os inimigos, bem esses vão me achar arrogante, ou que estou me vingando ou qualquer outra coisa parecida que os faz achar que são o centro do meu universo. Azar o deles! Energia negativa de menos pra mim! E como todo o vício, tá difícil largar!

  3. Belão disse:

    Acho que tem muitas coisas boas tambem, Priscilla. Mas sempre temos que avaliar mesmo e nos reavaliar tambem no uso :))

  4. Belão disse:

    Lucas, adorei seu comentario, seu relato e o texto que vc indicou. Muito grato mesmo. Acho que temos que avaliar constantemente nossa postura nessas redes. Gosto mais de me criticar e as coisas que escrevo sao sobre isso tambem, uma auto-critica diante de tudo isso ao mesmo tempo. Muito agradecido mesmo, venha sempre e comente do jeito que quiser. Nao se preocupe se ficar longo. Adoro receber retornos como o seu 🙂

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